Frigoríficos, genética e mercado global: o plano dessa gigante do agro para chegar aos R$ 10 bilhões
Em entrevista exclusiva à EXAME, Fabrício Batista, CEO da JBJ Agropecuária, explica como a compra de um novo frigorífico deve elevar o faturamento do grupo, que vê oportunidades no cenário internacional

Uberaba (MG)* - A JBJ Agropecuária, grupo fundado pelo empresário José Batista Júnior, o Júnior Friboi, prepara um novo salto de tamanho. Com a aquisição de um frigorífico em Rondônia, que começará a operar sob o comando da companhia em setembro, a empresa espera sair da casa dos R$ 6 bilhões para cerca de R$ 8 bilhões em faturamento. O próximo objetivo é alcançar a marca de R$ 10 bilhões até 2027.
Com a nova planta de Rondônia, a Prima Foods, braço frigorífico do grupo JBJ, passa de 3 para 4 unidades industriais e alcança capacidade total de aproximadamente 3 mil abates diários.
“Com esse avanço no abate, vamos conseguir adicionar em torno de R$ 2 bilhões de faturamento bruto”, afirma Fabrício Batista, CEO da JBJ Agropecuária, que divide a direção da empresa com o pai e fundador José Batista Júnior (conhecido como Júnior Friboi - filho de um dos fundadores da JBS).
“Com o novo frigorífico vai faltar pouco para a gente alcançar a meta. Com incremento de animais engordados ou até uma nova aquisição, nosso objetivo de R$ 10 bilhões deverá ser alcançado em 2027.”
Segundo o CEO, a aquisição do frigorífico já passou pela aprovação do Cade e a companhia deverá assumir a operação no início de setembro, com o início dos abates previsto para meados do mês.
A entrevista exclusiva à EXAME aconteceu em Uberaba, Minas Gerais, durante a 3ª edição do Leilão JBJ Genetics e Família Nelorista, realizado nos dias 14 e 15 de agosto, dentro da programação da Expogenética.
O evento reúne gados da raça Nelore selecionados por características genéticas associadas a maior produtividade, como ganho de peso, precocidade e fertilidade. Nesta terceira edição, o evento cresceu 23% em relação ao do ano anterior faturando R$ 42 milhões em dois dias.
Imagem da 3ª edição do Leilão JBJ Genetics e Família Nelorista, realizado nos dias 14 e 15 de agosto, realizado em Uberaba, MG (Eduardo Martins/Brazil News/Divulgação)
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Frigorífico: um negócio de peso para o grupo
Foi Fabrício que idealizou há três anos os leilões de bovinos e de cavalos de raça promovidos pelo grupo JBJ Agropecuária. Segundo ele, a genética é uma das engrenagens para aumentar a produtividade da pecuária, mas é a indústria frigorífica que promete puxar a próxima fase de crescimento da companhia.
Hoje, segundo o CEO, pecuária e indústria têm peso semelhante nas receitas.
“A pecuária e a indústria estão andando meio que lado a lado”, diz Batista.
A relação, porém, deve mudar com a entrada da nova planta de Rondônia. “Com essa nova aquisição, eu acho que a indústria passa a receita da pecuária, que hoje está em 50%.”
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Depois de Rondônia, novas aquisições podem entrar no radar
A expansão industrial ganhou prioridade depois que a JBJ desistiu da aquisição da Fazenda Conforto, em Goiás. O negócio chegou a ser fechado, mas enfrentou obstáculos na análise concorrencial.
Segundo Batista, após uma negativa no rito sumário do Cade, o processo seguiria para o rito ordinário, que poderia levar até um ano. Diante do prazo, comprador e vendedor decidiram encerrar a negociação.
“A companhia não pode ficar parada um ano”, afirmou Batista.
Isso não significa, porém, que a JBJ tenha fechado a porta para novos negócios. A chegada aos R$ 10 bilhões pode depender justamente de mais animais engordados ou de outra aquisição, segundo o CEO. No curto prazo, porém, não há uma operação específica sendo anunciada.
A estratégia reforça a verticalização construída pela companhia. A JBJ atua desde a cria dos bezerros, passa pela recria e pelos confinamentos e chega ao abate, processamento e comercialização da carne. A genética ocupa o início dessa cadeia.
“A JBJ hoje talvez seja uma das únicas empresas dentro do setor do agro, da pecuária, que verticaliza toda a produção”, diz. “E a parte da genética do gado é uma semente, que você planta lá no início do processo.”
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Genética deve movimentar até R$ 350 milhões em 2026
Embora represente uma parcela pequena diante do tamanho total da companhia, cerca de 5% do faturamento, a genética ganhou relevância estratégica, tanto para produtividade quanto para a construção da marca JBJ.
“A genética não é sobre quantidade, ela é qualidade”, diz.
Neste ano, a JBJ prevê realizar 13 leilões de gados (sendo 2 presenciais, esse de Uberaba, Minas Gerais, e outro em outubro em Nazário, Goiás). A expectativa é que esses eventos faturem cerca de R$ 350 milhões somente com a genética bovina em 2026.
Os eventos presenciais funcionam como a “prateleira de cima” da produção, segundo o CEO, enquanto outros animais são comercializados em leilões virtuais ao longo do ano.
"Nesta edição de Uberaba, no primeiro dia de leilão um dos animais comercializados foi vendido por R$ 6 milhões", diz Batista, que afirma que o preço superou a marca registrada do último ano.
Por trás dos valores milionários dos leilões está uma aposta econômica: produzir mais carne em menos tempo. Para o CEO, nutrição, manejo e sanidade são importantes, mas a genética é uma das ferramentas capazes de gerar os maiores ganhos de produtividade.
“Quando você usa a genética apropriada e coloca mais quilos nesse animal num menor espaço de tempo, isso é rentabilidade”, afirma.
Júnior Friboi no centro, do lado esquerdo a esposa e o filho mais novo, do lado direito Fabrício Batista com a esposa (Eduardo Martins/Brazil News/Divulgação)
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Estados Unidos: um caminho para internacionalizar a empresa
À medida que cresce no Brasil, a JBJ também começa a desenhar o que poderia ser seu próximo capítulo: tornar-se uma companhia internacional. Os Estados Unidos aparecem como uma possibilidade, mas não, pelo menos agora, por meio da compra de frigoríficos.
Batista, que trabalhou por anos no exterior pela JBS, avalia que a redução do rebanho americano elevou o custo do gado e pressionou as margens das processadoras, tornando uma aquisição industrial pouco atraente neste momento.
Um exemplo é a Tyson Foods, maior processadora de carne dos Estados Unidos. A companhia anunciou o fechamento de duas unidades ligadas ao negócio de carne bovina, em Joslin, Illinois, e Eagle Mountain, Utah, além da busca por um comprador para uma planta em Pasco, Washington.
“Hoje, as margens nos Estados Unidos são negativas, e a Tyson é um exemplo fechando essa semana duas plantas frigoríficas”, afirma Batista.
O movimento ocorre em meio à menor oferta de gado nos Estados Unidos em 75 anos. A Tyson estima para seu negócio de carne bovina um prejuízo operacional ajustado de até US$ 650 milhões no ano fiscal de 2026.
É nesse cenário que o executivo descarta, por enquanto, levar a JBJ ao mercado americano por meio de uma aquisição.
“Adquirir indústria frigorífica nos Estados Unidos eu acho que não é o momento”, diz.
A internacionalização, porém, poderia ocorrer por outro caminho. Batista vê espaço para empresas brasileiras criarem uma estrutura própria de processamento e distribuição de carne nos Estados Unidos, avançando um elo na cadeia depois da exportação.
“Talvez uma oportunidade para as empresas brasileiras seria abrir esse canal de processamento e distribuição dentro do mercado americano”, afirma Fabrício.
Para a JBJ, a possibilidade ainda não está em estudo, ressalta o executivo, mas poderia representar “um caminho de internacionalização”.
Enquanto isso, a estratégia é seguir atendendo o mercado americano como exportadora. Os Estados Unidos estão entre os destinos relevantes da carne vendida pela JBJ e, na visão de Batista, a própria crise de oferta no país aumenta a importância do produto brasileiro.
Com menos gado disponível e preços elevados, a carne importada ajuda a complementar a produção doméstica — dinâmica que, segundo o executivo, também explica a retirada da carne brasileira da lista de produtos atingidos pelo tarifaço de Donald Trump.
“O que o Trump está fazendo, na verdade, é deixando a carne brasileira entrar, assim como de outros países também, para complementar a produção americana e o consumidor não sentir tanto na hora de pagar; e isso deve se manter”, diz Batista.
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A importância da Europa frente ao acordo Mercosul x União Europeia
No mercado externo, a China é hoje o principal destino das exportações da JBJ Agropecuária, seguida pelo Oriente Médio, logo depois aparecem Europa e Estados Unidos.
A importância de cada região, porém, não está apenas no volume vendido, mas também no tipo de carne comprada, conta o CEO.
“A Europa tem papel estratégico por consumir cortes de maior valor agregado, como filé-mignon e contrafilé”, diz. “O volume hoje não é grande, mas ajuda muito as exportações porque os cortes são muito valorizados”, diz Fabrício.
É nesse cenário que a JBJ acompanha as discussões envolvendo o acordo entre Mercosul e União Europeia. Apesar da resistência de produtores europeus à entrada de produtos estrangeiros, Batista acredita que o continente continuará precisando complementar sua produção com carne importada.
“Eu acredito que isso vai ser discutido, mas eu acho que a Europa vai ser sempre dependente de importações,” diz o CEO.
O principal desafio para o Brasil, segundo Fabrício, está nas exigências de rastreabilidade e comprovação da origem do gado.
“Hoje, o mercado europeu exige certificação de origem do animal, ele quer saber de fato de onde veio esse gado, se tem relação ou não com áreas ilegais,” diz o CEO.
Para acompanhar a demanda, na JBJ, segundo Fabrício, todos os animais da JBJ são rastreados.
“Quando chegam às fazendas, os gados recebem um brinco de identificação e um chip, que permitem registrar informações como fazenda e estado de origem, criador, idade, protocolo sanitário e peso de entrada”, diz o CEO.
A tendência, na visão do CEO, é que esse controle se torne cada vez mais importante para acessar os principais mercados internacionais.
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O foco é crescer no Brasil
Apesar das oportunidades internacionais, por enquanto, o Brasil segue no centro dos investimentos da JBJ Agropecuária, segundo Fabrício. Mas a ambição é maior da família que nasceu vendo o fundador da JBS construir um império internacional.
Após José Batista Júnior (pai de Fabrício) deixar a JBS e vender sua participação na companhia aos irmãos em 2012, ele recebeu parte do pagamento em ativos rurais. Hoje, o grupo soma 14 fazendas - que foram a base do que conhecemos hoje como JBJ Agropecuária.
“Na época eu trabalhava na Austrália pela JBS, mas fazia muito mais sentido eu sair para ajudar o meu pai na construção da JBJ”, diz Fabrício.
Agora, na segunda geração, o CEO vê a responsabilidade de transformar a companhia em um negócio que cresce sem limites.
“Assim como meu pai ajudou a criar a JBS que hoje é global, eu acho que é responsabilidade nossa, dos filhos, também ajudá-lo a criar um negócio, que leva as suas iniciais, a uma dimensão global.”
Veja a entrevista de Fabrício Batista, CEO da JBJ Agropecuária, direto da fazenda em Goiás:
* A jornalista viajou a convite da empresa.
