Flávio Bolsonaro listou 40 críticas de Lula a Trump em carta aos EUA

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, fez uma lista de mais de 40 críticas feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e membros de seu governo ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a enviou ao governo americano como parte de sua argumentação contra a implantação de tarifas ao Brasil.
Flávio incluiu as críticas em uma carta, na qual apresenta argumentos no processo aberto pelo Escritório de Comércio dos EUA (USTR), que podem levar os americanos a aplicarem novas tarifas contra o Brasil. Uma audiência sobre o tema será realizada no dia 6 de julho, e o senador deverá comparecer.
Em sua argumentação, o senador defende que a aplicação de tarifas por parte dos Estados Unidos não resolverá os problemas apontados na investigação, que aponta barreiras comerciais impostas pelo Brasil a produtos e serviços americanos.
Para ele, as taxas impostas por Trump estão tendo um efeito oposto, de fazer o Brasil endurecer sua postura, e acusa o governo Lula de agir desta forma para obter ganhos eleitorais.
"As tarifas propostas recompensariam os próprios infratores que deveriam punir. Em outras palavras, as tarifas propostas recompensariam o atual governo brasileiro pela própria estratégia que vem adotando: obstruir negociações sérias, provocar retaliações de Washington e, em seguida, converter essa retaliação em uma vitória política interna", diz o senador, no documento.
Flávio defende, no documento, que as tarifas em análise pelos EUA sejam adiadas ao menos até a eleição, para que o tema não gere vantagens para Lula na disputa eleitoral. O líder brasileiro teve alta nas pesquisas quando Trump impôs tarifas ao país, no ano passado.
No documento, Flávio incluiu gráficos de pesquisas eleitorais da AtlasIntel e Paraná Pesquisas, que mostram a alta de Lula no ano passado.
"Essa parceria [Brasil-EUA] foi deliberadamente tensionada pelo governo atual, que afastou o Brasil dos Estados Unidos, promoveu a desdolarização e tratou o confronto com os Estados Unidos como uma vantagem política interna", afirma.
Lista de críticas
As críticas de Flávio à atuação do governo brasileiro, enviadas aos americanos, foram listadas em cinco anexos, com os temas "defesa da desdolarização", "hostilidade pública aos Estados Unidos", "escalada judicial", "negação a negociar" e "instrumentação eleitoral".
Os dois primeiros itens reúnem registros de críticas de Lula e de autoridades do governo brasileiro contra os EUA. Há 51 exemplos, sendo que 40 deles citam Lula nominalmente. Os demais envolvem outras autoridades brasileiras ou nomes ligados ao PT, como a ex-presidente Dilma Rousseff, hoje presidente do banco de desenvolvimento NDB.
Os exemplos incluem comentários diretos sobre Trump feitos por Lula, críticas do presidente às guerras iniciadas pelos EUA e aos países ricos, assim como a defesa de que o mundo use menos o dólar e dependa menos nos norte-americanos. A lista traz, ainda, elogios das parcerias com a China e outros países.
"Não podemos permitir que o mundo fique à mercê de um presidente que pensa que, por email ou tuíte, pode taxar produtos, punir países ou começar uma guerra", frase que Lula disse em um evento em Hanover, na Alemanha, é um dos exemplos da lista.
Em outro exemplo, Flávio cita críticas de Lula ao uso da moeda americana. “Não é necessário que um acordo comercial entre a Índia e o Brasil seja feito com dólares americanos. Podemos usar nossas próprias moedas. É difícil, mas podemos tentar", disse o presidente, em fevereiro, na Índia.
A lista inclui, ainda, a frase "Fuck you, Elon Musk", dita pela primeira-dama, Janja, na reunião do G20, em 2024, como exemplo de hostilidade aos Estados Unidos.
Críticas ao STF
No documento, Flávio também faz críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), e aponta que as tarifas também não fizeram a corte mudar suas decisões.
Em julho, ao anunciar as taxas contra o Brasil, Trump disse que elas também se justificavam porque a Justiça brasileira estaria perseguindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado.
Entenda o caso da Seção 301
O governo dos Estados Unidos anunciou, em 1º de junho, que o Escritório do Representante Comercial (USTR) determinou que o Brasil agiu de forma não razoável no comércio bilateral, como parte da investigação aberta por meio da Seção 301, em julho de 2025.
Por conta disso, o USTR propôs que os EUA passem a cobrar do Brasil uma tarifa extra de 25%, com algumas exceções. A medida, no entanto, ainda não foi aplicada e haverá espaço para mais negociações, até 15 de julho.
"O Representante Comercial dos Estados Unidos determinou, nos termos da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que certos atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas preferenciais desleais; combate à corrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal são irrazoáveis e oneram ou restringem o comércio dos EUA, sendo, portanto, passíveis de ação judicial nos termos da Seção 301(b) da Lei de Comércio", disse o USTR, em comunicado.
No momento, ainda não foram anunciadas novas tarifas, mas a "proposição de ações corretivas para consulta pública, enquanto os Estados Unidos continuam a dialogar intensamente com o Brasil para buscar a resolução das preocupações americanas", disse o órgão.
Uma audiência sobre o tema foi proposta para o dia 6 de julho, que será aberta a depoimentos de interessados em se posicionar contra ou a favor do país.
Se os EUA mantiverem o entendimento de que o Brasil não adotou medidas corretivas, poderá implantar novas tarifas contra o país, além das que já estão em vigor. Uma decisão final sobre o caso será definida até 15 de julho.
