Freio global: Kepler Weber cai 46% no exterior e aposta na Argentina
Para Bernardo Nogueira, CEO da companhia, recuo reflete a normalização após um 2025 recorde e país vizinho segue como a principal aposta de expansão

Depois de um 2025 impulsionado pela demanda externa, a Kepler Weber começou a sentir uma desaceleração em sua operação internacional. A receita do segmento de Negócios Internacionais caiu 46,3% no segundo trimestre, para R$ 16,6 milhões, o maior recuo entre todas as áreas de negócio da companhia.
Para Bernardo Nogueira, CEO da fabricante de soluções para armazenagem de grãos, o resultado não representa uma perda estrutural de mercado, mas uma normalização após um período considerado atípico.
"O negócio internacional está voltando para o patamar de 2023 e 2024. O ano de 2025 foi excepcional", disse o executivo à EXAME.
Segundo Nogueira, parte desse movimento está ligada ao mercado de arroz, que impulsionou as vendas externas no ano passado, mas perdeu força com a queda dos preços internacionais. Ainda assim, a internacionalização segue como um dos principais pilares da estratégia de diversificação da companhia.
Em 2025, a operação internacional foi um dos principais motores de crescimento da Kepler Weber. O segmento avançou 19,4% no acumulado do ano, alcançando R$ 237,7 milhões em receita líquida — o melhor resultado da última década, tanto em faturamento quanto em volume comercializado.
A Argentina foi o principal driver dessa expansão. A receita no país passou de praticamente zero, em 2023, para R$ 5 milhões em 2024 e cerca de R$ 50 milhões em 2025, tornando o mercado argentino o segundo mais relevante da operação internacional da companhia, atrás apenas do Paraguai.
Apesar da desaceleração neste ano, a empresa mantém a aposta no país vizinho. Na avaliação de Nogueira, anos de baixo investimento criaram uma demanda reprimida por infraestrutura de armazenagem, que tende a ganhar força à medida que o crédito volte a fluir após as reformas econômicas promovidas pelo presidente Javier Milei.
"A Argentina ainda não veio com muita força para fazer aquisições, mas seguimos acreditando. O país ficou muito tempo com baixo investimento. Com mais acesso a crédito, haverá necessidade de atualizar o parque de logística e armazenagem", afirmou.
Apesar da forte queda no trimestre, a operação internacional ainda acumula crescimento de 7% no primeiro semestre, com receita de R$ 76,8 milhões, impulsionada por mercados como Venezuela, Paraguai e Bolívia.
O 2º tri
A desaceleração do agronegócio brasileiro também apareceu nos resultados do segundo trimestre.
A Kepler Weber registrou receita líquida de R$ 299,1 milhões, queda de 3,9% na comparação anual. O EBITDA somou R$ 25,9 milhões, com margem de 8,7%, enquanto o lucro líquido ficou em R$ 6,3 milhões.
Apesar do ambiente mais desafiador, a companhia encerrou o trimestre com R$ 354,2 milhões em disponibilidades e caixa líquido de R$ 29,3 milhões, preservando capacidade para continuar investindo.
Segundo o CEO, o cenário exige disciplina na gestão de custos, mas não altera a estratégia da empresa. "O vento está tão forte contra que, mesmo fazendo o melhor possível, vemos redução nas margens e no volume", afirmou.
A maior pressão continua vindo do segmento de Fazendas, tradicional mercado da companhia. A receita da área recuou 13,2%, para R$ 83,1 milhões, refletindo juros elevados, crédito mais restrito e menor rentabilidade dos produtores rurais.
Em sentido contrário, a área de Agroindústrias tornou-se o principal negócio da empresa no trimestre, com receita de R$ 126,5 milhões, alta de 17,9%, impulsionada por investimentos de cooperativas, tradings e indústrias de alimentos, rações e biocombustíveis.
Ao mesmo tempo, a divisão de Reposição e Serviços cresceu 5%, para R$ 65,6 milhões, reforçando a estratégia da companhia de ampliar receitas menos dependentes da venda de novos projetos.
Hoje, Agroindústrias, Negócios Internacionais, Portos e Terminais e Reposição e Serviços já representam 72% da receita líquida da empresa no semestre, ante 66% no mesmo período de 2025.
Para o executivo, essa diversificação ajuda a companhia a atravessar um momento em que os produtores permanecem mais seletivos na hora de investir. "A armazenagem se tornou prioridade. Os clientes estão com uma negociação mais forte porque estão com uma rentabilidade mais fraca", afirmou.
Segundo ele, projetos de armazenagem, cujo investimento médio varia entre R$ 3 milhões e R$ 5 milhões, continuam sendo considerados estratégicos, mesmo em um ambiente de crédito mais caro.
A expectativa, contudo, é de que esse cenário permaneça no próximo ano. "Cautela para todo 2026. E, olhando para 2027, ainda não vemos nenhum alívio para esse cenário mais estressado", disse.
