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04/07/2026
6 min

Gavekal: SpaceX enriqueceu muita gente muito rápido - e isso também tem um lado ruim

Gavekal: SpaceX enriqueceu muita gente muito rápido - e isso também tem um lado ruim

O IPO da SpaceX transformou o quadro de funcionários da empresa em questão de dias. Segundo Louis Gave, sócio da Gavekal, até 4.400 funcionários da SpaceX tornaram-se milionários da noite para o dia, e cerca de 400 passaram a ter patrimônio superior a US$ 100 milhões.

Para o analista, essa criação de riqueza deve, sim, ser comemorada. Mas ele pondera que o episódio também representa um novo desafio para a companhia, já que o enriquecimento repentino levanta a dúvida sobre quantos desses novos milionários continuarão motivados a permanecer na empresa (boa comida no refeitório e um bom plano de saúde, escreve Gave, têm seus limites, especialmente para engenheiros que agora têm capital para financiar seus próprios projetos).

Uma capitalização de mercado maior que todo o universo cripto

Gave começa a coluna situando o tamanho do fenômeno. A capitalização de mercado da SpaceX recuou frente ao pico pós-IPO, de US$ 2,64 trilhões.

Mesmo assim, no fechamento da terça-feira mencionada pelo analista, a empresa valia US$ 2,25 trilhões, mais do que toda a indústria de criptomoedas, cuja capitalização soma hoje pouco menos de US$ 2,1 trilhões. Juntos, os dois ativos equivalem aproximadamente ao PIB do Japão, segundo os cálculos do analista.

O comentário de Gave chama atenção para um contraste: de um lado, um ativo que não gera fluxo de caixa e que, na verdade, consome caixa, mas promete a possibilidade de um dia vir a gerar fluxos de caixa; de outro, um ativo que certamente jamais produzirá qualquer fluxo de caixa, mas que oferece a promessa de consumir eletricidade.

Para o sócio da Gavekal, a ausência de fluxos de caixa, a devoção quase religiosa que esses ativos despertam em parte dos investidores (muitas vezes os mesmos investidores, ele observa) e a crença de que eles estão destinados a mudar o mundo são características comuns entre criptomoedas e inteligência artificial.

Sobre esse último ponto, Gave faz uma ressalva irônica: até "cerca de dez minutos atrás", escreve, também se acreditava que as criptomoedas revolucionariam toda a indústria financeira, convicção que hoje já diminuiu. Ainda assim, o analista pondera que existem diferenças importantes entre as duas classes de ativos.

A onda de novas ofertas de ações que se aproxima

A primeira diferença destacada pelo analista é a iminência de novas emissões de ações. Gave lembra que já tratou do tema em coluna anterior, batizada de "Síndrome do Estresse de Liquidez Pós-IPO".

A preocupação central, segundo ele, é que as aberturas de capital da SpaceX, da Anthropic e da OpenAI representarão, para muitos fundos de venture capital, a primeira oportunidade em anos de devolver capital relevante aos investidores.

O analista pondera que talvez não sejam apenas esses fundos de venture capital a se encontrar do lado vendedor do mercado assim que expirarem os períodos de restrição à venda das ações.

Os dois lados do enriquecimento súbito

Para Gave, o IPO da SpaceX (e as futuras aberturas de capital da OpenAI e da Anthropic) rompe paradigmas.

Empresas de tecnologia sempre recompensaram funcionários com ações e opções, mas nunca houve, escreve o analista, um IPO de US$ 2 trilhões, e por isso nunca se viu uma estrutura inteira de funcionários enriquecer tão depressa. Ele resume o fenômeno em uma lista de pontos negativos e positivos.

No lado negativo, Gave aponta três riscos. O primeiro é a dificuldade que SpaceX, Anthropic e OpenAI terão para manter motivados funcionários que ficaram muito ricos, já que os mais talentosos podem preferir sair para tocar projetos próprios.

O segundo é o que ele chama de triplo impacto caso os funcionários vendam suas ações: aumento da quantidade de papéis em circulação, perda de talentos e o surgimento de concorrentes formados por ex-funcionários.

O terceiro risco, mais amplo, é que a atração dos melhores engenheiros americanos e estrangeiros pelas startups de tecnologia dificulte a contratação de bons profissionais em outros setores, o que reduziria as perspectivas de reindustrialização dos Estados Unidos.

No lado positivo, o analista vê dois efeitos. Um ecossistema inteiro de novas startups pode surgir à medida que engenheiros recém-milionários deixam a SpaceX, a OpenAI ou a Anthropic para seguir projetos próprios. Além disso, o enriquecimento repentino tende a manter os melhores engenheiros do mundo migrando para os Estados Unidos, mesmo com os novos obstáculos à imigração, atrás do sonho de embarcar cedo na próxima SpaceX.

O caso Boeing como contraponto

Gave já havia explorado esse último ponto em outra coluna, "A Mensagem dos Recentes Eventos Corporativos", e volta a ele citando a Boeing como exemplo. A empresa forma metade de um duopólio global em um setor em expansão, é beneficiada por contratos governamentais e por gastos crescentes de defesa, e tem listas de espera de cinco anos ou mais para seus produtos.

Ainda assim, segundo o analista, a Boeing conseguiu o feito de praticamente não entregar valorização de suas ações na última década.

Para Gave, com demanda tão forte, bastava à Boeing entregar resultados, e a empresa fracassou nisso de forma espetacular.

Ele nota que a imprensa atribuiu rapidamente a culpa a uma administração mais preocupada em se enriquecer do que em cuidar das finanças da companhia ou da reputação dos Estados Unidos no setor aeroespacial, um dos que o país deveria dominar depois de ter perdido a liderança da indústria automobilística uma geração atrás.

Remuneração como vantagem competitiva da tecnologia

Felizmente, escreve Gave, a SpaceX surgiu para minimizar essas preocupações sobre a liderança americana no setor aeroespacial.

Ainda assim, o analista argumenta que, embora a administração da Boeing tenha muito pelo que responder, também é possível defender que as mudanças na remuneração dos profissionais passaram a favorecer a SpaceX e outras empresas de tecnologia em detrimento da Boeing e das grandes companhias industriais americanas, pelo menos quando comparadas às demais potências industriais.

Gave cita a França como exemplo: formandos de escolas de engenharia aceitam trabalhar na Airbus por uma fração do salário de um engenheiro americano. Segundo ele, o mesmo padrão se repete no Japão, na China e na Alemanha.

Já nos Estados Unidos, escreve Gave, um recém-formado em engenharia hoje provavelmente sonha em trabalhar no Google, na Microsoft ou na Meta, ou então no Goldman Sachs ou no Morgan Stanley, empregos que oferecem remuneração mais elevada, maior prestígio social e a perspectiva de opções de ações e acúmulo de riqueza. Com o IPO da SpaceX, escreve Gave, esse incentivo foi levado ao extremo.

O resultado, segundo o analista, é que a Airbus consegue contratar os melhores engenheiros da França e da Europa, enquanto a Boeing não tem a mesma sorte, já que os profissionais mais brilhantes dos Estados Unidos seguem migrando para o Vale do Silício, Seattle, Austin e outros polos tecnológicos, tendência que a oferta da SpaceX deve reforçar.

Na avaliação de Gave, nos últimos quinze anos o setor de tecnologia americano absorveu praticamente todo o oxigênio disponível, tanto em alocação de capital quanto em desempenho de mercado e atração de talentos, o que, para Gave, parece ser um obstáculo real às atuais e amplamente difundidas expectativas de reindustrialização dos Estados Unidos.

AutorDa Redação
FonteExame
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