Ganhar até R$ 12 mil por mês vistoriando carros? Essa é a aposta desta nova startup
Criada a partir de uma demanda da rede de franquias Vaapty, startup Tenvê recebeu R$ 600 mil de investimento e quer chegar a 500 licenciados em 2027

O mercado de carros usados cresce, mas a idade da frota brasileira aumenta o risco de quem compra um veículo sem conhecer seu histórico. É nesse intervalo entre o carro anunciado e o carro que realmente chega às mãos do consumidor que empresas de vistoria tentam ganhar espaço.
A Vaapty, rede de franquiasespecializada na intermediação de veículos, criou a Tenvê, startup de vistorias cautelares, inspeções que buscam identificar o histórico e as condições de um veículo. A empresa recebeu R$ 600 mil de investimento e começou a operar em setembro com 15 licenciados.
A lógica é aproveitar uma dor que a própria Vaapty já enfrenta: seus franqueados dependem de empresas externas para realizar laudos e nem sempre encontram o mesmo padrão ou uma empresa disponível na região.
A startupquer encerrar 2026 com 50 licenciados e chegar a pelo menos 500 em 2027. Para isso, terá de resolver um problema menos tecnológico: ensinar pessoas com perfis muito diferentes a executar a vistoria e transformar o serviço em uma fonte de renda. A meta de longo prazo é ainda maior. Os sócios falam em cerca de 5 mil licenciados em 2028.
De onde veio a ideia da Tenvê
A origem da Tenvê está na operação da própria Vaapty. A rede intermedeia cerca de 4 mil veículos por mês e, segundo os sócios, consome laudos cautelares de diferentes empresas. A decisão foi transformar essa demanda em uma operação própria, mas com uma marca separada.
A tese ganhou força com a idade da frota brasileira. Segundo os executivos, a idade média dos veículos no país está em torno de 11 anos. Quanto mais antigo o carro, maior a quantidade de proprietários, reparos, trocas de peças e possíveis ocorrências que precisam ser rastreadas antes de uma negociação.
A Tenvê também quer atacar outra característica do setor: o acesso à profissão de perito de veículos. O modelo não exige que o interessado abra uma loja tradicional de vistoria. Ele recebe treinamento pelo aplicativo, executa a inspeção e envia as informações para uma equipe responsável pela validação.
“A Tenvê é um modelo asset light, de baixo custo para o licenciado e direcionado para o perito. É como uma nanofranquia, em que a própria pessoa é o franqueado e pode trabalhar com o produto da Tenvê”, diz Lucas Silveira, CEO da Tenvê.
O modelo da Tenvê é baseado em licenciamento e tenta reduzir o investimento inicial. O interessado paga entre R$ 5 mil e R$ 9 mil, valor que pode ser parcelado em até 12 vezes, segundo os executivos. O licenciado recebe um kit com celular, uniforme, crachá e materiais para realizar as perícias.
A proposta é transformar a vistoria em uma atividade que possa ser combinada com outra fonte de renda. Na entrevista, os sócios citaram como potenciais licenciados profissionais que trabalham com trabalhos flexíveis ou com jornada reduzida.
A empresa estima que um perito consiga fazer de seis a dez laudos por dia. Na conta apresentada pelos sócios, seis laudos diários poderiam resultar em uma renda mensal de R$ 10 mil a R$ 12 mil. O valor é uma projeção da própria empresa e dependerá do volume de serviços, dos preços praticados e dos custos de cada operador.
O público potencial também inclui vistoriadores que perderam espaço com a digitalização das inspeções de seguros. Segundo os executivos, parte dessas pessoas recebe valores baixos por vistorias simples e pode migrar para um serviço com maior remuneração.
IA ajuda, mas não assina o laudo
A tecnologiaé parte central do modelo. O licenciado faz a coleta de fotos e informações pelo celular. Depois, os dados seguem para uma mesa de validação, onde profissionais analisam o material.
A inteligência artificial entra como apoio. A ferramenta pode apontar, por exemplo, que determinada imagem sugere um amassado ou que os pneus aparentam estar desgastados. O profissional então confere a informação antes de validar o laudo.
A decisão de manter uma pessoa responsável pela análise está ligada à responsabilidade sobre o documento. "A nossa ideia com o uso da IA não é tirar a pessoa física da mesa, mas acelerar o processo", diz Miguel Senegalha de Souza, CEO da Vaapty.
O objetivo, segundo ele, é aumentar a produtividade da equipe. Uma mesa que hoje analisaria cerca de dez vistorias poderia chegar a 100 com o apoio da ferramenta, em uma operação ainda em desenvolvimento.
Carros elétricos criam outro problema
A chegada dos veículos elétricos adiciona uma nova camada à vistoria. Segundo os empresários, o laudo tradicional não captura todas as informações relevantes para um carro elétrico. A empresa desenvolve uma modalidade específica para esses veículos e testa o modelo em Atibaia, no interior de São Paulo.
A preocupação principal está na bateria. Os executivos comparam a situação à avaliação de um celular: a capacidade e a vida útil da bateria podem afetar diretamente o valor do aparelho. No carro elétrico, a ideia é incorporar informações sobre ciclos de uso da bateria ao laudo.
A empresa já importa equipamentos para esse tipo de análise. O problema é o custo. Em vez de colocar uma máquina cara em cada unidade licenciada, a Tenvê pretende concentrar os equipamentos em pontos compartilhados nas grandes cidades. O licenciado levaria o veículo até esses locais quando precisasse realizar o procedimento.
O desafio é colocar 500 pessoas na rua
A Tenvê começou com 15 licenciados e diz já ter mais de 50 interessados. O objetivo é chegar a 50 até dezembro de 2026. Em janeiro de 2027, a operação pretende incorporar as cerca de 200 unidades da Vaapty como parte da estrutura inicial, levando a rede a aproximadamente 250 pontos. Para o fim de 2027, a meta é alcançar pelo menos 500 licenciados.
A expansão, porém, não será baseada apenas na procura espontânea. Até agora, a maior parte dos interessados chegou pelas redes sociais e pela divulgação da marca. Os sócios afirmam que ainda não fizeram uma campanha comercial estruturada para vender licenças.
Isso deve mudar em 2027. A empresa pretende investir em mídia paga e em microinfluenciadores regionais, pessoas com audiência concentrada em determinadas cidades ou regiões. A estratégia mira principalmente consumidores interessados em alternativas de renda.
A expansão também deve ocorrer de forma regionalizada. Em vez de abrir unidades aleatoriamente pelo país, a companhia quer formar núcleos em grandes centros e depois avançar para cidades próximas.
“Vamos crescer de maneira espiral, testando diferentes regiões do país e, depois, concentrando a expansão em mercados estratégicos. Assim, podemos avançar gradualmente e investir conforme os recursos entram”, diz Souza.
O risco está no treinamento
O crescimento traz um problema que a tecnologia não resolve sozinha. Os primeiros 15 operadores já mostraram diferenças na maneira como cada pessoa usa o aplicativo e executa a vistoria.
“O grande desafio é o treinamento: manter todos alinhados sobre como executar o serviço e, principalmente, como vender o laudo. Queremos oferecer um acompanhamento fluido, com cursos e ferramentas de inteligência artificial, sem precisar dedicar uma pessoa exclusivamente a cada vistoriador”, diz Silveira.
O desafio aumenta porque a proposta é justamente ampliar o acesso à atividade. Um licenciado pode ter experiência com carros ou estar começando do zero. Pode ter facilidade com tecnologia ou dificuldade para acompanhar um treinamento digital.
A empresa pretende usar cursos, materiais físicos e ferramentas de inteligência artificial para reduzir a necessidade de acompanhamento individual. A ideia é que o cadastro, o treinamento e o recebimento do kit possam ocorrer de forma quase automática.
O modelo precisa evitar conflito com a própria Vaapty
A relação com a Vaapty cria outra questão estratégica. A Tenvê precisa crescer fora da rede sem transformar os licenciados em concorrentes da própria operação.
Por isso, a empresa estabeleceu uma separação entre as duas marcas. Os pontos ligados à Vaapty atenderão veículos originados dos negócios da própria rede, enquanto os licenciados da Tenvê poderão atuar no mercado externo.
A lógica também serve para aumentar a confiança em transações entre diferentes cidades. Um comprador de Londrina, por exemplo, poderia adquirir um carro anunciado em São Paulo e consultar um laudo feito pela mesma marca presente em sua própria região.
Existe ainda um problema que os sócios consideram recorrente no mercado: a adulteração de laudos. A padronização seria uma tentativa de reduzir esse risco e dar ao consumidor uma referência para avaliar a procedência do documento.
“Nosso objetivo é que, ao ver um laudo da Tenvê, o cliente pense: ‘Esse aqui tem verdade, confiança e credibilidade’”, afirma Silveira.
