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20/10/2026
10 min

Floripa 2030: a capital se prepara para o maior salto de sua história

Com R$ 3,5 bilhões em investimentos públicos e privados estimados para os próximos três anos, Florianópolis desenha um novo ciclo de expansão econômica

Floripa 2030: a capital se prepara para o maior salto de sua história

Com R$ 3,5 bilhões em investimentos públicos e privados estimados para os próximos três anos, Florianópolis desenha um novo ciclo de expansão econômica

A RBV Incorporadora prepara para o início de 2027 o lançamento do Monumental, empreendimento que promete se tornar o edifício residencial mais alto de Florianópolis. Com aproximadamente 156 metros de altura, no coração da capital catarinense, o projeto já seria, por suas dimensões, um símbolo da transformação imobiliária em curso. Mas sua importância vai além da altura. O edifício é apenas a face mais visível de um movimento que pode colocar Florianópolis diante do maior salto de desenvolvimento de sua história.

Um dos diferenciais do Monumental está no que será entregue à população. O projeto prevê uma praça aberta ao público e uma passagem para pedestres entre a Avenida Rio Branco e a Rua Dom Jaime Câmara. É a chamada fruição pública, instrumento urbanístico que permite ampliar o potencial construtivo em contrapartida à criação de espaços de convivência e circulação. Uma lógica que começa a mudar não apenas a paisagem, mas a maneira de pensar o futuro da cidade.

Foi esse futuro que motivou uma provocação da EXAME SUL durante um almoço realizado na última sexta-feira, 16 de outubro. O anfitrião, engenheiro civil Gustavo Bulcão Viana, CEO da RBV Incorporadora, responsável pelo Monumental, recebeu o prefeito Topázio Neto e o presidente do Sinduscon da Grande Florianópolis, Carlos Leite, para discutir uma questão: como será a Floripa 2030? Entre investimentos bilionários, revitalização urbana e crescente interesse internacional, a conversa revelou uma capital que pode estar prestes a mudar de patamar.

Os números ajudam a dimensionar essa perspectiva. Um levantamento da EXAME SUL estima em R$ 3,5 bilhões os investimentos públicos e privados previstos para os próximos três anos. Desse montante, R$ 2 bilhões correspondem à carteira de infraestrutura informada pela administração municipal, enquanto outros R$ 1,5 bilhão representam uma projeção de aportes privados em diferentes setores. Os valores abrangem empreendimentos em distintas fases e dependem da confirmação dos cronogramas e da consolidação dos recursos, sem sobreposição entre projetos.

A carteira inclui obras de infraestrutura, equipamentos urbanos, hotéis, centros de eventos e empreendimentos imobiliários. São iniciativas que, somadas à tecnologia e à crescente internacionalização da cidade, ampliam as oportunidades para empresas, investidores e novos moradores.

Um indicador desse momento está na arrecadação municipal. De acordo com os números informados pelo prefeito Topázio Neto, Florianópolis alcançou em 2026 a marca de R$ 1 bilhão em Imposto Sobre Serviços (ISS), tributo que responderia por aproximadamente 25% das receitas municipais. Em 2021, a arrecadação era de R$ 401,9 milhões e chegou a R$ 856,2 milhões em 2025, crescimento nominal de 113% em quatro anos.

O resultado reflete a diversificação de uma economia historicamente ligada ao turismo, ao comércio e à administração pública. Hoje, empresas de tecnologia e serviços especializados ocupam uma posição de destaque. Segundo o Observatório ACATE 2026, o setor tecnológico de Florianópolis movimentou aproximadamente R$ 14 bilhões em 2025, crescimento de 9,4% sobre o ano anterior, e representa cerca de 21% do PIB municipal.

Parte desse dinamismo está concentrada no Sapiens Parque, no Norte da Ilha. O complexo reúne 158 instituições, gera mais de 9 mil empregos diretos e indiretos e abriga empresas que, juntas, movimentam aproximadamente R$ 2 bilhões por ano. Além de tecnologia e inovação, o parque atrai centros de pesquisa, comércio, serviços e hotelaria.

A conexão com o exterior é outro diferencial. O Floripa Airport, administrado pela Zurich Airport Brasil, encerrou 2025 com 5,1 milhões de passageiros, dos quais aproximadamente 1,2 milhão em voos internacionais. Em outubro deste ano, o terminal foi eleito o melhor aeroporto da América do Sul pelo World Travel Awards, uma das principais premiações internacionais de viagens e turismo.

O reconhecimento colocou Florianópolis na disputa pelo título de melhor aeroporto do mundo em 2026. A premiação se soma à ampliação da conectividade internacional, com voos diretos para Lisboa, Panamá e destinos sul-americanos, facilitando o acesso de turistas, executivos e investidores.

Outro fator de atratividade é a segurança pública. Florianópolis voltou a aparecer como a capital com a menor taxa de assassinatos do país no Anuário Cidades Mais Seguras do Brasil 2026, divulgado em 20 de outubro pela MySide. Com base nos registros de mortalidade de 2025, o levantamento aponta 11,5 assassinatos por 100 mil habitantes, abaixo dos índices de São Paulo e Brasília.

Embora considere especificamente a violência letal, o indicador reforça um atributo relevante para famílias e profissionais que buscam estabelecer residência na capital. Combinado à qualidade de vida, à infraestrutura aeroportuária e às oportunidades de negócios, ajuda a explicar o interesse pela cidade para além do turismo de temporada.

As grandes redes hoteleiras já perceberam esse potencial. O grupo português Vila Galé anunciou investimento de R$ 200 milhões para construir, no Sapiens Parque, seu primeiro hotel no Sul do Brasil. Com 309 apartamentos, o empreendimento tem inauguração prevista para 2028.

Outra bandeira internacional chega ao entorno do aeroporto. O Hilton Garden Inn, anunciado em reportagem exclusiva da EXAME SUL, representa investimento de R$ 94 milhões e terá 288 apartamentos, além de áreas para eventos, coworking e serviços destinados ao público corporativo. A abertura também está prevista para 2028.

Os dois projetos reforçam a aposta na diversificação do turismo, especialmente nos segmentos de negócios, congressos e eventos, que ajudam a reduzir a dependência da temporada de verão.

É nesse contexto que o CentroSul, principal centro de convenções da capital, inicia uma nova etapa. Em setembro, a empresa paulista DMDL venceu o leilão de concessão do complexo, realizado na B3, com uma oferta de R$ 31,5 milhões, depois de 144 lances. O contrato de 35 anos prevê R$ 53,4 milhões em investimentos obrigatórios para modernização, ampliação e requalificação.

As intervenções incluem melhorias na infraestrutura, novos acessos, áreas de alimentação e espaços de convivência. A localização, próxima à Baía Sul e ao Centro Histórico, também oferece oportunidades para integrar o complexo à revitalização da região central.

Na Beira-Mar Norte, começaram em julho as obras do Parque Urbano e Marina. Com investimento privado estimado em R$ 350 milhões, o projeto ocupa uma área concedida de aproximadamente 440 mil metros quadrados e prevê parque público, equipamentos de lazer, serviços e estrutura para mais de 600 embarcações.

Discutida durante mais de uma década, a marina começa a sair do papel com potencial para estimular o setor náutico, a gastronomia e o comércio. Também promete estabelecer uma nova relação entre os moradores e a orla, incorporando áreas de lazer e convivência a uma das regiões mais valorizadas da cidade.

A execução desses projetos evidencia uma mudança de escala nos investimentos. Mas também expõe uma condição fundamental: a infraestrutura e o planejamento urbano precisam acompanhar o ritmo das transformações.

Nova cidade começa no nível da rua

O Monumental ajuda a compreender como essa discussão passou a influenciar o desenho da capital. O empreendimento, com mais de 30 pavimentos previstos, tornou-se possível graças à combinação de incentivos urbanísticos estabelecidos na revisão do Plano Diretor de 2023.

Pelas regras básicas do zoneamento, o terreno permitiria 16 pavimentos. A legislação possibilitou ampliar esse potencial por meio de incentivos relacionados ao uso misto, ao desenvolvimento urbano e à habitação de baixa renda. Apenas a fruição pública respondeu por 12 pavimentos adicionais.

Na prática, o mecanismo permite ao empreendedor construir mais mediante contrapartidas que beneficiem a cidade. No Monumental, a proposta inclui uma passagem pública entre duas ruas do Centro, com espaços de convivência acessíveis à população.

A altura deixa, assim, de ser o único elemento relevante. Importa também a contribuição do empreendimento para a circulação de pessoas, a ocupação das ruas e a qualidade dos espaços urbanos.

Essa visão aparece em outros projetos da região central. Um deles é o Passeio Bocaiúva, da Casa Hurbana, que aposta na integração entre moradia, comércio, serviços e áreas destinadas aos pedestres. Ao lado da Casa da Baronesa, da Dimas Construções, o empreendimento está relacionado a uma intervenção mais abrangente: a revitalização da Rua Bocaiúva.

Prevista para começar em janeiro de 2027, a requalificação deverá utilizar aproximadamente R$ 40 milhões provenientes de outorga onerosa dos dois empreendimentos. O projeto contempla calçadas mais largas, acessibilidade, travessias seguras, melhorias na iluminação, paisagismo e retirada de fiação aérea.

O objetivo é estimular a circulação de pedestres, o comércio de proximidade e a permanência das pessoas nas ruas, recuperando a vitalidade de uma região que perdeu moradores e atividades ao longo das últimas décadas.

A inspiração dialoga com experiências internacionais, especialmente com o urbanismo desenvolvido em Copenhague, na Dinamarca, onde ruas, praças e espaços públicos passaram a ser planejados a partir da escala humana.

Em Florianópolis, essa discussão ganhou uma dimensão concreta em março, quando o escritório dinamarquês Gehl Architects, referência mundial em urbanismo voltado às pessoas, apresentou o estudo Floripa Centro: Repensando os Espaços Públicos para as Pessoas, com mais de 70 propostas para a região central.

O trabalho foi financiado pela Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (ACIF) e pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), com investimento de R$ 1,2 milhão, sem recursos públicos. A articulação técnica envolveu o Laboratório de Urbanismo e Arquitetura (LUA), criado por empresas como Hurbana, Dimas, WOA, CFL, Habitasul e Softplan.

Entre as diretrizes estão a ampliação de áreas verdes, a valorização dos pedestres, a mobilidade ativa e a criação de conexões entre o Centro Histórico e a orla. O estudo foi entregue à prefeitura, que abriu uma etapa de consulta pública para avaliar as propostas e orientar futuros projetos.

A abordagem se aproxima da chamada cidade de 15 minutos, conceito difundido pelo urbanista franco-colombiano Carlos Moreno. A proposta é permitir que as necessidades cotidianas — trabalhar, estudar, fazer compras, acessar serviços e aproveitar espaços de lazer — sejam atendidas em percursos curtos, preferencialmente a pé ou de bicicleta.

Em Florianópolis, a geografia, os gargalos de mobilidade e a concentração de deslocamentos entre bairros exigem soluções adaptadas à realidade local. Ainda assim, a ideia de aproximar moradia, trabalho e serviços ganha relevância diante da valorização imobiliária e da busca por qualidade de vida.

Há outro aspecto que diferencia esse movimento: a aproximação entre entidades representativas, poder público e iniciativa privada. O estudo da Gehl, o trabalho do LUA, as contrapartidas previstas no Plano Diretor e os projetos de requalificação demonstram como diferentes setores podem contribuir para uma agenda urbana de longo prazo.

Durante o encontro com a EXAME SUL, o prefeito Topázio Neto destacou a recuperação do protagonismo do Centro. A revitalização do patrimônio histórico e o resgate da memória afetiva aparecem nessa perspectiva como instrumentos para devolver moradores, circulação e atividades à região, preservando a identidade de Florianópolis.

O presidente do Sinduscon da Grande Florianópolis, Carlos Leite, chamou a atenção para a atuação ativa da entidade em todas as discussões sobre o futuro da cidade. Para a construção civil, esse movimento traz oportunidades, mas também exige segurança jurídica e infraestrutura adequada, que agora estão sendo estabelecidas de maneira organizada e planejada.

Na avaliação do engenheiro civil Gustavo Bulcão Viana, CEO da RBV Incorporadora, a transformação não deve ser medida exclusivamente pela altura dos edifícios. O fundamental está no que cada empreendimento entrega à sociedade. Espaços de convivência, circulação de pedestres e integração com o entorno passam a ter importância tão significativa quanto a própria construção.

O encontro reforçou a necessidade de aproximar os diferentes interesses em torno do planejamento da cidade. Não significa eliminar divergências, mas buscar soluções para questões que nenhum setor consegue resolver isoladamente.

A verticalização e o aumento populacional ampliam a pressão sobre mobilidade, saneamento, drenagem e serviços públicos. A valorização dos imóveis, embora estimule investimentos, também pode dificultar o acesso à moradia e a permanência de famílias nas áreas centrais.

O desafio será conciliar esse movimento com a preservação da qualidade de vida que tornou Florianópolis desejada. Incentivos construtivos e contrapartidas urbanísticas precisam produzir benefícios efetivos para a população. Da mesma forma, projetos anunciados devem se transformar em obras concluídas, com infraestrutura compatível com as novas demandas.

AutorRafael Martini
FonteExame
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