Follow-on foi oportunidade, não necessidade, diz CFO da Isa Energia
Companhia levantou R$ 1,2 bilhão para reforçar o balanço e ganhar fôlego no ciclo de investimentos

A Isa Energia Brasil (ISAE4) levantou cerca de R$ 1,2 bilhão com uma oferta primária de ações preferenciais concluída em julho, operação que dobrou de tamanho diante da forte demanda dos investidores. Mas, ao contrário do que o volume captado poderia sugerir, a companhia afirma que a decisão não partiu de uma necessidade financeira.
"O follow-on não veio de uma necessidade, ele veio de uma oportunidade que a gente enxergou. A gente tem todo o nosso pipeline e nossos planos funcionariam bem sem a operação", disse a diretora financeira Silvia Wada à EXAME.
Segundo a executiva, a leitura foi de que o mercado oferecia condições adequadas para antecipar movimentos que já estavam no radar da transmissora, entre eles a reorganização de ativos com a Axia Energia e a aceleração dos investimentos em reforços e melhorias da rede.
"A gente entendeu que, caso o mercado tivesse as condições adequadas, a gente teria bom uso para esse recurso, e foi o que aconteceu", afirmou Wada. "No fundo, a gente ganha mais flexibilidade no balanço para comprimir essa curva de reforços e melhorias e fazer mais, sem estressar o balanço a níveis que a gente não entende que sejam saudáveis."
Reforços e melhorias são projetos de instalação, substituição ou modernização de equipamentos em linhas e subestações que a Isa já opera, com o objetivo de manter a confiabilidade e ampliar a capacidade da rede. É uma frente que vem ganhando peso na alocação de capital da transmissora, com os investimentos em projetos greenfield começando a desacelerar.
No segundo trimestre, os investimentos em reforços e melhorias somaram R$ 445,4 milhões, alta de 17,4% na comparação anual, contra a tendência de queda dos projetos greenfield licitados. No período, a companhia substituiu 312 equipamentos e energizou 16 projetos, sendo 13 de pequeno porte e 3 de grande porte, com investimento total de R$ 290,8 milhões.
O follow-on de julho foi precificado a R$ 27 por ação preferencial, com desconto de cerca de 5% ante o fechamento anterior. Diante da demanda, a companhia exerceu integralmente o lote adicional e emitiu 44,4 milhões de papéis, o dobro das 22,2 milhões inicialmente previstas. Por se tratar de oferta primária, todo o recurso vai para o caixa da empresa.
"A gente entende que esse tipo de operação você faz quando não precisa. Se você fizer só quando você está precisando, não conseguir as melhores condições", disse.
Reação da ação e diluição
A operação, porém, não foi bem recebida de imediato pela bolsa. No pregão seguinte à precificação, os papéis ISAE4 caíram 7,16%, a R$ 26,46, liderando as perdas do Ibovespa naquela sessão.
Para o presidente Rui Chammas, o movimento reflete a dinâmica de curto prazo do mercado, e não o valor da companhia. "A companhia tem um valor intrínseco que foi bem vendido durante o processo. A gente conseguiu atrair investidores interessados nesse upside", afirmou. "A flutuação em torno do valor adequado na bolsa é do jogo. Faz parte, infelizmente acontece."
Wada acrescentou que oscilações desse tipo são comuns nesse tipo de operação, ainda mais em um mercado com volatilidade e liquidez reduzida em alguns pregões. "Qualquer transação acaba afetando o preço bastante, mas isso, com o tempo, a gente espera que se estabilize", disse.
Segundo ela, a demanda pela oferta foi qualificada, com investidores que entendem o programa de investimento de longo prazo da transmissora,.
Para onde vai o dinheiro
A Isa usará cerca de R$ 1,17 bilhão para pagar a Axia Energia (AXIA3) pela reorganização de participações em dois ativos de transmissão, concluída em 31 de julho. Pela operação, a companhia passou a deter 100% da Interligação Elétrica do Madeira, o chamado Linhão do Madeira, e deixou a Interligação Elétrica Garanhuns, que ficou integralmente com a Axia. Como o ativo de Madeira tem valor superior ao de Garanhuns, a diferença coube à Isa.
Chammas classificou a transação como agregadora de valor e alinhada à estratégia de gestão ativa de portfólio. "A gente, no líquido, é comprador, então a gente está aumentando a nossa RAP consolidada", afirmou.
"No líquido, considerando os 51% que eu perco de Garanhuns e os 49% que a gente agrega, a gente estaria aumentando 306 milhões de RAP, numa transação que a gente entende muito agregadora de valor." A RAP é a remuneração fixa que a transmissora recebe pela disponibilidade das linhas. A parcela restante dos recursos deve financiar a aceleração dos investimentos em reforços e melhorias, com olhos nas próximas revisões tarifárias.
