‘Gasolina sabor etanol’: mistura se aproxima de patamar perigoso, alerta Pecege
O aumento da mistura de etanol na gasolina gera demanda para o biocombustível, mas se aproxima de um patamar perigoso para a imagem do setor junto ao consumidor. O alerta é de João Rosa, sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos, que defende mais esforços para convencer o motorista a abastecer com etanol hidratado. “Nós estamos […]

O aumento da mistura de etanol na gasolina gera demanda para o biocombustível, mas se aproxima de um patamar perigoso para a imagem do setor junto ao consumidor. O alerta é de João Rosa, sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos, que defende mais esforços para convencer o motorista a abastecer com etanol hidratado.
“Nós estamos muito perto de uma participação de mistura que começa a ser perigosa junto ao consumidor”, afirmou durante o painel “O dilema do etanol no Brasil: sobreoferta ou sobredemanda?”, da 9ª Conferência Nova Cana.
Ao mencionar a mistura de 32% e a discussão sobre uma eventual elevação para 35%, Rosa reconheceu que a medida beneficia o setor ao ampliar o consumo. Sua preocupação, porém, está na reação de quem abastece — e na possibilidade de o avanço provocar resistência ao próprio biocombustível.
Para ilustrar essa percepção, o executivo usou a expressão “gasolina sabor etanol”. Na avaliação dele, o aumento da mistura se aproxima de um limite em que começa a “arranhar a percepção junto ao consumidor”.
O risco apontado por Rosa está relacionado à aceitação do produto e à imagem do setor, e não a uma avaliação técnica sobre o funcionamento dos motores.
Mais mistura ou mais consumo na bomba?
Para o sócio-diretor do Pecege, o setor precisa avaliar se elevar a parcela obrigatória de etanol na gasolina é o melhor caminho para absorver a oferta crescente. Sua proposta é investir mais em medidas que levem o motorista a escolher o biocombustível na hora de abastecer.
Rosa defendeu maior atenção ao consumo de etanol hidratado, vendido diretamente nas bombas. A avaliação é que existe um mercado a conquistar entre motoristas que possuem veículos flex, mas continuam escolhendo gasolina por hábito.
“Tem muito espaço ainda para a gente (setor) ocupar sem ser necessariamente com o aumento de mistura”, disse.
Durante o painel, o executivo relatou que um amigo passou a abastecer com etanol depois de ouvi-lo falar repetidamente sobre o combustível. O exemplo, segundo ele, mostra como a comunicação pode ajudar a transformar a possibilidade de escolha oferecida pelo carro flex em consumo efetivo.
O preço na bomba também importa
A conquista do motorista, porém, passa também pelo preço. Filipi Cardoso, especialista de agro do Bradesco — Pesquisa Econômica, afirmou no painel que a decisão de abastecimento não depende apenas da paridade entre etanol e gasolina.
Segundo ele, pesquisas do banco identificam patamares de preço que funcionam como “travas sociais”, capazes de gerar resistência mesmo quando a relação entre os combustíveis favorece determinada escolha.
“Um etanol acima de R$ 4 já gera um certo bloqueio, independente da paridade, assim como uma gasolina acima de R$ 7”, afirmou.
Na avaliação de Cardoso, boa parte dos consumidores observa o valor anunciado na bomba, sem necessariamente calcular a relação percentual entre os dois produtos.
Alexandre Zebulun, diretor comercial da Evolua Etanol, acrescentou outro desafio: o incentivo de quem comercializa o combustível.
Segundo ele, as margens da gasolina na distribuição e no varejo são superiores às do etanol, o que reduz o interesse comercial em estimular a venda do biocombustível.
