Final da Copa movimenta mais bares que 3 jogos do Brasil e e-commerce sobe 11,4%

A Copa do Mundo de 2026 teve um gosto amargo para o torcedor brasileiro, mas não foi suficiente para esfriar o interesse da população pelo torneio. Pelo contrário. A final entre Espanha e Argentina, disputada no último domingo, 19, movimentou os bares mais do que a maioria dos jogos da Seleção Brasileira e mostrou que, mesmo sem o Brasil em campo, o futebol continuou impulsionando parte do consumo no varejo.
Os dados indicam, porém, que esse impulso ficou concentrado em segmentos específicos, principalmente os ligados à experiência de assistir aos jogos, ao consumo imediato e ao comércio eletrônico, enquanto outras áreas do varejo tiveram impacto limitado ou permaneceram em retração, como mostra o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA).
Segundo o ICVA, o faturamento de bares, discotecas e casas noturnas cresceu 14,5% na comparação com o domingo equivalente do ano passado. O desempenho superou o registrado em três dos cinco jogos do Brasil na Copa.Na estreia da seleção, na partida contra o Marrocos, esse indicador ficou em 6,4%, enquanto que no jogo com o Haiti, ele caiu 2,8%. Já contra a Noruega, partida que marcou a eliminação da Seleção, houve alta de 13,8%. Apenas os confrontoscontra Escócia (34,1%) e Japão (86,1%), o segundo e o quarto jogos, respectivamente, apresentaram resultados superiores.
O Índice Cielo do Varejo Ampliado acompanha mensalmente a evolução do varejo brasileiro com base em 18 setores que vão desde pequenos lojistas a grandes varejistas. Os números sugerem que a presença da Argentina na decisão foi suficiente para manter o interesse dos brasileiros pela Copa, ainda que em intensidade menor do que quando o Brasil seguia vivo na disputa.
"Mesmo sem a Seleção Brasileira em campo, a final manteve a capacidade de mobilizar o consumo e transformou os bares em pontos de encontro para acompanhar a decisão da Copa do Mundo. O Varejo se beneficia dessa paixão brasileira pelo futebol", afirma Carlos Alves, vice-presidente de Tecnologia e Negócios da Cielo.
A movimentação, porém, ficou concentrada nos estabelecimentos associados à experiência coletiva. Enquanto bares cresceram 14,5%, restaurantes praticamente ficaram estáveis, com alta de apenas 0,2%, e as lanchonetes registraram queda de 9%. Segundo a empresa de serviços finaneciros e pagamentos eletrônicos, o comportamento mostra que o consumidor procurou locais que ofereciam televisão, bebida e convivência para acompanhar a decisão.
Regionalmente, o Distrito Federal liderou o crescimento dos bares, com alta de 15,8%, seguido por São Paulo (14,6%), Ceará (13,2%), Minas Gerais (10%), Santa Catarina (8,6%), Bahia (4,4%) e Rio de Janeiro (2,4%). O Rio Grande do Sul foi o único estado analisado a apresentar retração, ao cair 6,2%.
Varejo total avançou 1,8% no final da Copa do Mundo
Além de manter os bares movimentados, a final também trouxe uma dinâmica diferente para o restante do comércio. Ao contrário da maior parte dos jogos do Brasil, quando o varejo tradicional desacelerou ou recuou, o varejo total avançou 1,8% no domingo da decisão.
O resultado foi sustentado principalmente pelo comércio eletrônico, que cresceu 11,4%, enquanto as lojas físicas permaneceram praticamente estáveis, com leve queda de 0,3%.Durante os jogos da Seleção, o comportamento havia sido diferente. O varejo total recuou 1,3% na estreia contra o Marrocos, avançou 1,7% diante do Haiti, caiu 5,6% contra a Escócia, despencou 20,4% no confronto com o Japão e voltou a cair 1,7% naeliminação para a Noruega. Em parte dessas partidas, o e-commerce ajudou a amortecer as perdas, com altas de 15,5%, 22,9% e 5,8%, respectivamente.
A leitura é que, sem a Seleção em campo, a decisão deixou de provocar paralisações do comércio tradicional, mas ainda conseguiu estimular gastos ligados ao lazer e ao consumo imediato.Isso aparece também na abertura por macrossetores. Na final, Serviços cresceu 6,9% e Bens Não Duráveis avançaram 2%. Em sentido oposto, Bens Duráveis e Semiduráveis recuaram 18,7%, indicando que o evento estimulou principalmente despesas relacionadas à experiência, mobilidade e alimentação, e não compras de maior valor.
Entre os segmentos, Turismo e Transporte lideraram os ganhos, com alta de 15,7%, seguidos pelo varejo alimentício especializado (7,3%) e drogarias e farmácias (4%). Já Recreação e Lazer caiu 5,7%, enquanto Bares e Restaurantes, considerados como um macrossetor mais amplo, recuaram 2,9%.Para especialistas, o varejo ficou abaixo das expectativas
Os dados da final encerram uma Copa marcada por resultados mistos para o varejo. Embora alguns segmentos tenham se beneficiado dos dias de jogo, o desempenho agregado do comércioficou abaixo das expectativas do mercado. "E de forma bem clara", afirma Priscila Saad, sócia da AGR Consultores.
A consultora, especialista em varejo, lembra que, antes do torneio, havia expectativa de um efeito relevante sobre o consumo, mas os indicadores acabaram frustrando essa projeção.
"O mercado entrou na Copa esperando um efeito positivo relevante e saiu com um dos piores resultados mensais em seis anos. A eliminação precoce certamente contribuiu, mas o pano de fundo macroeconômico pesou mais. A inflação continua pressionando o orçamento das famílias."
Os números de junho reforçam essa avaliação. No primeiro mês da Copa, o ICVA registrou queda real de 2,8% nas vendas do varejo em relação ao mesmo período de 2025, o pior desempenho para junho desde 2020, ano marcado pela pandemia de Covid-19. No acumulado do primeiro semestre, a retração foi de 2,2%, também a mais intensa desde a crise sanitária.Segundo Saad, os dados mostram que o consumidor não deixou de gastar, mas mudou sua forma de consumir. "Os números desenham um consumidor seletivo e de curto prazo. Os picos aconteceram nos dias de jogo, não ao longo do mês. Houve alta de 21,3% nas partidas do Brasil, contra crescimento de 8% na véspera, mostrando que boa parte da demanda se formou no próprio dia".
Pior campanha do Brasil em Copas desde 1990 também atrapalhou o varejo
Na avaliação da especialista, a eliminação da Seleção alterou principalmente o perfil da demanda. A eliminação para a Noruega aconteceu nas oitavas de final da Copa do Mundo 2026 erepresentou a pior campanha da seleção brasileira no torneio em 36 anos. Desde o Mundial de 1990, o Brasil sempre havia chegado ao menos às quartas de final.
"Produtos ligados à Seleção perderam apelo, como camisas, bandeiras e acessórios. Já alimentos, bebidas, delivery e bares esportivos continuaram sendo demandados até a final, apenas com outra abordagem", diz a consultora
Para Mauricio Grandeza, consultor de varejo e ex-diretor de operações do Carrefour Brasil, a Copa também evidenciou diferenças entre os segmentos. "O varejo de bens duráveis, especialmente TVs, telas e projetores, não performou tão bem. No alimentar o desempenho foi um pouco melhor enquanto o Brasil estava na disputa".
Grandeza avalia que uma campanha mais longa da Seleção teria produzido um impacto maior sobre o consumo. "Sem dúvida, se o Brasil fosse mais longe na competição, tanto supermercados quanto alimentação fora de casa e delivery teriam um forte impulso adicional nas vendas".
Outro vencedor do torneio, contudo, foi o comércio eletrônico. O avanço de 11,4% na final reforçou uma tendência já observada ao longo de junho, quando as vendas online cresceram 9,2%, muito acima do avanço de apenas 1% registrado pelas lojas físicas.
"O e-commerce vem roubando fatia do varejo físico desde a pandemia. Durante a Copa não foi diferente. O consumidor incorporou a praticidade e a conveniência da compra online, e essa tendência deve continuar nos próximos anos", afirma o especialista.
Lição para o varejo: não depender apenas da Seleção
Os dados da Cielo também mostram mudanças no comportamento dos meios de pagamento nos bares durante a decisão. Embora o débito ainda tenha liderado as transações, com participação de 42,5%, o Pix respondeu por 35,5% das vendas, ante 20,7% no mesmo período do ano passado. Em termos de faturamento, os dois meios praticamente empataram com 35,2% para o débito e 33% para o Pix.
Na avaliação dos especialistas, a principal lição deixada pela Copa de 2026 é que o varejo precisa planejar sua operação para momentos específicos de consumo, e não apenas para um calendário promocional. "A ocasião de consumo bate o calendário mensal. Quem planejar estoque, equipes e logística para os dias de jogo tende a capturar melhor a demanda", afirma Saad.
A sócia da AGR Consultores acrescenta que outra aprendizagem importante é reduzir a dependência do desempenho da Seleção nas campanhas de marketing. "Em 2026, o apelo emocional caiu junto com a eliminação. As empresas precisam construir motivos de compra que sobrevivam ao resultado em campo, como aconteceu com alimentação e bebidas".
Copa do Mundo Feminina empolga o setor
Essa experiência pode servir de preparação para a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será disputada no Brasil, a primeira vez do torneio na América do Sul. Segundo Saad, o torneio deverá movimentar R$ 8,8 bilhões na economia, gerar 73,7 mil empregos e ampliar os impactos positivos sobre turismo, hotelaria, alimentação e comércio local.
Grandeza acredita que o evento também representa uma oportunidade para reconstruir o vínculo entre consumidores e futebol.
"O Brasil sofre com a falta de ídolos no futebol. A era Neymar está terminando e fica um certo vácuo. No caso da seleção feminina, existe a oportunidade de resgatar esse vínculo emocional se as empresas iniciarem as campanhas de forma antecipada, criando uma expectativa de desempenho e de valorização das nossas meninas, como uma forma de recuperar o orgulho nacional", diz o especialista em varejo.
"Um indicador relevante: as buscas por 'Copa do Mundo Feminina 2027' tiveram alta repentina no Brasil exatamente no domingo da eliminação da Seleção masculina pela Noruega — um salto classificado tecnicamente como "aumento repentino". Ou seja, a frustração com a Copa masculina parece ter redirecionado atenção para 2027 quase instantaneamente", conclui a consultora.
