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InvestMercados
09/10/2026
5 min

FIDC para todos? Fora do eixo Rio-SP, demanda por emissões ainda encontra pouca oferta

Só até setembro deste ano, classe captou R$ 56 bilhões, a segunda maior captação, atrás apenas da renda fixa

FIDC para todos? Fora do eixo Rio-SP, demanda por emissões ainda encontra pouca oferta

Antecipar recebíveis virou um negócio — daqueles grandes. O patrimônio dos Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDCs) captaram R$ 56 bilhõe este ano, ficando atrás apenas da renda fixa. O patrimônio líquido alcançou a marca de R$ 819 bilhões em setembro, um aumento de 9%, enquanto o número de fundos abertos foi de 3.785 para 4.270, um crescimento de cerca de 13%. O mercado vive um boom e, apesar da concentração na região Sudeste, os FIDCs se expandem para outras localidades.

Um levantamento do Grupo IOX, com três dos seus 10 FIDCs, mostra que o Sudeste concentra 74,1% do volume financeiro da carteira analisada, com São Paulo respondendo sozinho a 62,5% do volume financeiro da carteira. Ele é seguido por Rio Grande do Sul (9,8%) e Pernambuco (5,7%).

Especialistas ouvidos pela EXAME explicam que os FIDCs acompanham a própria distribuição econômica brasileira. Como o Sudeste responde por uma parte relevante do Produto Interno Bruto (PIB), abriga a maior densidade de cadeias industriais e de serviços. “Logo, é natural que a maior parte dos recebíveis e do volume transacionado se concentre nessa região”, diz Rafael Cunha Andrade, Diretor Executivo de Crédito da SRM.

Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX, acrescenta que a região concentra também empresas mais longevas, com histórico, o que traz mais visibilidade nas captações.

“A região possui maior densidade empresarial, maior número de empresas médias e grandes e uma cadeia produtiva mais desenvolvida. Naturalmente, isso gera uma maior quantidade de empresas com informações financeiras disponíveis e histórico suficiente para acessar estruturas de crédito privado.”

Mas essa concentração não significa em uma ausência de oportunidades em outras partes do país. “Empresas fora dos grandes centros podem ter bons fundamentos, geração de caixa e capacidade operacional, mas historicamente ficaram mais dependentes do relacionamento bancário local”, diz Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX.

Jonatas Ortega, diretor do Grupo CVPAR, afirma que não falta crédito bom. “O que falta é aproximar quem origina de quem estrutura e de quem investe”, afirma. A CVPAR tem atuação em Fortaleza e a maior parte dos créditos originados vem do Nordeste, onde, segundo Ortega, a demanda por emissões é bem maior que a oferta.

Há demanda

Segundo Marcelo Marques Pacheco, CEO da Yards Asset, o movimento de fechamento de agências bancárias reduziu a proximidade entre os bancos e os pequenos negócios locais, criando uma lacuna que pode ser ocupada por estruturas de crédito privado.

“O gerente conhecia o comércio local, todo mundo pelo nome, e financiava ele. Na medida que você fecha aquela agência, o comércio local fica desassistido. Quando você transfere essa concessão de crédito para a sede do banco, essa sede vai trabalhar com uma estatística, porque ela não vai conhecer de perto aquele comerciante.”

Andrade, da SRM, explica que em praças onde as linhas bancárias são mais restritivas ou excessivamente caras, o FIDC desponta como uma via direta ao mercado de capitais, ancorada na qualidade operacional do negócio dos seus recebíveis.

Para Pacheco, essa mudança ajudou a abrir espaço para novos operadores. Ele cita o caso de gerentes que deixaram os bancos, abriram empresas que compram direitos creditórios para atender clientes que já conheciam e, posteriormente, transformaram essas estruturas em FIDCs. A demanda não significa que todos os tipos de FIDC dependam de presença física. Algumas estruturas permitem uma análise mais distante, enquanto outras exigem conhecimento aprofundado da região e dos tomadores.

Nesse contexto, o avanço dos FIDCs não depende apenas de levar gestores para novas regiões, mas de encontrar operadores que conheçam os mercados locais, diz Ionescu.

É preciso conhecer de perto?

O FIDC é considerado uma das melhores alternativas para empresas de médio e pequeno porte acessarem o mercado de capitais em regiões que o crédito é mais difícil, pontua Ortega. “Mas há uma ressalva. A empresa precisa ter recebíveis de qualidade e um mínimo de organização: controles, documentação e informação confiável. Cumprido isso, o FIDC permite que uma média empresa do interior ou do Norte e Nordeste acesse investidores do país inteiro, em vez de depender só do banco local.”

Segundo Daniel Castro, CEO da Inter Asset, investir em diferentes regiões exige conhecimento da dinâmica local, especialmente dos processos de cobrança e das operações de crédito.

“Para ir para outra geografia, seja Norte, Nordeste, São Paulo, Rio ou qualquer outra região, você precisa conhecer o mercado local. Buscamos entender para quem aquele gestor está emprestando, se ele está mantendo o mesmo perfil de operação ou se, ao começar a receber mais dinheiro, está navegando em mares nunca antes navegados, com um perfil de risco descalibrado. Mas não existe uma preferência geográfica. Buscamos muito mais aquele bom operador regional”, afirma.

Ortega complementa: o crédito estruturado depende de conhecer de perto o cedente, o devedor e a garantia. “Uma operação no interior do Nordeste é muito difícil de avaliar a partir da Faria Lima. São necessários originadores e gestores instalados nas regiões, que entendam a economia local e consigam acompanhar a operação no dia a dia”, destaca.

Andrade tem uma visão diferente. “Com o avanço da tecnologia, análise orientada a dados e esteiras remotas de monitoramento, a barreira geográfica foi praticamente superada. Uma empresa no interior do Ceará ou de Goiás com faturamento consistente e governança mínima consegue acessar estruturas tão eficientes e competitivas quanto uma companhia sediada nos grandes centros financeiros”, conclui.

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
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