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BússolaCMDT
01/09/2026
4 min

Geopolítica dos fertilizantes expõe vulnerabilidade do agronegócio

Tensões geopolíticas expõem a dependência brasileira de fertilizantes e reforçam o papel da tecnologia para elevar a eficiência no campo

Geopolítica dos fertilizantes expõe vulnerabilidade do agronegócio

Por Rafael Souza, CEO e co-founder da Symbiomics.

A nova escalada das tensões no Golfo Pérsico voltou a colocar o mundo diante de uma realidade que, embora conhecida, ainda é subestimada: a segurança alimentar global depende de cadeias de suprimento extremamente sensíveis a crises geopolíticas.

Muito além do petróleo, a região em questão ocupa posição estratégica no fornecimento de gás natural, amônia e fertilizantes, insumos indispensáveis para a produção agrícola em praticamente todos os continentes.

Organismos internacionais têm alertado que a combinação entre conflitos regionais, custos crescentes de energia, restrições logísticas e incertezas está ampliando a vulnerabilidade dos produtores agrícolas.

A OMC, por exemplo, acaba de divulgar um levantamento que mostra o impacto do conflito no Golfo Pérsico no comércio mundial de fertilizantes. O documento aponta que, no Brasil, esse cenário merece atenção especial: somos o país com maior participação nas importações de fertilizantes nitrogenados e o segundo maior nos fosfatados e potássicos.

A dependência de fertilizantes expõe o Brasil à geopolítica

O Brasil se consolidou como uma das agriculturas mais competitivas do planeta. Lideramos a produção e exportação de soja, milho, café, açúcar, carnes, algodão e diversas outras commodities que abastecem mercados em todos os continentes.

Essa posição, no entanto, convive com um paradoxo estratégico: somos uma potência agrícola cuja produtividade depende fortemente de insumos produzidos fora de nossas fronteiras.

Essa vulnerabilidade não é nova. Mas os acontecimentos recentes mostram que ela está longe de ser superada. Por isso, o tema deixou de ser apenas uma preocupação do agronegócio e passou a integrar o debate sobre segurança alimentar, soberania econômica nacional e resiliência das cadeias globais de abastecimento.

A guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022, revelou o quanto conflitos geopolíticos podem provocar rupturas abruptas no fornecimento de fertilizantes, elevando preços e pressionando os custos de produção agrícola em todo o mundo.

Agora, a instabilidade no Golfo Pérsico reforça que esse tipo de choque deixou de ser um evento excepcional e passou a integrar um ambiente internacional caracterizado por maior imprevisibilidade.

Não se trata apenas de uma questão comercial: quando fertilizantes ficam mais caros ou menos disponíveis, toda a cadeia de produção de alimentos sente os efeitos. O produtor rural revê estratégias de adubação, posterga investimentos ou reduz aplicações.

Mas nossa agricultura depende da reposição contínua de nutrientes. Nitrogênio, fósforo, potássio e micronutrientes sustentam os elevados níveis de produtividade que permitiram ao país se transformar em uma potência agrícola.

Ao mesmo tempo, continuamos altamente dependentes das importações para atender a essa demanda. O que nos traz uma questão estratégica: quanto maior a concentração da oferta global em poucos países e quanto maior a exposição às oscilações geopolíticas, maior será também a vulnerabilidade da produção brasileira.

Tecnologia entra na estratégia para reduzir a vulnerabilidade

A resposta para esse desafio foca na ampliação da produção nacional de fertilizantes e na diversificação de fornecedores internacionais. Mas o cenário sugere que elas, sozinhas, talvez não sejam suficientes. Precisamos incorporar uma terceira dimensão ao debate: a eficiência pela tecnologia.

Se a oferta global tende a permanecer sujeita a choques cada vez mais recorrentes entre países, reduzir a quantidade de nutrientes necessária para produzir mais alimentos passa a ser tão importante quanto ampliar a capacidade de produção de fertilizantes.

Essa mudança de perspectiva abre espaço para uma nova geração de tecnologias desenvolvidas a partir da microrganismos do solo.

Microbioma agrícola pode ampliar a eficiência dos nutrientes

Nos últimos anos, o avanço das pesquisas sobre microbioma agrícola vem demonstrando que comunidades de microrganismos podem desempenhar papel fundamental na disponibilidade, absorção e eficiência do uso de nutrientes pelas plantas.

Em vez de substituir os fertilizantes minerais - que continuarão essenciais para a agricultura -, essas tecnologias buscam potencializar sua utilização, reduzindo perdas e aumentando o retorno agronômico de cada unidade aplicada.

O Brasil construiu sua liderança agrícola apoiado em pesquisa, inovação e adaptação às condições locais. Foi assim com o melhoramento genético, com o sistema de plantio direto, com a agricultura tropical e com inúmeras tecnologias que revolucionaram a produção nacional nas últimas décadas.

O conhecimento sobre microbioma, biologia do solo e interação entre plantas e microrganismos vem desempenhando papel semelhante na construção de uma agricultura mais resiliente diante das transformações mundiais.

Ciência e tecnologia como pilares da soberania agrícola

O Brasil dificilmente deixará de importar fertilizantes no curto prazo. Essa não parece ser uma meta realista. O verdadeiro desafio é reduzir nossa vulnerabilidade estrutural.

E vejo que nossa soberania agrícola passa pela ciência e tecnologia capazes de transformar conhecimento em produtividade e eficiência no campo.

A crise no Golfo Pérsico, assim como a guerra no Leste Europeu, demonstra que a segurança alimentar mundial dependerá cada vez menos da ausência de conflitos e cada vez mais da capacidade dos países de responder a eles.

AutorBússola
FonteExame
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