Gás, guerra e inverno: por que a Europa está de olho no Chipre
Campo de Cronos tem mais de 3 trilhões de pés cúbicos de reservas e deve enviar produção à Europa via Egito

A Europa está ampliando a busca por novas fontes de gás natural em meio à pressão sobre os estoques e aos impactos da guerra no Oriente Médio sobre o mercado global de energia. Nesse cenário, o Chipre prevê começar a fornecer gás ao mercado europeu a partir de março de 2028, com a produção do campo de Cronos, no Mediterrâneo Oriental.
A previsão foi apresentada pelo ministro de Energia do Chipre, Michael Damianos, em entrevista à Associated Press (AP) neste domingo, 9. Segundo o ministro, o projeto desenvolvido por TotalEnergies e Eni pode representar a entrada do país como fornecedor de gás para a Europa.
O movimento ocorre em um momento de maior preocupação com a segurança energética europeia. Dados do Inventário Agregado de Armazenamento de Gás, da plataforma de transparência da Gas Infrastructure Europe (GIE), mostram que os estoques de gás do continente estavam com menos de 54% de sua capacidade, contra 64% no mesmo período do ano anterior.
Por que o gás está sob pressão na Europa?
A situação europeia está ligada principalmente à combinação entre a guerra na Ucrânia, a instabilidade no Oriente Médio e as dificuldades para recompor os estoques de gás antes do inverno.
O conflito entre Estados Unidos e Irã afetou o transporte de gás natural liquefeito (GNL) pelo Golfo. Desde o início do conflito, em fevereiro de 2026, apenas 26 cargas de GNL haviam conseguido atravessar o Golfo em direção ao leste, segundo dados da consultoria de inteligência de commodities ICIS.
Em condições normais, o volume seria de aproximadamente 90 a 100 cargas por mês.
A redução do fluxo também afetou as perspectivas para a oferta global de GNL. Segundo o ICIS, a estimativa para a oferta mundial em 2026 foi revisada de 441 milhões de toneladas para 431 milhões de toneladas.
O problema ganha importância porque o verão europeu é justamente o período em que os países precisam recompor os estoques antes do inverno. Com menos gás disponível e maior competição por cargas de GNL, o custo para preencher os reservatórios aumenta.
A consultoria estimava um custo de cerca de € 54 por megawatt-hora (MWh) para a Europa recompor seus estoques no outono. Em um cenário de início de inverno mais frio, o preço poderia chegar a € 60 por MWh.
Em julho, o preço do gás natural de referência na Europa, o contrato holandês, chegou a superar € 60 por MWh, segundo a ICE Endex. Mais tarde, recuou para aproximadamente € 57 por MWh.
Como a guerra no Oriente Médio afeta o gás europeu?
O conflito também ameaça uma das principais rotas utilizadas pelo mercado internacional de energia: o Estreito de Ormuz.
Cerca de 20% do petróleo e do gás comercializados no mundo passavam pelo estreito antes do início do conflito com o Irã.
A escalada militar entre Estados Unidos e Irã aumentou o risco de interrupções no transporte marítimo e contribuiu para a volatilidade dos preços de energia. O petróleo Brent chegou a superarUS$ 90 por barril, antes de recuar após o Irã afirmar que negociações diplomáticas com os Estados Unidos continuavam por meio de intermediários, segundo a reportagem do jornal britânico.
No mercado de gás, o impacto ocorre principalmente porque a instabilidade dificulta a circulação de cargas e afeta a oferta disponível para países que dependem do GNL importado.
Chipre quer aproveitar demanda europeia por gás
É nesse contexto que o Chipre pretende começar a fornecer gás à Europa.
Segundo a AP, o campo Cronos, localizado na costa sul do país, possui mais de 3 trilhões de pés cúbicos (tcf) de gás. O acordo prevê que todo esse volume seja destinado ao mercado europeu, embora exista uma cláusula que permita utilizar cerca de 20% do gás para atender parte da demanda doméstica do Egito.
O desenvolvimento do campo foi aprovado pela TotalEnergies, da França, e pela Eni, da Itália, que decidiram avançar com o projeto em julho de 2026, segundo informações do ministro de Energia cipriota à AP.
A produção deve ser conectada à infraestrutura já existente no Egito. O plano prevê a construção de um gasoduto de aproximadamente 105 quilômetros, ligando o campo de Cronos às instalações associadas ao campo de Zohr.
De acordo com o cronograma informado pelo consórcio à AP, as obras devem começar ainda em 2026 e levar até 18 meses.
Depois de chegar ao Egito, o gás será processado na instalação de Damietta, na costa norte do país, onde será transformado em GNL, Gás Natural Liquefeito, e transportado por navios para a Europa.
Quanto o projeto de gás do Chipre vai movimentar?
Apesar do tamanho da reserva, o próprio governo do Chipre afirma que o principal objetivo do projeto não é gerar grandes receitas para o país.
Em entrevista à AP, Damianos classificou a reserva de Cronos como pequena e afirmou que a importância do projeto está no início da produção de gás pelo país.
A opção de levar o gás para o Egito antes de exportá-lo para a Europa também foi escolhida por razões econômicas. A construção da conexão com a infraestrutura egípcia deve custar aproximadamente US$ 2 bilhões, cerca da metade do valor estimado para desenvolver outras alternativas de produção dentro das águas cipriotas.
A estratégia permite utilizar uma estrutura de processamento já existente em vez de construir uma nova instalação de liquefação em Chipre.
Chipre tem outros campos de gás em desenvolvimento
Cronos é um dos seis depósitos de gás natural descobertos até agora dentro da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) do Chipre, segundo a AP.
Outros campos podem ampliar a participação do país no mercado europeu nos próximos anos.
Os campos Glaucus e Pegasus, por exemplo, possuem juntos uma estimativa de 6,9 tcf de gás. A exploração é conduzida pela ExxonMobil e pela QatarEnergy, que esperam iniciar a produção em 2033, de acordo com informações fornecidas pelo ministro cipriota.
Outro projeto é o campo Aphrodite, descoberto há cerca de 15 anos. A reserva é estimada em 5,6 tcf, e uma decisão final sobre seu desenvolvimento é esperada para o verão de 2027, segundo Damianos.
O campo é operado por um consórcio liderado pela Chevron e também deve utilizar infraestrutura no Egito.
Europa também busca alternativas para a eletricidade
A estratégia energética do Chipre não se limita ao gás. O país também participa do Great Seas Interconnector, projeto de cabo submarino que pretende conectar a rede elétrica europeia à de Chipre e, posteriormente, à de Israel.
A iniciativa é apresentada pelo governo cipriota como uma forma de reduzir o isolamento energético de Chipre e Israel e também como parte de uma rota mais ampla de energia e comércio entre a Europa, o Golfo e a Índia.
O projeto enfrenta, porém, dúvidas sobre seus custos. Uma estimativa anterior apontava investimento de US$ 2,2 bilhões, mas um relatório do Banco Europeu de Investimento deverá esclarecer o custo atualizado nos próximos meses.
Segundo a AP, consumidores de energia do Chipre poderiam ser responsáveis por até 63% dos custos de construção do cabo, o que poderia pressionar as tarifas de eletricidade no país. A União Europeia já destinou US$ 760 milhões ao projeto, e o governo busca novos investimentos privados para reduzir o impacto sobre os consumidores.
