'Fit cultural' virou clichê no RH? Por que a Disney evita o termo ao contratar seus funcionários

'Fit cultural' é uma das expressões mais repetidas em processos seletivos no Brasil. Na Disney, ela é evitada de propósito.
SegundoPaula Valencia, que lidera as estratégias de RH na companhia, o termo carrega um risco: sugerir que a empresa procura pessoas parecidas com quem já está lá dentro.
"Preferimos não reduzir essa avaliação ao conceito de fit cultural, porque ele pode sugerir que procuramos pessoas semelhantes às que já estão na organização", diz Paula Valencia - HR Head for Brazil & Colombia / HR Regional Head for Direct to Consumer and Consumer Products.
O critério declarado pela executiva é outro: alinhamento com princípios como respeito, integridade, colaboração e responsabilidade, mantendo diversidade de estilos, repertórios e pontos de vista.
Capacidade técnica e comportamento profissional são tratados como dimensões igualmente importantes, não como escolha entre uma coisa e outra.
O critério real de contratação
Um profissional tecnicamente muito qualificado, mas que não consegue atuar de forma respeitosa ou colaborativa, pode ter dificuldades em qualquer organização, segundo a executiva.
Da mesma forma, afinidade com a marca, isoladamente, não basta. A decisão final considera o conjunto: experiência, potencial, competências e forma de atuação.
O processo seletivo varia conforme a senioridade da vaga, mas costuma incluir conversas com Talent Acquisition, entrevistas com a liderança da área e, dependendo da função, estudos de caso ou apresentações.
Nos programas de entrada, como Jovem Aprendiz, Estágio e Trainee Program, o peso maior recai sobre potencial de desenvolvimento e capacidade de aprendizado, não sobre uma trajetória já consolidada.
O primeiro dia de trabalho na Disney Brasil tem um personagem fixo: o Buddy, colega da própria equipe que acompanha o novo colaborador desde a chegada e ajuda a acelerar a adaptação a pessoas, processos e rotina da área.
A integração não se resume a esse encontro. Segundo Valencia, o processo inclui uma etapa estruturada com informações sobre a companhia, seus negócios e políticas, além de uma integração específica com a liderança direta, para que o profissional entenda seu papel e suas prioridades desde a largada.
"A forma como a liderança acompanha o novo profissional, esclarece expectativas e cria espaço para perguntas é tão importante quanto o primeiro dia propriamente dito", explica.
Escritorio da Disney Consumer Products/Foto: Leandro Fonseca (Leandro Fonseca/Exame)
Descanso além das férias
Entre os benefícios, a Disney lista os Dias de Recarga, folgas adicionais que se somam a férias e feriados ao longo do ano. A eles se somam licenças pontuais: Dias para Mudança, Dias de Cuidado Familiar e Dias para Estudo, pensadas para momentos específicos da vida do colaborador, não apenas para o calendário padrão de ausências.
A companhia também mantém um programa de assistência ao colaborador com suporte emocional, financeiro e jurídico, e investe em plataformas de idiomas e formação. Modelos híbridos e flexíveis são aplicados conforme a natureza de cada função.
Há ainda a camada de benefícios ligada diretamente ao negócio: acesso à plataforma Disney+, entrada nos parques para colaboradores e beneficiários elegíveis, ingressos complementares e descontos em produtos, lojas e resorts. "São oportunidades para que nossos colaboradores também possam vivenciar de perto as histórias e experiências que fazem parte do nosso negócio", diz Valencia.
Carreira sem caminho único
A Disney reúne negócios distintos, como streaming, televisão, esportes, cinema, publicidade, produtos de consumo e experiências, o que abre espaço para mobilidade interna. Job rotation, atribuições internacionais e conversas de carreira estruturadas fazem parte do desenvolvimento oferecido pela companhia.
"Uma característica muito interessante da Disney é a possibilidade de construir uma trajetória que não seja necessariamente linear", diz Valencia. Um profissional pode transitar entre negócios diferentes e desenvolver competências fora do caminho inicialmente imaginado, segundo ela.
Para quem está avaliando uma vaga na empresa, o recado da executiva é direto: a afinidade com a marca pode ser o ponto de partida, mas não é o que sustenta a rotina. Isso, segundo ela, é construído todos os dias pela liderança, pelas oportunidades reais de crescimento e pelo espaço para que cada pessoa contribua com sua própria perspectiva.
