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Sacre Investimentos
Mundo
02/09/2026
11 min

Fiocruz quer vender medicamentos à África pelo mesmo preço oferecido ao SUS

Fundação prospecta parceiros para exportar medicamentos e diagnósticos e transferir tecnologia para diversificar receitas

Fiocruz quer vender medicamentos à África pelo mesmo preço oferecido ao SUS

De Lusaca, Zâmbia e Maputo, em Moçambique* — Depois de a pandemia expor a dependência de países em desenvolvimento de vacinas, medicamentos e outros insumos produzidos no exterior, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) prepara uma nova frente de atuação internacional.

A instituição estatal quer ampliar a presença na África com a venda direta de produtos de saúde e parcerias para transferência de tecnologia e produção local — e promete oferecer medicamentos pelo mesmo preço praticado no SUS.

“A nossa política para a África é oferecer o mesmo preço que oferecemos para o SUS. Não vamos colocar uma margem a mais em cima do produto”, afirma Ramon Lemos Calaça das Neves, assessor da Vice-Presidência de Produção e Inovação em Saúde (VPPIS) da Fiocruz, em entrevista à EXAME durante a missão da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), na Zâmbia e em Moçambique.

A iniciativa ainda está em fase de prospecção e não tem uma meta de receita definida, mas faz parte do esforço da instituição estatal de diversificar as receitas

Entre os produtos avaliados estão medicamentos usados em programas do Ministério da Saúde contra malária, HIV, hepatite C e tuberculose, além de testes rápidos e moleculares.

Segundo Neves, a preferência é começar com projetos-piloto e ampliar a operação conforme a fundação conheça as regras sanitárias e os sistemas de saúde de cada mercado. Tanto na Zâmbia, quanto em Moçambique, o representante do instituto teve diversas reuniões com empresas privadas locais.

A estratégia representa também uma mudança na forma de atuação internacional da Fiocruz. A fundação já fornece vacina contra febre amarela para outros países, mas essas operações ocorrem por meio de organismos multilaterais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Opas, o Unicef e a Gavi. Agora, a instituição avalia estabelecer relações diretas com governos e empresas locais.

As vacinas, porém, estão fora dessa primeira etapa da nova estratégia. Neves afirma que a capacidade produtiva atual da Fiocruz está exaurida e que as missões realizadas no continente africano, por enquanto, não trabalham com imunizantes.

“ Temos um projeto muito grande que, para daqui a dois ou três anos, um novo sítio fabril em Santa Cruz, no Rio de Janeiro, que vai dar capacidade para produzirmos mais e exportar vacinas”, diz.

A possibilidade de avançar também com vacinas depende da expansão da capacidade produtiva da Fiocruz, que passa pelo Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde (Cibs), em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Pensado para se tornar uma das principais estruturas de produção de vacinas e medicamentos da Fiocruz, o complexo acumula anos de atraso. O projeto prevê 46 prédios em um terreno de 580 mil metros quadrados e capacidade para produzir 120 milhões de frascos de imunizantes por ano.

Cerca de R$ 1,2 bilhão já foi destinado às obras e à compra de equipamentos, enquanto a Fiocruz calcula a necessidade de mais R$ 5,4 bilhões para concluir o projeto. A previsão é que a produção comece, na melhor das hipóteses, no fim de 2028.

Enquanto essa capacidade não entra em operação, a estratégia africana está concentrada principalmente em medicamentos e produtos para diagnóstico. A proposta vai além da exportação. A Fiocruz avalia transferir tecnologia e participar da estruturação da produção de insumos de saúde nos próprios países africanos.

A instituição não pretende, porém, instalar sozinha fábricas no continente. O modelo considerado prioritário envolve parceiros locais, públicos ou privados, que conheçam as regras sanitárias, a cadeia de distribuição e as particularidades dos sistemas de saúde de cada país.

Ramon está há 14 anos na Fiocruz e atua há mais de uma década na área de negócios da instituição. Em entrevista durante uma missão na Zâmbia, ele detalhou os planos para ampliar a presença da fundação na África, os produtos que podem chegar primeiro ao continente e os obstáculos para a entrada em novos mercados.

Confira os principais trechos da conversa abaixo:

O que a Fiocruz busca na África

Qual é o objetivo dessa aproximação da Fiocruz com os países africanos? O que vocês já têm de parceria e o que estão prospectando?

Acho que a ligação da Fiocruz com a África é muito antiga. E a Fiocruz, como eu disse, tem muitas atuações, em muitos campos. Temos um histórico grande em formação de recursos humanos, treinamento de equipes. Em Moçambique, temos uma história: o governo brasileiro fez a doação de uma fábrica de medicamentos para Moçambique. Em Moçambique, a Fiocruz oferece o curso, ele faz as aulas, passa um tempo na Fiocruz, termina o estudo lá e ganha o diploma pela Fiocruz. A Fiocruz tem um escritório dentro da Embaixada do Brasil em Moçambique que, não à toa, está sendo reestruturado junto com a estratégia da Fiocruz para a África.

E o que isso representa?

Estou representando o ramo industrial da Fiocruz. Acreditamos muito em promover esse espalhamento do setor produtivo de insumos básicos de saúde. Não só medicamentos, mas diagnóstico e outros insumos que são muito importantes. Até equipamentos médicos e assim por diante. Acreditamos que é um caminho de sucesso. Compramos tecnologia, internalizou no Brasil e produziu. E agora a gente tem condição de, a partir da Fiocruz, fazer o caminho inverso: pegar a tecnologia da Fiocruz e transferir para outras pessoas, para outras nações, outros países, outras empresas que estejam em condição de receber. A Fiocruz já fornece vacina de febre amarela há muitos anos para muitos países. Mas ela sempre forneceu através de mecanismos de organismos multilaterais: OMS, Opas, Unicef, Gavi e outros. Mas, através disso, não tínhamos atuação direta. E agora entendemos que talvez seja o momento de ter uma atuação direta nos lugares. Sempre dependendo de uma parceria com o governo local, com empresas locais que vão atender a saúde pública do local, mas nos colocando à disposição para, um, suprir produtos e, dois, até preferencialmente, entrar numa parceria local para estabelecer a transferência de tecnologia e a produção local.

Então esse processo está começando agora?

Começando. Estamos em uma prospecção. Esperamos espera que, num futuro próximo, consigamos estar colaborando com a saúde pública global mesmo. Mas  entendemos que, especialmente com a África, temos muita similaridade. É óbvio que é cultural, basicamente dividimos o nosso DNA. Mas, quando a gente fala de doenças, temos muita similaridade e poderia fazer uma parceria onde os dois ganham.

Vocês já têm uma meta de quanto essa nova frente de exportação da Fiocruz pode gerar?

Uma boa pergunta. Não temos isso estruturado. Vamos começar a estruturar isso a partir das oportunidades que estão se formando agora. Uma coisa que deve acontecer é que começarmos pequeno, com projeto piloto, e que a partir disso possamos crescer gradativamente, entendendo a localidade e tal. Porque o mercado de saúde, produtos nossos, medicamentos, vacinas e diagnóstico — diagnóstico menos, mas vacinas e medicamentos —, é um mercado muito regulado. E deve ser assim mesmo. Mas a adaptação para o ambiente local normalmente demanda um pouquinho dessa preparação. Tenho essa visão de que começar mais devagar e depois ir crescendo vai nos ajudar até a sentir essas diferenças, essas atualizações que precisaremos fazer.

A ideia é atender tanto empresas quanto governos? A Fiocruz poderia ter uma instalação nesses países?

A primeira parte da resposta é: o tipo de atuação da Fiocruz depende muito do tipo do sistema de saúde daquele país. A gente conseguiu entender, e eu acho que agora está bem disseminado até dentro da Fiocruz, que essas diferenças existem e são marcantes. Nem todo mundo tem SUS. Na verdade, a maioria dos países não tem o SUS. Não é o governo que faz a compra do medicamento para distribuição. E, em muitos países daqui da África, inclusive, não existe a distribuição pública. Todo cidadão, mesmo que ele compre um medicamento subsidiado, vai comprar na farmácia privada. Para esses lugares, temos que ter essa sensibilidade e, através de um contato mesmo, seja através de governo, por indicação de governo, vamos conseguir fazer parcerias com as empresas privadas que estão atendendo o mercado de saúde pública. Em outros casos, vamos conseguir tratar direto com o governo, vai participar de, da mesma forma que nós, os leilões para venda de medicamentos. Mas, em geral, ter um parceiro local, seja ele governo, seja ele uma empresa privada, é muito preferível, eu diria, por conta dessa questão regulatória. Porque essa pessoa que já atua no ramo vai entender, saber os caminhos, saber como registrar um produto, saber como distribuir e como chegar no cliente final.

Então uma instalação própria da Fiocruz em um país africano está nos planos?

Hoje, no nosso plano, não é vir sozinho, montar uma fábrica Fiocruz. Conhecer o ambiente é muito importante. Além da regulação dos medicamentos, tem a regulação do setor industrial, toda a questão produtiva, cadeia de fornecimento. São muitas variáveis que não dominamos. Temos a preferência por um parceiro. Agora, não estamos fechado para o tipo de parceria. Como se diz, um cogerenciamento de uma fábrica. E estar participando disso ativamente. Eu acho que essa também seria uma coisa bacana que poderia acontecer.

Quais seriam hoje os principais produtos da Fiocruz para exportação ou para parcerias com empresas e governos?

As vacinas, infelizmente, hoje temos nossa capacidade produtiva exaurida. Temod um projeto muito grande que, para daqui a dois ou três anos, é um novo sítio fabril em Santa Cruz, no Rio de Janeiro, em outro bairro, um campus novo da Fiocruz, que vai dar capacidade para fazermos isso. Mas hoje nem temos trabalhado o campo de vacinas nessas missões. Hoje, estamos trabalhando principalmente os programas de medicamentos que atendemos o Ministério da Saúde. Em grandes linhas: malária, HIV, hepatite C, tuberculose e algumas outras drogas. E diagnóstico. Diagnóstico tem uma linha grande de produtos, que são testes rápidos, que são feitos em ambientes não laboratoriais, e testes moleculares, que fazenos dentro do laboratório, com uma grande gama de produtos que poderiam ter utilização também por aqui.

Quais são os principais desafios para entrar nesses mercados? E qual seria o diferencial competitivo da Fiocruz?

Bom, a primeira coisa que eu posso dizer é o seguinte: a nossa política para a África é oferecer o mesmo preço que para o SUS. Não vamos colocar uma margem a mais em cima do produto. Por mais que esses produtos que eu te falei, todos eles têm um ambiente competitivo muito acirrado. Então, acreditamos que os nossos preços são competitivos, mas a gente não tem muito ainda um benchmark, como eu posso dizer, conclusivo. Mas a gente tem indícios, onde a gente conversou, de que esses preços seriam aceitáveis para cá. Entendemos, na verdade, que existe uma simpatia muito grande de todos os países que visitamos na África pelo Brasil e eles querem comprar produtos brasileiros. E por que isso? O que eles relataram é que eles sofrem com problemas de falsificação de medicamentos, de, eventualmente, medicamentos que vêm de outros fabricantes que são feitos. O medicamento é feito para a África. O que isso quer dizer? Quer dizer que, eventualmente, ele tem um produto classe A, que vai para mercados mais desenvolvidos, e um produto classe B, que vem para cá. E, quando a gente conversa, muitos países compram medicamentos que são pré-qualificados pela OMS. O que isso quer dizer? Quer dizer que a OMS já fez uma inspeção na fábrica para atestar que foi feito com qualidade. Mas eles dizem para que preferem comprar da Fiocruz e dizem o seguinte: 'Olha, a gente até não requerer que o seu produto seja pré-qualificado na OMS se você está registrado com esse produto no Brasil e se você fornece o mesmo produto para o Brasil e o mesmo produto para a gente. Quer dizer, o mesmo produto que vai ser usado na população brasileira vai ser o que vai vir para cá' É isso que temos um valor para eles. A gente entende isso como um diferencial importante.

Além da venda dos produtos, qual papel a produção local pode ter nessa estratégia?

Eu acho que a questão ter a possibilidade de estimular a produção local é importante. Por mais que comecemos por processos mais simples, mesmo um processo de embalagem e rotulagem na nossa farmacêutica tem controle de qualidade, tem processos que dependem de ter um consultor qualificado, dependem de ter uma área qualificada, com boas práticas de fabricação. Tudo isso requer uma experiência. E já tem um ganho para o país que está executando. A gente começou nossos processos assim e vai ganhando complexidade conforme vai ganhando as competências. E poderíamos estar oferecendo isso para cá também.

*O repórter viajou a convite da ApexBrasil.

AutorAndré Martins
FonteExame
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