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NegóciosMPOL
27/07/2026
6 min

Gerar código com IA não basta, diz este CEO — e ele aposta R$ 30 milhões nessa tese no Brasil

Gerar código com IA não basta, diz este CEO — e ele aposta R$ 30 milhões nessa tese no Brasil

A Deyel levou um ano e meio para preparar sua entrada no Brasil.

Em seis meses de operação, o país já passou a responder por 13% da receita global da empresa e por 30% das licenças comercializadas pela companhia no mundo.

A plataforma de desenvolvimento low code, criada pela empresa de tecnologia Optaris, encerrou 2025 com faturamento de R$ 220 milhões na América Latina e agora quer transformar o Brasil em seu principal motor de crescimento. Para isso, prevê investir R$ 30 milhões de reais na operação local.

O movimento acontece em um momento de disputa pelo mercado de desenvolvimento de software corporativo, que passou a incorporar ferramentas de inteligência artificial capazes de criar aplicações a partir de comandos em linguagem natural.

A Deyel aposta que, para as grandes empresas, gerar código rapidamente não basta: é preciso integrar novas aplicações aos sistemas existentes e manter controle sobre segurança e compliance.

"Eu não posso simplesmente pedir para uma IA construir um aplicativo e colocar isso para funcionar dentro de uma empresa. Essa arquitetura empresarial é muito mais exigente", diz Paulo Cacciari, CEO da Deyel no Brasil.

O próximo desafio da companhia é transformar o crescimento inicial em uma operação permanente. A empresa quer ampliar a equipe brasileira e conquistar espaço em um mercado maior e mais competitivo do que aqueles em que construiu sua presença inicial na América Latina.

Um produto criado na América Latina

A Deyel nasceu há cerca de sete anos dentro da Optaris, grupo formado por investidores americanos e europeus que atuam há décadas em empresas de tecnologia.

Em vez de desenvolver a plataforma em apenas um país, a companhia reuniu equipes de fábricas de software no México, Argentina, Alemanha e Israel para construir o produto. Segundo Cacciari, foi a América Latina que impulsionou a adoção da tecnologia.

Hoje, a empresa atende clientes em diversos países da região e tem bancos e seguradoras entre seus principais usuários.

Brasil exigiu um ano e meio de preparação

A entrada no Brasil não aconteceu imediatamente após o crescimento da Deyel na América Latina. Antes do lançamento oficial, a companhia passou cerca de um ano e meio planejando a operação e avaliando quais partes da plataforma poderiam ser aproveitadas no país e quais precisariam de adaptação.

Uma das decisões foi montar uma equipe brasileira. Cacciari afirma que, em projetos de tecnologia, a comunicação entre o cliente e o time de desenvolvimento pode ser um obstáculo quando envolve profissionais de diferentes países.

Por isso, a companhia decidiu priorizar equipes locais para atender empresas brasileiras.

"O brasileiro quer trabalhar com brasileiro. Ele não gosta de barreira de linguagem, não gosta de barreira cultural. Ele gosta de falar com alguém que entende", diz.

A adaptação também envolveu o funcionamento do ambiente de negócios. Segundo Cacciari, a operação brasileira precisa lidar com regras tributárias e regulatórias que podem ser difíceis de compreender para equipes de outros países. Uma aplicação voltada às áreas financeira e contábil, por exemplo, precisa considerar a estrutura de normas municipais, estaduais e federais do país.

A companhia também precisou explicar essas particularidades à própria estrutura internacional. Cacciari conta que aspectos comuns no Brasil, como a disponibilidade frequente de contadores e advogados para as empresas, podem ser vistos de forma diferente por executivos estrangeiros, acostumados a outros custos e modelos de prestação de serviço.

Crescimento passa por serviços e produtos prontos

A Deyel começou com a proposta de vender uma plataforma para que empresas desenvolvessem suas próprias aplicações. O foco inicial estava em companhias com grandes equipes de tecnologia e em fornecedores especializados em criar sistemas sob medida.

A demanda dos próprios clientes, porém, levou a empresa a mudar parte dessa estratégia. Algumas companhias passaram a pedir que a Deyel não apenas fornecesse a ferramenta, mas também ajudasse a construir aplicações específicas.

A empresa começou, então, a desenvolver sistemas sob encomenda usando a própria plataforma. A Deyel identificou uma oportunidade: transformar parte dessas aplicações em produtos prontos.

A empresa passou a oferecer aplicações com uma estrutura já pronta para resolver problemas comuns, como gestão de fornecedores, CRM e controle financeiro, mas que podem ser adaptadas aos processos de cada cliente. Dessa forma, a companhia reduz o tempo necessário para desenvolver uma solução sem obrigar a empresa a adotar um sistema completamente fechado.

A plataforma permite alterar fluxos, regras e funcionalidades para que a aplicação se ajuste à forma como cada empresa trabalha.

A Deyel passou, assim, a atuar em três frentes apoiadas pela mesma tecnologia: a venda da plataforma para que o cliente desenvolva seus próprios sistemas, o desenvolvimento de aplicações sob medida e a oferta de produtos pré-configurados que podem ser adaptados.

Para Cacciari, a lógica reduz um dos principais obstáculos à adoção de tecnologia: a resistência das equipes a ferramentas que mudam completamente a forma como elas trabalham.

Ampliar a operação brasileira

A Deyel ainda está na fase de construção da operação brasileira. O plano prevê R$ 30 milhões em investimentos no país, com recursos destinados à formação da equipe, ao desenvolvimento de projetos e à expansão das áreas de fábrica de software, customização e aplicações.

A estratégia não envolve apenas contratar profissionais para atender a uma demanda já existente. "Temos um foco em desenvolver o mercado, mas também em desenvolver a empresa e a cultura dela no Brasil", afirma.

A companhia também pretende ampliar a capacidade de desenvolvimento local. A ideia é reunir profissionais brasileiros para atender clientes do país e, ao mesmo tempo, manter acesso à estrutura internacional da Optaris.

Hoje, a operação brasileira já responde por 13% da receita global da Optaris e concentra 30% das licenças comercializadas pela empresa no mundo.

Para Cacciari, o tamanho do mercado brasileiro justifica o esforço. "São Paulo é o maior polo econômico no hemisfério Sul do planeta. Nenhum outro lugar tem tantos recursos disponíveis quanto na cidade, no estado e derivando de uma certa maneira para o restante do país", diz.

O desafio agora é transformar a participação inicial em uma operação maior, com capacidade para atender clientes, desenvolver soluções e formar novos negócios no país. "Eu acredito que a gente tem tudo para, em pouquíssimo tempo, ser um dos maiores players dentro da companhia", afirma Cacciari.

AutorBianca Camatta
FonteExame
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