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02/06/2026
5 min

Fórum discute bem-estar financeiro no Brasil

Fórum discute bem-estar financeiro no Brasil

O avanço da inclusão financeira no Brasil trouxe um novo desafio ao sistema econômico: ajudar a população a transformar acesso em decisões financeiras mais sustentáveis. Esse foi o ponto central da primeira edição do Fórum de Bem-Estar Financeiro, promovido pelo Sicredi no dia 20 de maio, no Teatro B32, em São Paulo.

O evento reuniu representantes do Banco Central, da Febraban, de fintechs, do cooperativismo, da academia e especialistas internacionais para discutir os impactos do endividamento, do comportamento financeiro e da cidadania financeira no país.

A discussão acontece em um momento crítico. Segundo dados apresentados durante o fórum, o Brasil alcançou 82,8 milhões de inadimplentes em março de 2026, de acordo com a Serasa. Já o Banco Central aponta que o endividamento das famílias brasileiras chegou a 49,9% da renda — o maior nível da série histórica iniciada em 2005.

Inclusão financeira já não basta

Na abertura do evento, Izabela Correa, diretora de Cidadania e Supervisão de Conduta do Banco Central do Brasil, destacou o avanço da bancarização no país. “Hoje, 97% da população adulta está incluída no sistema financeiro nacional”, afirmou, citando o Pix como um dos principais motores dessa transformação.

Se antes a discussão estava concentrada em ampliar o acesso ao sistema financeiro, hoje o foco passa a ser a qualidade do uso desses recursos. Foi o que destacou Luis Mansur, chefe do Departamento de Promoção da Cidadania Financeira do Banco Central.

Segundo ele, o país possui atualmente 175 milhões de adultos com conta bancária e cerca de 130 milhões com acesso ao crédito. Ainda assim, 77% das famílias brasileiras estão endividadas. “Algo que era para ser esporádico passou a fazer parte do dia a dia”, afirmou, ao mencionar o uso recorrente de crédito rotativo, múltiplos cartões e empréstimos usados para quitar outras dívidas.

Mansur também apresentou os quatro pilares internacionais do conceito de bem-estar financeiro: capacidade de gerir o cotidiano sem estresse excessivo, resiliência diante de imprevistos, planejamento de longo prazo e sensação de segurança financeira.

O peso do endividamento problemático

Presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney reforçou que o debate sobre bem-estar financeiro está diretamente ligado à inadimplência e ao uso inadequado do crédito.

“O foco e a nossa preocupação estão exatamente no estoque de endividamento problemático, porque são dívidas que corroem o orçamento, reduzem a qualidade de vida das pessoas e perpetuam ciclos de vulnerabilidade financeira”, afirmou.

Segundo ele, aproximadamente 80% do estoque de dívida das famílias brasileiras está associado a modalidades consideradas saudáveis, como financiamento imobiliário e crédito de longo prazo. Já a parcela mais preocupante está ligada ao crédito emergencial, caro e de curto prazo. Sidney também apontou o crescimento dos gastos com apostas on-line como um fator relevante no comprometimento da renda das famílias.

Vivian Rodrigues, da Nossa Escola para Planejadores Financeiros; Tânia Zanella, do Sistema OCB; Dirlene Silva, da DS Estratégias; e César Gioda Bochi, do Sicredi: painel discutiu o que influencia o bem-estar financeiro (SICREDI/Divulgação)

Uma agenda que vai além da educação financeira

Para o Sicredi, o conceito de bem-estar financeiro amplia a discussão tradicional sobre educação financeira ao incorporar comportamento, emoções e contexto de vida.

“O avanço do bem-estar financeiro no Brasil passa necessariamente por uma construção coletiva. Nenhuma instituição, sozinha, dá conta da complexidade desse tema”, afirmou César Bochi, diretor-presidente do Banco Cooperativo Sicredi.

Segundo ele, o objetivo do fórum foi justamente ampliar e qualificar esse debate em um momento em que as decisões financeiras se tornaram mais complexas e mais presentes no cotidiano da população.

Hoje, o Sicredi reúne mais de 10 milhões de associados, mais de 3 mil agências, mais de 90 cooperativas e cerca de 50 mil colaboradores. De acordo com Bochi, a instituição desenvolveu um indicador próprio de bem-estar financeiro e já observa impactos positivos entre associados acompanhados por programas estruturados de orientação voltada às finanças.

Michael Norton, professor de Harvard: para ele, o problema não é ter dinheiro, mas sim como ele é usado (SICREDI/Divulgação)

Tecnologia, emoções e comportamento

A programação do evento também incluiu discussões sobre open finance, personalização de serviços e uso de tecnologia para apoiar decisões financeiras mais sustentáveis.

Representantes da Open Finance Brasil, da ABFintechs e da ABBC discutiram como inovação e dados podem ajudar instituições a oferecer soluções mais aderentes ao perfil financeiro dos clientes.

No encerramento, Michael Norton, professor da Harvard Business School, trouxe uma perspectiva comportamental sobre a relação entre dinheiro e felicidade. “Quando pensamos em dinheiro, normalmente pensamos primeiro em nós mesmos. Mas gastar com outras pessoas tende a aumentar nossa felicidade”, afirmou.

Ao longo da palestra, Norton mostrou pesquisas que relacionam felicidade financeira a experiências, conexões sociais e sensação de progresso — e não apenas ao acúmulo de patrimônio.

O próximo passo da cidadania financeira

O consenso entre os participantes do fórum foi que a próxima etapa da inclusão financeira brasileira não será medida apenas pelo número de contas abertas ou pelo acesso ao crédito, mas pela capacidade de as pessoas utilizarem esses recursos de forma sustentável ao longo da vida.

Nesse cenário, o bem-estar financeiro passa a ser entendido como uma agenda que conecta educação, comportamento, tecnologia, saúde mental e desenvolvimento econômico. “O desafio é muito mais profundo do que programas de renegociação de dívidas”, resumiu Isaac Sidney ao discutir os impactos do endividamento estrutural no país.

Ao reunir Banco Central, setor bancário, cooperativismo, fintechs e academia, o Fórum Bem-Estar Financeiro sinalizou uma mudança de abordagem: mais do que ampliar o acesso ao sistema financeiro, o foco agora passa a ser a construção de relações mais equilibradas e conscientes com o dinheiro.

AutorEXAME Solutions
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