‘Fim da escala 6x1 pode elevar custo do varejo em pelo menos 20%’, diz presidente do IDV
Jorge Gonçalves diz que varejistas já enfrentam juros altos, inadimplência e crédito restrito e vê risco adicional com mudanças na jornada de trabalho

O varejo no Brasil enfrenta um momento apertado com juros altos, restrição de crédito e alto endividamento das famílias, segundo Jorge Gonçalves, presidente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), durante evento do Movimento Brasil Competitivo (MBC) e da EXAME, em São Paulo, nesta terça-feira, 25.
Para o empresário, o setor encara grandes obstáculos para a competitividade no Brasil e ressaltou sua preocupação com os possíveis efeitos do fim da escala 6x1. Em abril, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enviou ao congressoo projeto a mudança no modelo em que o trabalhador atua por seis dias com um dia de descanso.
6x1: redução da jornada para 40 horas pode cortar R$ 76,9 bi do PIB, diz CNI"A questão do emprego está bem difícil. Se houver a redução da escala vai ser muito ruim para o varejo, pois vai causar aumento de custo, em pelo menos 20%. Ou seja, a despesa em mão de obra se tornará um ponto preocupante e o cenário para o varejo será bem mais desafiador", afirmou Jorge Gonçalves.
De acordo com o presidente do IDV, as varejistas acompanham com atenção o andamento do projeto e se preparam para os efeitos das eleições presidenciais.
"Todos estão montando seus orçamentos para 2027, olhando como serão os próximos meses, especialmente para as eleições antes de fazer projeções. Mas o varejo está em um momento bastante apertado".
Ele também enumerou outros elementos que atingem o crescimento do varejo no país e destacou o cenário macroecônomico. "É um momento bastante peculiar. Nós enfrentamos desafios com juros na estratosfera há bastante tempo, o capital empregado no varejo tem necessidade elevada e alto nível de inadimplência entre as famílias".
Ameaça das bets e riscos com a taxa das blusinhas
Setor produtivo brasileiro está em segundo plano, segundo diagnóstico feito por representantes do varejo, da indústria e da infraestrutura em evento do Movimento Brasil Competitivo (MBC) e da EXAME, em São Paulo, nesta terça-feira, 25. (Eduardo Frazão/Exame)
Para Gonçalves, as bets representam uma grande ameaça ao setor por drenar recursos e a renda das famílias brasileiras. Em seu discurso, ele detalhou o tamanho do impacto econômico dos jogos de apostas.
"Isso mexeu com todos os setores da sociedade. Se olharmos para 2025, o governo recolheu R$ 9 bilhões. Mas se fizermos o cálculo ao contrário, ao grosso modo, chegamos a R$ 30 bilhões retidos todo o mês em bets, que deixa de circular não apenas no varejo, mas também em todos os setores. Temos histórias tristes de pessoas que estão endividadas e perdem seus empregos por conta das bets".
Gonçalves criticou também a decisão do governo federal de zerar a taxa das blusinhas, a cobrança de 20% para produtos importados de até US$ 50. Em relação às perspectivas para o futuro, ele considera que a medida prejudica a manutenção de um ambiente econômico competitivo e equilibrado, e as empresas nacionais serão as mais atingidas.
"Temos a questão do zero no imposto de importação cross boarder, a chamada taxa das blusinhas, que atinge calçados, brinquedos, itens de beleza e muito mais. Em 2025, entrava em torno de 14,5 milhões de pacotes por mês. Mas em 2026, começamos em torno de 15 milhões de pacotes por mês. Em maio, quando saiu a medida provisória que zerou os 20% de impostos em exportação, apenas naquele mês, frente à quinzena anterior, subiu 70% e fechou maio com 20 milhões de pacotes. Entre junho e julho subiu para 28 milhões de pacotes. São alguns bilhões que estão saindo do mercado e indo para fora".
Diante desse panorama, o presidente do IDV manifestou sua preocupação com o interesse de companhias asiáticas de e-commerce em investir ou expandir suas operações no Brasil.
"A projeção disso é continuar crescendo. Uma das plataformas asiáticas que fez IPO lá fora projetou venda de 45 milhões de produtos no mundo e disse que ambiciona 10% das vendas do Brasil, o que representa US$ 4,5 bilhões, quase R$ 25 bilhões que eles querem tirar daqui e levar para fora. Isso é terrível para o varejo".
