Galípolo acende alerta sobre crédito e prepara novas medidas do BC para conter endividamento das famílias
Presidente do BC vê um descompasso na inadimplência e prepara novas medidas para atacar o problema

O mercado de trabalho melhorou, a renda das famílias avançou e o crédito continua crescendo. Ainda assim, o endividamento não dá sinais de trégua — e, em algumas modalidades, aumenta justamente onde os juros são mais altos e o risco para o consumidor é maior.
É esse descompasso que começou a preocupar o Banco Central. Na abertura da Febraban Tech 2026, nesta segunda-feira (24), em São Paulo, o presidente Gabriel Galípolo afirmou que o BC prepara novas medidas para lidar com o avanço do crédito de maior risco.
“Não dá para ficar contente porque o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu”, disse Galípolo.
Galípolo resume o novo desafio que se coloca para a autoridade monetária
Depois de anos de avanço da inclusão financeira e de ampliação do acesso ao crédito, o foco agora passa a ser também a qualidade desse acesso — ou seja, se o consumidor está contratando a modalidade adequada ao seu perfil e à sua capacidade de pagamento.
E parte dessa história começa justamente com uma das maiores transformações do sistema financeiro brasileiro nos últimos anos: o Pix.
Mais do que uma infraestrutura de pagamentos, o Pix se tornou uma porta de entrada para o sistema financeiro. Ao facilitar pagamentos e aproximar milhões de brasileiros dos bancos, a ferramenta também ajudou a ampliar o acesso a outros produtos financeiros — entre eles o cartão de crédito.
É uma espécie de efeito colateral da inclusão: mais pessoas passaram a ter acesso ao sistema financeiro, mas também ficaram mais expostas a formas de crédito que podem se tornar caras quando utilizadas de maneira inadequada.
Por isso, a próxima etapa, na visão de Galípolo, não é simplesmente colocar mais brasileiros dentro do sistema. É fazer com que eles saibam navegar por ele.
“A inclusão ocorreu e foi importante. Agora as pessoas precisam conhecer melhor o suitability e a linha adequada para usar esses serviços de maneira consciente”, afirmou.
O paradoxo que entrou no radar do Banco Central
Galípolo chamou atenção para uma combinação que, à primeira vista, deveria jogar a favor das famílias: renda em alta e desemprego baixo. Ainda assim, o endividamento permanece pressionado.
“Por que, em um cenário de renda crescente e desemprego caindo, essa renda não foi revertida para reduzir o endividamento?”, questionou.
A resposta passa, na avaliação do BC, pelo tipo de crédito que ganhou espaço nos últimos anos.
O problema não é necessariamente tomar dinheiro emprestado para comprar um imóvel, por exemplo. Nesse caso, a dívida vem acompanhada da formação de um patrimônio.
O alerta está no crédito usado para financiar despesas recorrentes ou um consumo que desaparece rapidamente — sobretudo quando a operação tem juros altos e não conta com garantias.
“O problema é estar endividado com alguma coisa que não está constituindo um ativo, é um consumo efêmero e que vai virar um problema, especialmente com uma taxa de juros mais elevada ou com uma linha de crédito que não é adequada”, afirmou.
É aí que entram algumas das modalidades que mais preocupam a autoridade monetária.
Cartão de crédito e consignado viram pontos de atenção
O cartão de crédito é um dos principais exemplos. Dos 96 milhões de usuários da modalidade no país, 52,8 milhões carregam dívidas no rotativo ou em parcelamentos com juros, segundo Galípolo.
O comprometimento da renda com cartão chegou a 54%, enquanto os juros mensais do rotativo alcançam 15,1%.
O quadro também chama atenção no consignado privado. Segundo os dados apresentados pelo presidente do BC, a carteira saltou de R$ 41 bilhões em março de 2025 para R$ 102 bilhões em maio de 2026, uma alta de 145%.
No mesmo intervalo, a inadimplência passou de 5% para 6,7%, enquanto a taxa média de juros subiu de 40,9% para 57%.
O crédito pessoal sem garantia é outro foco de preocupação. O empréstimo pessoal vinha crescendo cerca de 20% ao ano até dezembro de 2024 e chegou a uma carteira de aproximadamente R$ 400 bilhões em maio de 2026. Desse total, cerca de R$ 275 bilhões não tinham garantia.
E a diferença de preço é brutal. Segundo Galípolo, a taxa passa de cerca de 27% nas operações com garantia para mais de 140% nas que não contam com colateral.
Para o presidente do BC, os números mostram que o risco associado à operação pode ser mais importante para o custo do crédito do que a própria taxa básica de juros.
