Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
ESGESGCMDT
23/10/2026
8 min

Fogo vira caso de polícia no Amazonas, e fumaça acompanha Manaus até as urnas

Polícia Federal abre nove procedimentos, embargos somam 250 hectares e focos recuam 46%, mas chamas persistem em 30 municípios

Fogo vira caso de polícia no Amazonas, e fumaça acompanha Manaus até as urnas

Doze dias depois de o ministro João Paulo Capobianco classificar a crise no Amazonas como "mais grave do que eu imaginava", a resposta ganhou uma frente policial formal, voltada a identificar os responsáveis pelos incêndios.

Em nota divulgada na quarta-feira, 21, a Polícia Federal informou ter aberto nove procedimentos para apurar ocorrências recentes em sete municípios: Autazes, Careiro Castanho, Careiro da Várzea, Manaquiri, Manaus, Iranduba e Canutama.

O trabalho da PF incluirá a análise de imagens de satélite e o levantamento de informações junto a órgãos públicos. A corporação também prevê sobrevoos em outras áreas para localizar possíveis pontos de origem das chamas.

A mobilização foge do padrão da unidade responsável, para quem queimada raramente se torna caso de polícia. De 2023 a 2026, foram instaurados 516 inquéritos sobre crimes ambientais, e apenas 11 tratavam de incêndios.

Nesse mesmo período, 228 pessoas foram apontadas como possíveis autoras desses crimes, e 113 acabaram indiciadas. Outros 186 casos seguem em andamento, em cooperação com o Ibama. A nota não informa quantos resultaram em denúncia ou condenação.

A ofensiva de agora se intensificou a partir de 14 de outubro, quando oministro do Meio Ambiente descartou causas naturais para os focos e informou que ao menos 120 procedimentos já haviam sido abertos. A constatação veio dias antes, em um sobrevoo da região de Autazes.

Na ocasião, um grupo formado por Capobianco, Waldez Góes, ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Roberto Cidade, governador do Amazonas, e Jair Schmitt, presidente do Ibama, identificou labaredas no interior de floresta preservada, indício de preparo do terreno para novas derrubadas.

A autoria humana, contudo, não comprova um movimento orquestrado, e essa possibilidade continua em aberto.

Multas, embargos e uma prisão

Enquanto os inquéritos seguem o ritmo da Justiça, o Ibama aposta em uma via mais rápida. Desde que a fumaça passou a encobrir Manaus, o órgão já aplicou R$ 2 milhões em multas por queimadas ilegais na região.

Só na última semana de operações em Autazes e Careiro da Várzea, fiscais lavraram 19 autos de infração e embargaram 250 hectares.

As punições administrativas não dependem de condenação na esfera criminal e começam a valer logo após a autuação. O embargo é a mais imediata delas, porque proíbe o uso econômico da área queimada.

Isso significa que quem queimou a mata para criar gado ou plantar fica impedido de fazer isso na área embargada. A restrição ainda é incluída em uma lista pública, que pode ser consultada por bancos e compradores, o que dificulta o acesso a crédito rural e a venda da produção.

O cerco aos responsáveis levou à primeira prisão na segunda-feira, 19. Um homem de 53 anos foi detido em flagrante em Careiro da Várzea, suspeito de incendiar mata na zona rural.

O caso integra uma investigação da Polícia Civil sobre denúncias de terrenos queimados para dar lugar a lavouras e pasto.

Desde 10 de outubro, o governo estadual decretou emergência em 36 municípios, o uso do fogo está proibido no Amazonas para qualquer finalidade, por 120 dias.

O Ministério Público do Amazonas também reforçou a fiscalização em Autazes, com tecnologia para mapear as áreas atingidas, mais equipes em campo e integração entre órgãos.

Um milhão de litros e a primeira trégua

A investigação avança sem que a operação em campo tenha desacelerado.

Desde o início da temporada, 337 incêndios foram controlados no estado. Os satélites do Inpe registraram o primeiro alívio, com 548 focos de calor entre 12 e 18 de outubro, queda de 46% em relação à semana anterior.

Mesmo assim, 85 frentes de fogo seguiam ativas em 30 municípios, com Itacoatiara e Autazes no topo da lista. O balanço não permite separar quanto do recuo se deve ao combate e quanto ao tempo.

O contingente federal saltou de 290 para 462 brigadistas do Ibama e do ICMBio, apoiados por 54 militares da FAB e 41 integrantes da Força Nacional, que viabiliza a contratação de 116 bombeiros estaduais.

Até terça-feira, 20, aeronaves federais haviam lançado 1.118.600 litros de água sobre as áreas afetadas, em 369 descargas e 390,5 horas de voo, segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

O reforço aéreo, no entanto, não chegou inteiro. No sábado, 17, o MMA havia anunciado 16 aeronaves, mas o balanço de terça lista 13.

Desmatamento em mínima histórica

Entre agosto de 2025 e julho de 2026, o Prodes, sistema de monitoramento do Inpe, estimou 3.335 km² de floresta derrubada na Amazônia Legal. A queda é de 41,8%, e o patamar é o menor desde 1988, quando começou a série.

No Amazonas, a área suprimida encolheu de 979 km² para 525 km², recuo de 46,4%. Os valores ainda são preliminares e passarão por consolidação.

O MMA ressalva que as queimadas deste mês estão fora do período medido. O fogo também pode devastar a vegetação sem que a área entre na conta do desmatamento, o que torna a temporada atual uma ameaça ao resultado.

Pelos cálculos do Observatório do Clima, rede de organizações ambientais, a Amazônia perdeu 24.648 km² de mata nos quatro anos da atual gestão, 46% menos que os 45.586 km² do mandato anterior.

Fumaça na reta final

Manaus, que completa 357 anos no sábado, 24, véspera do segundo turno das eleições, sem a tradicional programação festiva, cancelada pela prefeitura por causa da má qualidade do ar.

A capital do Amazonas virou palco de uma crise que mobilizou as três esferas de governo e expôs publicamente os atritos entre elas.

Durante semanas, o governo estadual e a União trocaram versões sobre quem havia pedido e quem havia recusado ajuda. O impasse arrefeceu quando a fumaça atingiu o pior nível do mês e a prefeitura entrou em cena.

No sábado, 17, a concentração de partículas finas chegou a 404,3 microgramas por metro cúbico, cerca de 81 vezes a referência anual da Organização Mundial da Saúde. Com as aeronaves do Ibama impedidas de decolar, o prefeito Renato Junior recorreu às redes sociais para pedir socorro.

A resposta federal veio no dia seguinte, com medidas que previam a instalação de um Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas para coordenar as operações e de uma base da Força Nacional do SUS.

O governador Roberto Cidade, que negociou com Brasília ao longo da crise, deixa o cargo em janeiro. Terceiro colocado no primeiro turno, ele está fora da disputa estadual, que será decidida no domingo entre Omar Aziz (PSD) e Maria do Carmo (PL).

As diretrizes previstas no plano de governo de Aziz estabelecem a redução das queimadas entre 60% e 90% até 2035. Preveem também atualizar o Plano Estadual de Mudanças Climáticas, em vigor desde 2007, com inventário de emissões e medidas de adaptação para secas e cheias.

Já a proposta de Maria do Carmo aposta em satélites, drones e cruzamento de dados para coibir o desmatamento clandestino e os incêndios. Defende ainda prazos fixos e critérios de risco no licenciamento ambiental, sem estipular um índice de redução.

Na corrida presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam programas que dão pesos distintos ao tema.

O presidente, que busca a reeleição, promete desmatamento líquido zero até 2030, compensando a vegetação perdida com áreas restauradas. O texto prevê manter os planos de prevenção e controle, implementar plenamente o Plano Nacional de Manejo Integrado do Fogo e garantir a aplicação da legislação florestal.

O programa de Flávio, intitulado “Para o Brasil Vencer o Atraso”, fixa a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029. Propõe enfrentar queimadas criminosas, grilagem, extração clandestina de madeira e garimpo irregular, além de ampliar o pagamento por serviços ambientais.

O documento também aposta em inteligência artificial e satélites para monitorar focos e ocupações irregulares. Defende prazos definidos no licenciamento de grandes obras e o fim do que chama de “sobreposições” entre Ibama, Funai e ICMBio, sem especificar quais atribuições seriam alteradas.

Contudo, no Senado, Flávio foi coautor, em 2019, do PL 2362, que eliminava do Código Florestal a exigência de Reserva Legal, a parcela de vegetação nativa que propriedades rurais devem conservar.

Para o Greenpeace, a disparada das queimadas após o primeiro turno, em 4 de outubro, pode estar relacionada a possíveis motivações eleitorais, voltadas a desgastar o governo federal. Nenhuma investigação, no entanto, confirmou essa conexão.

Quem vencer, no Planalto ou em Manaus, assume em janeiro com o prognóstico do Censipam de que o El Niño deve manter as chuvas abaixo do normal na região até pelo menos o início de 2027.

AutorLia Rizzo
FonteExame
Distribuído por