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20/07/2026
9 min

Fomos à farmácia do Assaí: supermercado e drogaria em uma única loja

Fomos à farmácia do Assaí: supermercado e drogaria em uma única loja

Depois de conhecer a farmácia do Mercado Livre, visitar os centros de distribuição e algumas das milhares de lojas da Raia e Drogasil, a EXAME chegou ao Assaí Farma. Menos de quatro meses após a aprovação da lei que autorizou a instalação de farmácias dentro de supermercados, a varejista inaugurou uma unidade instalada dentro de uma loja próxima à Marginal Tietê, em São Paulo.

Segundo o diretor de farmácias do Assaí, Vagner Moraes, a companhia já planejava entrar no varejo farmacêutico desde o final do ano passado. "Ela seria híbrida e voltada para fora do mercado. Mas, com a aprovação da lei, viramos a farmácia para dentro, totalmente integrada", explica.

Por lá, damos de cara com algo que, até então, era comum apenas nos Estados Unidos: gôndolas com os mais variados tipos de remédios a poucos metros de prateleiras com cervejas, refrigerantes e molhos prontos. Visitamos a loja um dia após sua inauguração e vimos clientes caírem dentro do espaço de surpresa, exatamente como quem visita pela primeira vez um modelo até então inédito no país.

"Eu moro em Pirituba, do outro lado da marginal, venho aqui há muito tempo. Nos últimos dias, vi o espaço coberto por uma lona azul. Descobrimos agora que tem uma farmácia aqui no meio do mercado", afirma William Pires, que costuma fazer compras quinzenais no Assaí. Para ele, conseguir comprar medicamentos no mesmo local onde faz as compras do mês é sinal de economia de tempo e de combustível. "Não vou mais precisar pegar o carro depois das compras pra passar também na farmácia".

Além de medicamentos sem prescrição médica, a farmácia oferece também produtos cosméticos, como protetores solares e hidratantes, e remédios que necessitam de prescrição — incluindo medicamentos GLP-1 para perda de peso e tratamento de diabetes —, todos ofertados atrás de um balcão. Há ainda um espaço reservado para aplicação de medicamentos injetáveis, aferição de pressão e oximetria, e até colocação de brincos.

A instalação e o funcionamento de farmácias e drogarias dentro de áreas de venda de supermercados no Brasil foram autorizados em março pela Lei nº 15.357. Essa legislação alterou uma, que rege o controle sanitário do comércio de medicamentos e que estabelecia que os remédios não podiam ficar misturados às gôndolas comuns.

Para operar, no entanto, o estabelecimento precisa seguir regras rígidas, como ter um espaço físico delimitado, segregado e exclusivo para a atividade farmacêutica, além da presença obrigatória de um farmacêutico durante todo o horário de funcionamento.

As vantagens do Assaí Farma

Com aproximadamente 140 metros quadrados, a unidade oferece um sortimento de cerca de 10 mil produtos, volume comparável ao de grandes redes de farmácias e superior ao de operadores regionais, que costumam oferecer cerca de 6 mil itens. O modelo funciona como um store-in-store, integrado à área de vendas existente.

O plano do Assaí é abrir 25 farmácias nos supermercados do estado até o fim deste ano. Segundo a companhia, o potencial de instalação de novas unidades no mesmo modelo em suas lojas é de 250 no Brasil, ainda sem prazo definido.

Para analistas do Itaú BBA, a iniciativa do Assaí dentro do setor farmacêutico promete agregar valor significativo à companhia, podendo representar cerca de 5,5% do valor de mercado atual.

Com base em um modelo simples de análise do banco, considerando vendas mensais maturadas de R$ 800 mil por loja, margens brutas de 26%, despesas mensais de R$ 100 mil e investimento inicial de cerca de R$ 300 mil por unidade, a taxa interna de retorno estimada chega a 45% por loja. Para o plano de 25 lojas até o fim de 2026 e 250 unidades até 2028, o valor presente líquido estimado é de aproximadamente R$ 650 milhões, reforçando o potencial incremental da operação.

Caso os resultados fiquem abaixo do esperado, parte da expansão poderá ser postergada para 2028, de acordo com analistas do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) e do banco Safra, que se reuniram com a diretoria do Assaí.

Além disso, os custos operacionais devem ser menores por aproveitarem a infraestrutura já existente nas lojas do Assaí, incluindo despesas compartilhadas de aluguel, segurança e serviços. Diferente do negócio principal, a logística farmacêutica dependerá de distribuidores externos, sem uso dos centros de distribuição ou frota própria do Assaí.

"O espaço era antes ocupado com alguns serviços que passaram a ser online. Estamos aproveitando um espaço que estava ocioso para colocar as farmácias", afirma Vagner Moraes.

O Safra destaca que o Capex será substancialmente menor justamente devido à integração com a infraestrutura existente, o que também deve gerar um retorno sobre o capital investido superior à média da indústria.

Analistas do BTG apontam que a farmácia atua como um pilar importante do próximo ciclo de crescimento do Assaí, aumentando frequência de clientes, tamanho da cesta e produtividade da loja.

Para a operação do Assaí Farma, o capital de giro deve permanecer amplamente comparável ao de uma farmácia tradicional, com reposição completa das lojas em cerca de dois dias, segundo o Safra.

Para o grupo Assaí como um todo, o BTG Pactual projeta a variação líquida do capital de giro nos próximos anos, estimando R$ 81 milhões em 2026, um fluxo negativo de R$ 790 milhões em 2027 e de R$ 347 milhões em 2028. Esses números refletem a expectativa de como a gestão dos ativos e passivos circulantes deve impactar o caixa consolidado da companhia durante o período.

Cada vez mais entrantes no mercado farma

O movimento vem logo depois de um outro grande nome entrar no mercado de varejo farmacêutico: o Mercado Livre.

A gigante do e-commerce entrou no setor apósadquirir a farmácia Cuidamos (antiga Memed). A compra estratégica foi necessária porque, para cumprir as regulamentações da Anvisa, a venda online de remédios no Brasil só pode ser feita por drogarias licenciadas com um farmacêutico responsável no local. Os pedidos estão disponíveis em uma página específica dentro da plataforma. Neste primeiro momento, a oferta está restrita a medicamentos sem prescrição, como analgésicos, antitérmicos, antiácidos, digestivos e vitaminas.

A promessa da empresa é de entregas em até três horas, dependendo da região. Segundo o Meli, todo o trajeto dos produtos será monitorado, com foco em garantir validade, procedência e condições sanitárias. Além disso, os consumidores poderão tirar dúvidas com farmacêuticos por meio de um canal direto dentro da plataforma.

A movimentação coloca o Mercado Livre em um segmento dominado por grandes redes de farmácias e aplicativos de entrega, e amplia a disputa no varejo de saúde — um mercado que tem avançado com a digitalização e a busca por conveniência.

Segundo Tulio Landin, diretor sênior de marketplace da companhia no Brasil,o piloto servirá como base para testar um modelo mais amplo. A ideia é, no futuro, permitir que farmácias de diferentes portes vendam seus produtos dentro da plataforma, em formato de marketplace.

Assim que o Mercado Livre entrou no setor, em abril, a análise de grandes bancos indicava que o impacto imediato tendia a ser limitado, mas com potencial estratégico relevante no médio e longo prazo. Santander e Itaú BBA apontaram que a operação ainda é incipiente e devia afetar pouco tanto a receita da companhia quanto o desempenho das redes de farmácias estabelecidas.

Segundo o Santander, o momento ainda não configura uma ruptura significativa no setor. “Vemos risco limitado no curto prazo para os varejistas de medicamentos sob nossa cobertura, especialmente considerando que o programa ainda está em fase inicial”, afirmam os  analistas Lucas Esteves, Eric Huang e Vitor Fuziharo. No entanto, o banco destaca o potencial de transformação futura caso o modelo 3P — em que vendedores independentes utilizam a plataforma — seja aprovado.

Nesse cenário, o Mercado Livre poderia se tornar um canal adicional para a venda de produtos por farmácias parceiras.

O Itaú BBA adotou visão semelhante, enxergando a entrada no setor como estratégica mais do que financeira neste momento. Para a instituição, o valor principal está na fidelização do consumidor e na frequência de compra, especialmente de produtos de saúde de venda livre, que têm alta recorrência.

“O verdadeiro valor está na fidelização à plataforma e nas vendas cruzadas, não na escala da categoria”, afirmam os analistas liderados por Rodrigo Gastim. O banco projeta que o setor farmacêutico poderá representar cerca de 6,5% do volume bruto de mercadoria do Meli no Brasil até 2030, o que é relevante, mas não transformador para a receita da companhia.

Ainda assim, o Itaú BBA ressalta que a operação constitui um desenvolvimento estrutural negativo para redes de farmácias estabelecidas, principalmente pela pressão sobre os preços. A conveniência e a proximidade continuam determinantes para o consumidor, com mais de 70% das vendas da RD Saúde realizadas pelo modelo “clique e retire” e a maior parte dos clientes de maior poder aquisitivo morando a menos de cinco minutos de uma unidade.

Em entrevista à EXAME antes de Assaí ou Meli entrarem na disputa, 0 CEO da RD Saúde, Renato Raduan, disse que nada blindaria a companhia de uma possível concorrência com os novos entrante mas que, além da questão regulatória, a varejista farmacêutica aposta em seu diferencial competitivo.

“A automação fortalece nossas farmácias, porque garante um nível de estoque muito bom. Mesmo que a regulação mudasse e que as plataformas digitais usassem a logística delas para ganhar sinergia e baixar custo de distribuição, não seria um grande problema. As farmácias da RD já estão a cinco minutos de 80 milhões de brasileiros e a cinco quilômetros de distância de 120 milhões”, explicou Raduan à época.

"Já temos a possibilidade de entregar em até 60 minutos, 97% dos nossos clientes recebem seus produtos dentro desse tempo. Qualquer empresa de plataforma digital não consegue isso”, disse.

Na RD Saúde, os produtos das farmácias são encarados como commodities: há pelo menos uma farmácia a cada esquina no Brasil, com os mesmos medicamentos a preços muito similares. A estratégia da companhia é se diferenciar pela experiência proporcionada ao cliente, através da disponibilidade de produtos e presença em pontos estratégicos. A cada ano, a empresa abre cerca de 300 novas lojas, entre Raia e Drogasil e um novo CD automatizado por ano.

AutorLetícia Furlan
FonteExame
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