Ganho de até 50% em dólares: as ações que florescem na primavera da bolsa brasileira
Morgan Stanley diz que o Brasil lidera entre os mercados da América Latina, projeta até 50% de potencial nas ações domésticas, mas avisa: a fase fácil da alta está ficando para trás

O mercado brasileiro está mudando de estação e quem escolher bem o que carregar na mala vai se dar melhor. Segundo o Morgan Stanley, o Brasil lidera os retornos das ações na América Latina e ainda há espaço para mais. Só que, para isso, existe uma condição: o potencial de alta de 50% só vale no cenário otimista do banco, que depende de reformas fiscais e de juros mais baixos.
Em um clima mais ameno, que contempla o cenário-base do Morgan Stanley, as ações domésticas — aquelas que dependem da economia brasileira e não de exportação — sobem só cerca de 6% em dólares.
Os setores que mais avançam são o financeiro (12%) e saúde (11%). Já consumo discricionário (-6%) e tecnologia (-10%) ficam no vermelho.
O banco prefere serviços financeiros e geração de energia nessa fase porque são papéis com risco limitado de austeridade fiscal e desaceleração econômica. Os nomes citados são XP (XPBR31), Nubank (ROXO34), Axia (AXIA3) e B3 (B3SA3).
Na primavera, que contempla o cenário otimista do banco, as domésticas chegam a cerca de 50% de alta em dólares. Utilities (energia e saneamento) lideram, com cerca de 60%, seguidas pelo financeiro, com cerca de 55%. Nubank (+99%) e Axia Energia (+92%) são as apostas de alta convicção.
O motivo é que essas empresas dependem da política interna: se o governo arrumar as contas, os juros caem e o investimento volta, são elas que mais sentem.
As exportadoras de commodities ficaram de fora da conta, porque o cenário otimista delas normalmente não depende das políticas domésticas.
O verão na bolsa: todo mundo no rali
Para entender onde estamos, vale olhar para trás. Segundo o Morgan Stanley, o desempenho vem da compressão do prêmio de risco, que acaba "elevando todos os barcos".
Em português claro: quando o investidor passa a exigir menos retorno extra para ficar exposto ao Brasil, os preços sobem de forma generalizada.
Os analistas dizem que o movimento ganhou força depois do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais.
Um sinal é que cerca de 75% das ações da B3 negociam acima da média móvel de 200 dias, uma linha que resume o preço médio dos últimos 200 pregões. Quando a maioria dos papéis está acima dela, a alta é ampla e não concentrada em poucas ações.
Esse indicador andou no sentido oposto no MSCI Emerging Markets e no S&P 500 nos últimos meses. Para o banco, o Brasil está no estágio de alargamento da alta, segundo o banco.
O Morgan Stanley projeta mais cerca de 10% de alta do Ibovespa até o fim do ano e um retorno esperado de cerca de 20% até meados de 2027, no cenário otimista.
O outono: quando a bolsa passa a escolher
O próprio banco avisa que a fase fácil pode estar chegando ao fim.
À medida que o trade de compressão do prêmio de risco se acalma, os analistas esperam maior dispersão: algumas ações seguem subindo, outras ficam para trás. É a "fase mais difícil de transição" rumo ao que chamam de grande reequilíbrio do Brasil.
Para o investidor, o recado é que comprar qualquer coisa não vale e a seleção de papéis passa a pesar mais.
- Leia também: Crescimento à vista? As oportunidades que podem surgir na bolsa e na renda fixa após as eleições
A primavera na bolsa: o que precisa acontecer
O Morgan Stanley chama o cenário otimista de primavera, e a narrativa se apoia em três pilares: queda dos juros básicos; mudança para políticas mais favoráveis ao investimento em vários países da região; e pivô dos EUA em política e governança — que acelera a chamada multipolaridade e abre oportunidades para as economias latino-americanas.
No Brasil, a primavera depende de o governo implementar reformas fiscais: racionalização de gastos, mudança na regra de reajuste do salário mínimo e avanço da reforma administrativa.
A conta em dólares
Os 50% de alta das ações brasileiras são calculados em dólares, e a taxa de câmbio entra na conta. No cenário otimista, o banco usa um dólar a R$ 4,50. No cenário-base, usa o consenso do Bloomberg para o câmbio no terceiro trimestre de 2027. Por isso, alguns papéis têm alta maior em dólares do que em reais.
A Light (LIGT3), por exemplo, tem potencial de 138% em reais e 165% em dólares. O Banco do Brasil (BBAS3) aparece com 121% em dólares. Nubank e Axia, citados anteriormente, completam o grupo de maior potencial entre as domésticas.
Quem investe em reais e ganha em reais deve ficar atento a essa diferença na hora de comparar números.
O investidor local pode entrar na festa
O banco vê ainda um gatilho extra: o investidor brasileiro.
Os fundos de ações domésticos representam apenas 4% do patrimônio total dos fundos, e os estrangeiros foram os principais compradores marginais nos últimos anos.
Um eventual retorno do investidor local seria um catalisador adicional para as ações voltadas ao mercado interno, já que o posicionamento está historicamente baixo.
Na carteira modelo do Morgan Stanley para o Brasil, as maiores posições acima do Ibovespa estão em Axia (3,5 pontos percentuais), B3, XP, BTG Pactual e Embraer (3 pontos cada). Petrobras (18,7%), Vale (10,9%) e Itaú Unibanco (10,6%) seguem como os maiores pesos.
