Fed projeta corte de juros e inflação na meta apenas em 2028
Mediana das projeções do colegiado do Fed, que acompanham decisão sobre juros, pioraram em relação à reunião anterior

O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) elevou nesta quarta-feira, 16, a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, a primeira alta do ciclo comandado por Kevin Warsh. Além da decisão, já antecipada pelo mercado, a autoridade monetária também soltou o seu Resumo das Projeções Econômicas (SEP). As projeções sinalizam juros altos por mais tempo e a inflação voltando ao objetivo de 2% só no fim da década.
Pela mediana das projeções, os dirigentes veem a taxa dos fed funds encerrando 2026 em 4,1%, o que abre espaço para mais um aperto residual ainda neste ano a partir do patamar definido agora. Para 2027, a mediana permanece em 4,1%, sem qualquer corte. A primeira redução aparece apenas em 2028, quando a projeção recua para 3,9%, seguida de 3,6% em 2029. A taxa neutra de longo prazo foi fixada em 3,2%.
O quadro representa um endurecimento frente a junho, quando o Fed ainda projetava a taxa em 3,8% para o fim de 2026 e 3,6% para 2027. As revisões da reunião anterior já apontavam para uma trajetória mais dura, e o comitê apenas reforçou essa leitura.
Inflação mais persistente
A justificativa está nos preços. A projeção para o índice de preços de gastos com consumo (PCE) cheio em 2026 subiu de 3,6% para 3,7%, enquanto o núcleo do PCE, indicador que exclui alimentos e energia e é o mais acompanhado pelo Fed para medir a tendência, avançou de 3,3% para 3,4%. Ambos estão bem acima da meta de 2%.
A convergência é lenta. O PCE cheio recua para 2,3% em 2027, 2,1% em 2028 e só encosta em 2,0% em 2029. O núcleo segue caminho parecido, com 2,5% em 2027, 2,2% em 2028 e 2,0% apenas em 2029. Os riscos para a inflação foram avaliados como fortemente inclinados para cima pela maioria dos participantes, que também classificou a incerteza sobre os preços como elevada.
Atividade dá margem ao aperto
A resiliência da economia americana dá ao Fed espaço para priorizar o combate à inflação. A projeção de crescimento do PIB real de 2026 foi revisada de 2,2% para 2,3%, e a de 2027, de 2,3% para 2,4%. A estimativa de longo prazo permanece em 2,0%.
O mercado de trabalho seguiu na mesma direção. A taxa de desemprego projetada para 2026 caiu de 4,3% para 4,1% e se mantém nesse nível até 2029, abaixo da projeção de longo prazo de 4,2%. Com atividade firme e emprego apertado, o comitê tem menos razões para afrouxar a política monetária no curto prazo.
Warsh no comando
A decisão ocorre sob a gestão de Warsh, que assumiu o Fed em maio. Em Jackson Hole, o chairman condicionou qualquer flexibilização à confiança de que a inflação caminha para 2% de forma clara.
Nos dias que antecederam a reunião, o rendimento dos Treasuries de dez anos (títulos do Tesouro dos EUA) superou 5%, o maior nível desde 2007, num sinal de que o mercado de títulos vinha exigindo prêmio maior para carregar a dívida americana de longo prazo.
Para o investidor brasileiro, o aperto americano estreita o diferencial de juros com o Brasil, num momento em que o Copom vem cortando a Selic, e adiciona pressão sobre o real.
