FIDC ganha espaço no varejo enquanto ações e multimercados perdem R$ 20 bilhões
Fundos de direitos creditórios captaram R$ 56 bilhões até setembro, enquanto juros altos levam investidores a buscar alternativas mais conservadoras e afastam recursos da renda variável

Os Fundos de Investimentos de Direitos Creditórios (FIDCs) continuam se destacando, é o que aponta o relatório de fundos da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Foi a segunda classe que mais captou até setembro de 2026, atrás apenas da renda fixa — foram captados R$ 56 bilhões.
Dentros dos FIDCs, quem vem ganhando protagonismo é o varejo, que num passado não podia acessar o ativo. Apesar de pouco expressivo perto dos R$ 819 bilhões de patrimônio líquido dos FIDCs, o PL do varejo saltou de R$ 2,7 bilhões em dezembro de 2025 para R$ 5,1 bilhões em agosto de 2026, um aumento de quase 89%.
“E é um movimento pulverizado, não é concentrado em poucos fundos”, diz Julya Wellisch, diretora da Anbima. Os números de fundos entre outubro de 2025 e setembro de 2026 também tiveram um crescimento considerável. Foram de 3.785 para 4.270, um aumento de cerca de 13%.
“Temos que lembrar, por exemplo, quando estávamos num ambiente de taxa de juros baixa, o varejo queria e procurava acessar diversos produtos para ter uma diversificação e não podia: FIDC, FIP e por aí vai. Então agora o varejo poder ter acesso é muito bom”, comenta Pedro Rudge, diretor da Anbima.
Mas, segundo ele, entra uma questão de educação financeira e de suitability. “É aí que os participantes e a indústria precisam tomar cuidado para oferecer a quem tem o perfil daquele produto o tamanho adequado. Porque o problema, na grande maioria dos casos, não é o investidor ter acesso a produtos arriscados. A questão é o tamanho da exposição.”
Mais transparência
Motivada pela rápida expansão da indústria, a Anbima diz estar intensificando as discussões e cobranças voltadas à regularização e à transparência dos FIDCs, de acordo com a CVM 175. “A gente tem trabalhado com foco muito grande no aprimoramento da transparência dessas estruturas, até porque dentro de FIDC cabe muito ativo e, embora seja crédito, muita coisa é muito diferente entre si”, diz Wellisch.
Hoje, a classificação dos FIDCs não consegue mostrar com clareza que tipo de crédito está dentro de cada fundo. Segundo Wellisch, uma parcela relevante acaba enquadrada na categoria “outros”, que diz pouco sobre a estratégia e os riscos do produto.
Por isso, a Anbima pretende criar uma nova classificação, que permita identificar, por exemplo, se o FIDC investe em crédito consignado, imobiliário, educacional, recebíveis comerciais, créditos judiciais ou outros tipos de direitos creditórios. A proposta ainda passará por audiência pública e, para os novos fundos, a expectativa é que entre em vigor no início de janeiro.
A mudança, porém, não ficará restrita aos FIDCs criados depois da nova regra. Os fundos que já existem também terão de ser adaptados gradualmente à nova classificação. De acordo com Wellisch, a previsão é que 50% do estoque de fundos esteja adaptado até abril de 2027 e que todo o estoque restante esteja classificado até junho de 2027.
A nova classificação faz parte de um conjunto de medidas para tornar o mercado de FIDCs mais transparente e seguro, especialmente diante do crescimento da participação do varejo. Além da mudança na forma de classificar os fundos, a Anbima cita iniciativas como o guia para provisão de devedores duvidosos.
A ideia, segundo Wellisch, é que o investidor consiga entender melhor o produto que está comprando e os riscos envolvidos, permitindo que o crescimento da indústria — inclusive entre investidores de varejo — ocorra de maneira sustentável e segura.
Cenário desafiador
Na outra ponta, ações e fundos multimercados estão entre as classes que mais perderam recursos em 2026, em um movimento que reflete a preferência dos investidores por alternativas mais conservadoras em um cenário de juros elevados e incertezas fiscais. Até setembro, os fundos de ações registraram saída líquida de R$ 10,9 bilhões, enquanto os multimercados tiveram resgates de R$ 9,3 bilhões, segundo dados da Anbima.
No caso dos multimercados, apesar do volume expressivo de resgates, o patrimônio líquido da classe permaneceu praticamente estável nos últimos 12 meses. Segundo Rudge, isso ocorre porque o patrimônio que permaneceu aplicado continuou rendendo e ajudou a compensar parte do efeito das retiradas.
Para o diretor, da Anbima, a saída de recursos de ações e multimercados está relacionada principalmente à preferência dos investidores por produtos de menor risco. Com os juros elevados, os investidores têm direcionado recursos que antes estavam em ativos de maior risco para alternativas mais conservadoras, como a renda fixa. A oferta de produtos bancários atrativos e isentos de impostos também contribuiu para esse movimento.
A expectativa, porém, é que esse fluxo possa mudar caso o ambiente econômico fique mais favorável. Segundo o executivo, uma maior clareza sobre o cenário macroeconômico, combinada a uma perspectiva de redução dos juros, poderia aumentar o apetite dos investidores por risco. “Assumindo que tenhamos essas características, acho bastante plausível vermos o retorno dos recursos para multimercado e ações.”
