Fundos tokenizados podem superar os tradicionais? A aposta que divide o mercado
Franklin Templeton vê uma revolução nos fundos digitais em até dez anos, enquanto bancos brasileiros apontam que adoção ainda depende de regulação

A indústria global de fundos pode passar por uma das maiores transformações tecnológicas das últimas décadas. A aposta da americana Franklin Templeton é que os fundos tokenizados, baseados em redes digitais, deixarão de ser uma alternativa experimental e passarão a ocupar papel fundamental no mercado.
Um fundo tokenizado é um fundo de investimento cuja cota existe em uma blockchain, tecnologia que registra transações no ambiente virtual de forma segura. Na prática, a tokenização transformará a cota tradicional em um ativo programável, capaz de executar operações automaticamente.
A vice-presidente executiva e chefe de ativos digitais e inovação da gestora, Sandy Kaul, projeta que, em até dez anos, esses fundos tokenizados poderão superar os fundos tradicionais em tamanho; e acredita que o uso desses ativos como garantia em operações de recompra e financiamento deve se consolidar já nos próximos três anos.
Para a especialista da Templeton, a evolução dos fundos tokenizados pode, além disso, seguir um caminho parecido com o dos fundos que acompanham ativos (ETFs, na sigla em inglês), que levaram duas décadas para superar os fundos mútuos em relevância.
"Acho que algo parecido vai acontecer aqui. Acredito que, para fins de colateral, operações de recompra e financiamento, isso acontece nos próximos três anos. Para a exposição geral de portfólio, será algo parecido com a tendência dos ETFs", relata em entrevista à imprensa internacional.
Apesar do avanço no exterior, o cenário brasileiro ainda é mais cauteloso. O mercado financeiro local reconhece o potencial da tecnologia, mas avalia que a substituição das cotas tradicionais por versões digitais ainda está distante da realidade do investidor.
Fundos tokenizados permitem rendimento em tempo real
A principal mudança trazida pela tokenização não está apenas em transformar uma cota de fundo em um ativo digital. O diferencial está na possibilidade de programar essa cota dentro do blockchain, com o ativo passando a funcionar de forma contínua, com cálculos de rendimento em tempo real e uso como garantia financeira.
O vice-presidente de negócios cripto no Mercado Bitcoin, Fabrício Tota, explica que o Brasil começou esse movimento com a criação dos chamados "gêmeos digitais", que representam, na rede de registro digital, ativos que continuam existindo no mercado tradicional, como precatórios e consórcios.
Agora, na avaliação do especialista, o mercado começa a avançar para os digital native assets, em que o próprio ativo existe exclusivamente dentro da rede blockchain. "Tudo que acontecer com aquele ativo é definitivo, porque só ele existe. Você consegue fracionar o tempo e dar rendimento a cada segundo, a cada instante."
"Fiz uma conta aqui com um investimento de R$ 10 milhões a uma taxa de 15% ao ano: ele renderia 4 centavos por segundo. Você não tem mais aquela história de 'dormir' com o ativo no 'overnight' para ganhar a rentabilidade. O dinheiro rende para o detentor a cada instante", explica Tota.
O Mercado Bitcoin soma, atualmente, R$ 2,3 bilhões em valor tokenizado. Apesar disso, Tota afirma que a tokenização de cotas de fundos ainda depende de avanços regulatórios. "Do ponto de vista estritamente técnico, a gente está 100% pronto. É preciso criar a infraestrutura do ponto de vista regulatório para que isso caiba e o investidor tenha todas as proteções", destaca.
Tokenização melhora eficiência, mas não aumenta retorno
Apesar do potencial da tecnologia, especialistas alertam que a tokenização não significa automaticamente ganhos maiores para o investidor. O fundo tokenizado pode trazer mais eficiência operacional, mas o retorno dos investimentos continua dependendo dos mesmos fatores que o fundo tradicional.
"Um fundo não rende mais simplesmente por estar tokenizado. A rentabilidade continua dependendo dos ativos da carteira, da gestão, das taxas e da tributação. O que muda é a infraestrutura da cota e a eficiência operacional", detalha o especialista em inovação financeira, Bruno Diniz.
Diniz vê, ainda, que o impacto pode ser mais relevante para grandes investidores e tesourarias corporativas do que para a pessoa física que mantém um fundo por meses ou anos. "O dinheiro não necessariamente rende mais, mas o rendimento pode ser calculado com maior precisão e o ativo pode circular mais rapidamente."
"Acredito em uma migração progressiva, mas não necessariamente em uma substituição completa. Em dez anos, muitos investidores poderão estar em fundos tokenizados sem perceber, acessando-os pelos mesmos canais que utilizam hoje", avalia o autor de livros sobre soluções financeiras digitais.
Bancos brasileiros reconhecem evolução da infraestrutura
Entre os grandes bancos e gestoras brasileiras, a visão predominante é que a tokenização representa uma evolução da infraestrutura do mercado de capitais, e não uma nova classe de ativos. Apesar do avanço dos testes, a adoção em larga escala ainda depende de amadurecimento regulatório e tecnológico.
No Itaú Unibanco, a expectativa é de convivência entre os modelos tradicional e tokenizado no curto e médio prazo. Para o superintendente de digital assets do banco, Guto Antunes, o principal ganho da tecnologia está na possibilidade de tornar ativos financeiros programáveis.
"A tokenização representa uma evolução da infraestrutura do mercado de capitais, e não necessariamente uma nova classe de produtos. (...) O principal ganho não está em digitalizar uma cota, mas em torná-la programável", pontua Antunes.
Isso porque quando um ativo passa a existir de forma nativa em blockchain ele deixa de ser apenas uma aplicação financeira e passa a ter novas possibilidades de uso. "Isso permite que ele seja utilizado como garantia, participe de operações de liquidação atômica ou componha estruturas mais eficientes de gestão de liquidez", diz.
Na Bradesco Asset, a avaliação também é de que o mercado brasileiro ainda está em uma fase inicial de desenvolvimento. O superintendente de estratégia, inovação e inteligência artificial da gestora, Fernando Galdi, vê que a tokenização tem potencial relevante, mas não deve ser vista como um objetivo final.
"A tese dos fundos tokenizados ainda se encontra em estágio inicial de maturação no Brasil. (...) Enxergamos a tokenização como uma tecnologia com potencial relevante, mas não como um fim em si mesma", esclarece à EXAME.
De acordo com Galdi, o interesse dos clientes institucionais ainda é pontual e está mais relacionado ao entendimento das possibilidades da tecnologia. "A adoção disseminada dependerá da consolidação de um ambiente regulatório claro e de uma infraestrutura robusta", explica.
BTG vê distância entre cenário no exterior e no Brasil
No BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), a avaliação é que o mercado brasileiro ainda está atrás do movimento observado no exterior quando o assunto é tokenização de cotas de fundos.
"No Brasil essa tese ainda está distante. Há várias iniciativas de tokenização, mas ainda não envolvendo cotas de fundo. É importante ressaltar que a tokenização das cotas não substitui o fundo em si. É apenas uma forma diferente de se representar o fundo", segundo o head de digital assets do BTG, André Portilho.
Na visão do executivo, o banco ainda não percebe uma demanda relevante de investidores institucionais por cotas tokenizadas, mas espera uma aceleração conforme o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) avancem na criação de regras para o setor.
Regulação é desafio para fundos tokenizados no país
Para avançar na agenda de expansão da tokenização no Brasil, a CVM criou o Grupo de Trabalho de Tokenização, responsável por estudar diretrizes para registro, custódia, negociação e liquidação de valores mobiliários em redes conhecidas como Distributed Ledger Technology (DLT).
O grupo deverá encaminhar à autarquia uma proposta de regime regulatório experimental para ativos tokenizados. "A tokenização se dará a partir da necessidade do mercado. A CVM está se preparando para atuar na regulação e na supervisão desse mercado", de acordo com o presidente da instituição, Otto Lobo.
"Estabelecemos diálogo com outros reguladores, com empresas de tecnologia, com o próprio mercado. Já estamos prospectando o que há de mais avançado no mundo sobre o assunto, e teremos muito mais tecnologia, muito mais inteligência artificial. (...) Há uma evolução em curso", acrescenta Lobo.
No Brasil, essa mudança deve acontecer de forma gradual. A tecnologia já está disponível, mas a adoção em larga escala dependerá da construção de uma infraestrutura regulatória capaz de conectar bancos, gestoras, investidores e plataformas digitais, conforme os especialistas ouvidos pela reportagem.
