Geopolítica exige que América Latina coopere em minerais críticos, dizem especialistas
Enfrentando cenário incerto, analistas acreditam que o melhor caminho para a América Latina é cooperar entre si

A nova geopolítica, marcada por conflitos bélicos, pela polarização entre China e Estados Unidos e pela disputa pela independência no que diz respeito aos minerais críticos, exige da América Latina “uma nova cultura de cooperação” para que ela tenha voz própria na mesa de negociações global.
Esse cenário foi analisado no IV Fórum Latino-Americano de Economia Verde (FLEV), realizado pela Agência EFE na cidade de São Paulo, com a participação de especialistas internacionais em meio ambiente, bioeconomia e transição energética.
A ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira afirmou que a agenda verde precisa abandonar seu conceito tradicional e abranger outros setores, como a indústria de defesa e a inovação tecnológica, em um mundo que enfrenta crises simultâneas, “todas disruptivas”. Ela mencionou, assim, a guerra no Oriente Médio, os problemas no comércio internacional, as tensões ideológicas, o avanço do crime organizado em territórios como a Amazônia e a crise do multilateralismo.
"Hoje vemos a quebra de todas as regras internacionais", afirmou a ex-ministra no painel intitulado "A nova geopolítica energética e o papel da América Latina na corrida pela descarbonização".
Nesse contexto, Teixeira defendeu a "construção de uma nova cultura de cooperação regional, com resiliência climática" para que os países da América Latina tenham "acesso a tecnologias" e "segurança energética".
Por sua vez, Patricia Ellen, cofundadora da AYA Earth Partners, destacou que o Sul Global compartilha problemas semelhantes e que, se se unir, poderá enfrentar de forma mais ágil os desafios climáticos, produtivos e geopolíticos atuais.
“Se não houver uma colaboração entre os blocos regionais, chegaremos à mesa de negociações em uma posição muito fraca”, avaliou.
Os especialistas destacaram que o futuro passa pelos recursos naturais e, mais especificamente, pelos minerais críticos, indispensáveis na era digital.
“A agenda climática não é mais apenas ambiental, mas também de desenvolvimento e ‘soft power’, e a Amazônia (onde se estima que existam enormes reservas de minerais críticos) vai garantir o futuro do Brasil. Os recursos minerais são a base para vivermos em um mundo cada vez mais dependente da tecnologia para alcançar o bem-estar. Hoje, ninguém abre mão de um celular”, afirmou Teixeira.
O físico Shigueo Watanabe Jr, colaborador da ONG Climainfo, defendeu que o Brasil e o restante da América Latina assumam “partes das cadeias produtivas” dos minerais críticos. Além disso, criticou a busca contínua por novos campos de petróleo, em alusão à recente descoberta de hidrocarbonetos perto da foz do rio Amazonas, que o Brasil pretende explorar a médio prazo.
“Minha empresa vai durar mais tempo se eu respeitar o que está ao meu redor”, afirmou.
O IV Fórum Latino-Americano de Economia Verde foi realizado no dia 3 de setembro e também contou com painéis sobre temas como resiliência urbana, turismo, agro e bioeconomia, com a participação de referências internacionais dos setores público e privado, representantes de organismos multilaterais, acadêmicos e membros da sociedade civil.
O evento contou com o patrocínio da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e do WWF-Brasil, e com o apoio da AYA Earth Partners, do Imaflora e do Observatório do Clima. EFE
