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InvestMercados
14/10/2026
7 min

Fim da escala 6X1 avança no Congresso: como isso impacta as ações?

Proposta está na pauta de votação do Senado desta quarta-feira, 14. Analistas recomendam cautela e seleção de empresas, sem decisões precipitadas com a votação

Fim da escala 6X1 avança no Congresso: como isso impacta as ações?

A votação da proposta que prevê o fim da escala 6x1 no Senado, nesta quarta-feira, 14, ocorre em meio à pressão sobre ações de empresas de varejo e serviços, setores que podem ser afetados pelo aumento dos custos com pessoal. Analistas avaliam que a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem corte salarial, pode comprometer as margens de lucro de companhias que dependem de mão de obra intensiva, especialmente aquelas com menor capacidade de repassar despesas aos preços.

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) será submetida ao plenário do Senado hoje em uma etapa decisiva de sua tramitação. Para avançar, o texto precisa de pelo menos 49 votos favoráveis entre os 81 senadores. A depender do resultado e da aprovação de um calendário especial, a análise em dois turnos poderá ser concluída ainda nesta quarta-feira.

O movimento, porém, não deve ser interpretado isoladamente como uma mudança generalizada na direção da bolsa. Segundo os analistas consultados pela EXAME, a proposta representa um risco mais concentrado em companhias que dependem de equipes numerosas, precisam manter lojas e serviços em funcionamento por longos períodos e têm pouca margem para absorver despesas adicionais.

“Estamosfalando, talvez pela primeira vez em bastante tempo, de uma alteração estrutural no custo da mão de obra no Brasil”, afirma Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor.

Na visão do analista,se a jornada semanal cair de 44 para 40 horas, sem redução salarial, o custo por hora trabalhada aumenta cerca de 10%, considerando a mesma remuneração e sem ganhos de produtividade. Para preservar o nível de operação, as empresas poderão precisar contratar mais funcionários, pagar horas extras, reorganizar turnos ou investir em automação.

O efeito sobre os resultados, contudo, depende da estrutura de custos de cada companhia e de sua capacidade de compensar o aumento das despesas. As empresas com margens apertadas e menor poder de repassar preços tendem a sentir mais a mudança, enquanto negócios com maior produtividade, escala e balanços menos alavancados têm mais alternativas para se adaptar, avaliam.

Varejo concentra preocupação do mercado

O varejo está entre os segmentos mais expostos à mudança, especialmente nos negócios que mantêm lojas abertas todos os dias e precisam de equipes para cobrir diferentes turnos. Os setores de vestuário, supermercados, atacarejo, farmácias, eletrônicos e comércio de produtos para animais estão entre as atividades que merecem atenção.

Na bolsa, a preocupação alcança empresas como Azzas, Lojas Renner, C&A, RD Saúde, Assaí, Carrefour, Grupo Mateus, Magazine Luiza e Petz. Assim como as redes de restaurantes, bares, hotéis, academias e empresas de saúde e educação também podem enfrentar pressão sobre os custos.

O estrategista Enrico Cozzolino, sócio da Zermatt Partners, afirma que parte dessa preocupação já aparece no comportamento recente das ações, hoje, por exemplo, o Ibovespa recua mais de 1%, dando sequência à queda na véspera. Segundo o executivo, papéis de varejistas e empresas de serviços intensivos em mão de obra, como Azzas, Renner, Magazine Luiza, Assaí, Hapvida e companhias de educação, estiveram entre os destaques negativos nas sessões recentes.

A queda, no entanto, não pode ser atribuída exclusivamente à PEC. O mercado também repercute a inflação americana acima do esperado nesta quarta, a realização de lucros depois da alta de quase 9% do Ibovespa em uma semana e as incertezas do calendário eleitoral.

“A votação acontece em plena campanha, o que traz uma leitura política e aumenta a incerteza”, diz Cozzolino.

Maria Carolina Luchesi, especialista de investimentos da Hike Capital, também avalia que a proposta não é o principal fator por trás da cautela recente. O Ibovespa recuou 1,04% na terça-feira, 13, aos 206.887 pontos, em um movimento que reuniu realização de lucros,expectativa pela pesquisa Quaest sobre o segundo turno presidencial, inflação americana e alta do petróleo.

Além disso, a proposta já havia avançado na Câmara, em maio, e na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, em setembro. A expectativa de aprovação, portanto, não é inteiramente nova para os investidores. 

“O impacto aparece nas ações dos setores mais expostos, que têm peso menor no Ibovespa do que bancos, Petrobras e Vale”, afirma Luchesi.

Quanto a mudança pode custar às empresas?

As estimativas disponíveis indicam que o aumento das despesas com pessoal pode ter efeito relevante sobre a rentabilidade, principalmente no varejo.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima aumento de cerca de 7% no custo da folha formal, percentual que chegaria a 11% na indústria.

No varejo, o BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) estima uma queda média de 9,5% no Ebitda, indicador de resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, sem medidas de compensação. Já a Fitch projeta uma redução de 10% a 15% no Ebitda das varejistas.

“Estimo queda de até 2,4 ponto percentual (na media das epresas de varejo que olhamos), na margem EBITDA. No médio prazo, podem se beneficiar empresas de automação e tecnologia, que ajudam a substituir mão de obra, e setores de lazer e turismo, se as pessoas tiverem mais tempo livre”, avalia Cozzolino.

Na avaliação de Gabriel Mota, analista de renda variável da Manchester Investimentos, o problema é particularmente relevante para negócios que já operam com rentabilidade reduzida.

“Quando você tem juros elevados e empresas operando basicamente no limite dos custos para conseguir algum lucro, um aumento adicional de despesas pode acabar chegando ao preço do produto final”, afirma.

Nesse cenário, o consumidor pode absorver parte da conta por meio de preços mais altos. Para as empresas, porém, o repasse não é automático e depende da concorrência, da demanda e do espaço que cada negócio tem para reajustar seus produtos e serviços sem perder vendas.

As pequenas e médias empresas também podem enfrentar mais dificuldades para se adaptar, segundo Mota. As companhias menores tendem a ter menos recursos para investir em tecnologia e reorganizar equipes, enquanto grandes grupos podem contar com escala para diluir parte das despesas adicionais, observa.

“Não vai ter conta mágica. Quem já está com uma margem muito apertada provavelmente terá mais dificuldade para absorver esse custo”, diz o analista.

O que o investidor deve fazer?

Para os analistas,o avanço da PEC exige atenção à exposição da carteira, mas não justifica decisões precipitadas com base em uma única votação. O primeiro passo é avaliar quais empresas podem ter os resultados mais comprometidos, em vez de tratar todo um setor como igualmente vulnerável.

“Não acho que isso seja motivo de pânico, mas é um fator de seleção”, afirma Simão. Para o sócio-fundador do Hub do Investidor, empresas com poder de precificação, capacidade de elevar a produtividade e balanços saudáveis tendem a ter mais condições de absorver o impacto ao longo do tempo. As mais alavancadas, por outro lado, ficam mais vulneráveis.

Na Hike Capital, a análise considera a participação da folha de pagamento nos custos, as margens, o endividamento e a capacidade de repassar preços. "O investidor deve evitar decisões amplas com base em uma única votação. A transição de 14 meses dá tempo para as empresas se ajustarem, e a diversificação reduz a exposição a um único fator regulatório", afirma Luchesi.

Cozzolino recomenda que o investidor também observe a concentração da carteira. Quem tem exposição elevada a varejo e serviços domésticos pode avaliar o equilíbrio com setores menos dependentes de mão de obra, como exportadoras, commodities, energia e bancos.

Isso não significa que esses segmentos estejam imunes a outros riscos de mercado, mas que apresentam uma exposição direta menor à mudança na jornada de trabalho.

“Para quem pensa em longo prazo, quedas exageradas em boas empresas podem virar oportunidade de compra, desde que a tese continue de pé depois de recalculado o custo extra, acrescenta o sócio e estrategista da Zermatt Partners.

Aprovação não significa mudança imediata

A votação desta quarta-feira ainda não altera, por si só, as regras de jornada. O texto precisa obter pelo menos 49 votos favoráveis em dois turnos no Senado. Se houver mudanças na redação em relação à versão aprovada pela Câmara, a proposta terá de retornar aos deputados.

A PEC prevê reduzir o limite semanal de 44 para 40 horas, garantir dois dias de descanso remunerado e impedir a redução salarial.

A implementação seria gradual: a primeira etapa começaria 60 dias após a promulgação, com jornada máxima de 42 horas semanais, e a redução para 40 horas ocorreria 12 meses depois, totalizando cerca de 14 meses até a implementação completa.

AutorClara Assunção
FonteExame
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