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20/10/2026
5 min

Geleira em derretimento libera metais pesados e contamina água potável na Noruega

Em Longyearbyen, onde as temperaturas sobem até sete vezes mais rápido que a média global, moradores dependem de pontos de distribuição enquanto autoridades estudam alternativas de tratamento

Geleira em derretimento libera metais pesados e contamina água potável na Noruega

O avanço do aquecimento global no Ártico está comprometendo o acesso à água potável em Longyearbyen, uma cidade de 2,6 mil habitantes no arquipélago de Svalbard, na Noruega. Após a identificação de concentrações elevadas de metais pesados no abastecimento público, autoridades locais recomendaram que a população deixe de consumir água da torneira.

A contaminação está associada ao degelo do permafrost, camada de solo e rochas que permanece congelada durante todo o ano, com exceção de uma porção superficial que descongela no verão. Com o aumento das temperaturas, rochas antes protegidas pelo congelamento ficam expostas à água e ao oxigênio, favorecendo reações químicas capazes de liberar metais nos mananciais.

Localizada a cerca de 1.300 quilômetros do Polo Norte, Longyearbyen está em uma das regiões que mais aquecem no planeta. As temperaturas locais aumentam entre cinco e sete vezes mais rápido que a média mundial, enquanto, no outono, a elevação pode chegar a 4°C por década.

O principal reservatório da cidade é o Isdammen, um lago represado de aproximadamente 2,5 quilômetros de extensão. É nesse sistema que pesquisadores identificaram os efeitos da interação entre o descongelamento do solo e as características geológicas da região, historicamente marcada pela atividade de mineração.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, publicada nesta segunda-feira, 19, Marjolaine Verret, professora associada de geologia do Ártico no Centro Universitário de Svalbard e especialista em permafrost, explicou que a composição das rochas locais contribui para a deterioração da qualidade da água.

Segundo a pesquisadora, o problema envolve a presença de pirita, mineral conhecido como ouro dos tolos, encontrado nas formações rochosas da região. Quando entra em contato com água e oxigênio, a pirita sofre oxidação e produz acidez, o que facilita a liberação de metais presentes nas rochas.

"O ácido produzido pode liberar metais pesados dessas rochas para os cursos d'água. O problema que temos enfrentado aqui em Longyearbyen é o manganês, mas outros contaminantes também podem ser liberados", afirmou Verret ao The Guardian, em tradução livre.

Contaminação chegou a 25 vezes o nível recomendado

O primeiro alerta à população ocorreu em setembro de 2025, quando análises identificaram concentrações de manganês na água 25 vezes superiores ao valor de referência de 50 microgramas por litro, recomendado pelo Instituto Norueguês de Saúde Pública.

A exposição prolongada a níveis elevados desse metal pode provocar problemas neurológicos, principalmente em crianças e bebês.

Segundo o prefeito de Longyearbyen, Terje Aunevik, a qualidade da água da cidade já enfrentava dificuldades relacionadas à presença de sedimentos. No entanto, as concentrações de manganês aumentaram de maneira acentuada, levando à adoção de medidas emergenciais.

Entre as ações implementadas está a instalação de um reservatório central de água purificada, disponibilizada gratuitamente para que os moradores possam abastecer seus recipientes em um supermercado local. A filtragem é realizada pela cervejaria da cidade.

Embora as concentrações de manganês tenham diminuído desde o primeiro alerta, novas análises identificaram, no início de 2026, níveis de sulfato e níquel acima dos limites recomendados para água potável. Por isso, a orientação para não consumir água diretamente da torneira permanece em vigor.

Aunevik afirmou que a situação provocou insatisfação entre moradores, diante da necessidade de transportar água para o consumo diário. O prefeito também destacou que, mesmo com a redução dos níveis de manganês, as recomendações sanitárias precisam ser seguidas.

Cidade estuda dessalinização e novo sistema de abastecimento

A crise levou a administração municipal a investigar alternativas para garantir o fornecimento de água potável à população.

Entre as possibilidades avaliadas estão a instalação de um sistema de filtragem no reservatório Isdammen, combinada com uma unidade de dessalinização como estrutura de apoio, ou a adoção da dessalinização como principal fonte de abastecimento, mantendo a filtragem como alternativa.

A dessalinização é o processo de remoção de sais da água para torná-la adequada ao consumo.

Segundo Aunevik, as soluções podem exigir a construção de um sistema de abastecimento inteiramente novo. O prefeito afirmou que qualquer uma das alternativas teria custos elevados e enfrentaria obstáculos técnicos relacionados às condições extremas de Svalbard, onde a temperatura da água frequentemente fica abaixo de zero grau Celsius.

"Na Noruega, onde sempre consideramos natural poder beber água diretamente da torneira, é desafiador começar a pensar que precisamos transportar nossa própria água, como fazemos agora", declarou o prefeito ao The Guardian.

Ele também defendeu que outras pequenas comunidades comecem a planejar respostas para possíveis problemas semelhantes em seus mananciais.

Degelo pode ameaçar abastecimento de outras comunidades do Ártico

Para os pesquisadores, o caso de Longyearbyen pode indicar um risco mais amplo para o abastecimento de água doce em outras partes do Ártico.

A combinação de temperaturas crescentes, descongelamento do permafrost e presença de formações rochosas ricas em metais não é exclusiva de Svalbard.

Segundo Verret, condições geológicas semelhantes estão presentes em outras regiões árticas, incluindo áreas do norte do Canadá e do Alasca, nos Estados Unidos.

"Esses elementos [rochas ricas em pirita e metais pesados] e o degelo do permafrost estão presentes em outras partes do Ártico. Portanto, este pode ser um primeiro exemplo de como as mudanças climáticas podem afetar a água doce, por exemplo, no norte do Canadá e no Alasca", afirmou a pesquisadora.

O episódio amplia a dimensão dos impactos associados ao descongelamento do solo ártico. Além das transformações físicas provocadas pelo aumento das temperaturas, a exposição de minerais antes isolados pelo congelamento pode alterar a composição química de fontes de água utilizadas por comunidades locais.

Em Longyearbyen, enquanto as autoridades investigam a viabilidade de um novo sistema de abastecimento, os 2,6 mil habitantes continuam sujeitos às restrições de consumo de água da torneira.

AutorLetícia Ozório
FonteExame
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