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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
08/09/2026
7 min

Formado em medicina, ele trocou o consultório para criar negócio que faz R$ 8 milhões ao ano

Empresa nasceu ainda durante a graduação, chegou a 500 clientes e agora aposta em novas fontes de receita para crescer

Formado em medicina, ele trocou o consultório para criar negócio que faz R$ 8 milhões ao ano

O goiano João Amorim passou anos na faculdade de medicina, mas nunca chegou a atender um paciente como médico. Antes mesmo de receber o diploma, já havia encontrado outra forma de ganhar dinheiro dentro do setor de saúde.

A história começou ainda na graduação. Amorim já havia feito pequenas incursões pelo empreendedorismo quando uma mudança na vida pessoal o fez procurar uma fonte de renda. A namorada precisou se mudar para a Argentinapor uma questão familiar, e ele queria ter dinheiro para viajar com frequência entre os dois países.

Como já tinha alguma familiaridade com anúncios online, ofereceu-se para trabalhar em uma empresa de treinamentos de um colega de faculdade. O acordo estava longe de ser atraente. Durante 12 meses, recebeu cerca de R$ 1 mil no total — pouco mais de R$ 80 por mês. A experiência, porém, serviu para aprender a comprar mídia e administrar campanhas digitais.

O negócio do colega acabou após um desentendimento entre os sócios. Amorim, então, resolveu testar o que havia aprendido em outro mercado. Ofereceu gratuitamente o serviço a uma professora da faculdade que tinha consultório. A ideia era simples: se conseguia vender cursos pela internet, talvez conseguisse encontrar pessoas interessadas em marcar uma consulta.

“Essa ideia não veio de um estudo mercadológico muito profundo. Foi mais feeling mesmo”, diz Amorim. Depois de algumas semanas testando anúncios, percebeu que havia encontrado um nicho.

Foi daí que nasceu a MNG, também conhecida como Médico no Google. Em vez de seguir o modelo das agências que oferecem de criação de sites a produção de vídeos, a empresa concentrou-se em uma única atividade: compra e gestão de mídia digital para médicos.

Hoje, a MNG tem cerca de 500 clientes ativos. A empresa faturou R$ 6,1 milhões em 2025 e projeta chegar a R$ 8 milhões em 2026, avanço de 31,1%. A carteira está espalhada pelo Brasil, com maior presença em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre, além de clientes em Portugal, Peru e Panamá. 

O resultado colocou Amorim diante de uma situação curiosa. O negócio construído enquanto cursava medicina passou a movimentar milhões antes que ele sequer começasse a trabalhar na profissão para a qual havia estudado.

Por que trocar a medicina pela empresa

Quando a MNG começou a ganhar escala, Amorim ainda precisava conciliar o negócio com a rotina da graduação. Por volta da metade do curso, os primeiros clientes foram chegando um após o outro. Cerca de três anos depois, já eram aproximadamente 150 contratos ativos e uma equipe de dez a 12 pessoas.

Foi perto da formatura, há três anos, que surgiu a escolha entre os dois caminhos. Havia também um componente familiar. A mãe de Amorim é enfermeira e o irmão mais novo também seguiu a medicina.

A empresa, no entanto, já faturava mais de R$ 2 milhões por ano. Amorim decidiu não fazer residência nem abrir consultório. Desde que recebeu o diploma, nunca exerceu a medicina.

“Foi uma decisão pelo tamanho da empresa. Eu me formei e nunca atuei”, afirma.

A aposta era descobrir até onde poderia levar um negócio que havia crescido enquanto dividia seu tempo com uma graduação que, segundo ele, consumia de 50 a 60 horas semanais, além das horas de estudo em casa.

Desde então, a carteira saiu de 100 clientes no fim de 2023 para os atuais 500.

Por que os médicos passaram a disputar pacientes na internet

O crescimento da MNG acompanha uma transformação que Amorim percebeu no próprio mercado em que se formou. Na avaliação do empresário, o aumento da quantidade de profissionais tornou menos automática a construção de uma carteira de pacientes.

A indicação e o tempo de carreira continuam relevantes, mas passaram a dividir espaço com ferramentas de aquisição de clientes que até pouco tempo eram mais comuns em outros setores.

“O médico perdeu aquela coisa da carreira de entrar no consultório, atender, as indicações começarem a fluir e a vida seguir. Hoje o pessoal está muito mais pressionado no início da carreira”, diz Amorim.

É nesse movimento que a empresa encontrou espaço. A MNG trabalha principalmente com Googlee plataformas da Meta, como Instagram e Facebook, além de TikTok, LinkedIn e YouTube.

O maior peso está nas especialidades ligadas à estética, como cirurgia plástica, dermatologia, cirurgia vascular e transplante capilar. Segundo Amorim, são áreas em que o valor dos procedimentos permite investimentos maiores na aquisição de pacientes — e, consequentemente, campanhas maiores.

Mas a procura começou a se espalhar para outras áreas. Um exemplo citado pelo empresário é a cirurgia bariátrica. Segundo Amorim, um cliente chegou a registrar queda de cerca de 80% no volume de cirurgias com o avanço de medicamentos para perda de peso, o que aumentou a pressão para buscar novos pacientes. Trata-se de um dado relatado pelo próprio empresário, e não de uma estatística geral do setor.

Outro grupo que passou a procurar esse tipo de serviço é formado por médicos mais antigos, que durante anos mantiveram consultórios sustentados principalmente pela reputação e pelas indicações.

“Tinham gente que tinha um consultório muito bem consolidado, já estava ali há anos, e viu o volume definhando ano a ano”, afirma. Segundo ele, a procura desse perfil aumentou especialmente nos últimos 12 a 18 meses.

Como chegar aos R$ 8 milhões sem multiplicar a carteira

A meta de crescer 31,1% neste ano não depende apenas de colocar mais médicos na carteira. Amorim afirma que existe um limite para o número de contas que a empresa pretende atender no modelo atual.

Ele e o diretor operacional ainda participam diretamente do acompanhamento dos clientes. Na avaliação do empresário, ampliar indefinidamente a carteira exigiria uma estrutura diferente e poderia comprometer esse modelo.

Por isso, apenas uma parte da expansão prevista para 2026 virá de novos contratos. A expectativa é aumentar a carteira entre 10% e 15%. Aproximadamente metade do crescimento da receita no ano deverá vir desse movimento e a outra metade, de novas formas de remuneração.

A MNG começou a fechar contratos em que, além da mensalidade fixa, recebe uma parcela variável de acordo com o resultado de determinados clientes. Em alguns casos, a agência fica com um percentual do faturamento que atribui às campanhas; em outros, recebe um valor por cirurgia gerada.

“Eu prefiro ganhar no variável, para só ganhar com o cliente justamente quando ele ganhar”, diz Amorim. Por enquanto, o modelo está restrito a uma parcela pequena da carteira, formada principalmente pelos maiores clientes. A empresa afirma estar ligeiramente à frente do plano traçado para alcançar os 31% de crescimento neste ano.

O que vem depois do tráfego pago

A experiência com centenas de consultórios também levou Amorim a procurar negócios nos quais pudesse participar de uma fatia maior da operação.

Um deles foi abrir a própria clínica. Há dois anos, o grupo criou a Renesse Clinic, no interior de São Paulo, especializada em transplante capilar. A expectativa é faturar entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões em 2026.

O empresário também entrou como sócio da CFO de Consultório, voltada à estruturação financeira e estratégica de clínicas. O negócio tem cerca de um ano e meio e ainda está em estágio inicial.

A tese de Amorim é que a transformação da medicina criará uma economia cada vez maior ao redor dos próprios médicos. Marketing é apenas uma parte dela. Educação, gestão financeira, contabilidade e investimentos estão entre os serviços que, na visão dele, tendem a ganhar espaço à medida que profissionais de saúde precisam administrar a carreira também como um negócio.

“Esses profissionais precisam se mexer muito mais para manter a renda que têm”.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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