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27/10/2026
10 min

Gerdau sobe no circuit breaker e CEO vê ‘aspecto muito positivo’ na reeleição

Gustavo Werneck acredita que defesa comercial contra aço importado continuará com Lula

Gerdau sobe no circuit breaker e CEO vê ‘aspecto muito positivo’ na reeleição

O cerco ao aço importado deve continuar no novo mandato de Lula, com novas medidas já no curto prazo. A avaliação é de Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, que classificou a continuidade da política de defesa comercial como "um aspecto muito positivo" da reeleição, em coletiva sobre os resultados do terceiro trimestre nesta terça-feira, 27.

"Olhando agora a continuidade da entrada de aços importados de uma forma desleal no Brasil, acredito que, na continuidade do governo, novas medidas já no curto prazo podem ser colocadas pelo governo atual e pelo novo governo, inclusive medidas antidumping", disse Werneck, questionado pela EXAME.

O executivo descreve a defesa comercial como uma jornada. As medidas começaram a ser adotadas na metade do atual mandato, quando o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) era comandado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. Elas seguiram com Márcio Elias Rosa, que assumiu a pasta em abril.

"É uma jornada que continuará ao longo do próximo governo", afirmou Werneck. Ele chamou o ministro de "um profundo conhecedor do assunto de defesa comercial".

O CEO disse esperar do novo governo um programa específico para o setor, ainda em avaliação. Trata-se do ProAço, proposta apresentada por Alckmin e inspirada no Regime Especial da Indústria Química (REIQ), com incentivos tributários, facilidades na compra de matérias-primas e foco na competitividade do aço nacional.

Em setembro, durante o Congresso Aço Brasil, o vice-presidente afirmou que o governo poderia criar um programa para a siderurgia nos moldes do adotado para a indústria química. A Gerdau classifica a iniciativa como muito positiva, mas ressalta que o tema ainda está em estudo no MDIC, sem nada definido até agora.

Hoje estão em vigor cotas comtarifa de 25% sobre a importação de 17 tipos de produtos de aço, renovadas até junho de 2027. O processo antidumping sobre bobinas a quente teve decisão preliminar favorável à indústria nacional. A decisão final sobre o fio-máquina é esperada até dezembro, segundo a apresentação de resultados da companhia.

Para a Gerdau, esses dois processos são o avanço mais relevante no curto prazo. Fio-máquina e bobinas a quente representam entre um quarto e um terço do volume que a companhia vende no mercado interno, segundo a empresa.

A pressão das importações segue alta. No terceiro trimestre, as compras de aço do exterior cresceram 19,8% em relação ao trimestre anterior, com alta de 33,8% nos aços planos, de acordo com dados do Instituto Aço Brasil citados pela empresa.

Werneck também ponderou que a companhia não quer depender de Brasília. "Uma perspectiva nossa, de uma história que está prestes a completar 126 anos, é não ficar tomando todas as decisões de negócio muito baseadas nos governos atuais ou futuros", disse.

Ele citou como exemplo a nova plataforma de mineração de Miguel Burnier, em Minas Gerais, com início de operação previsto para este trimestre.

Por que o dólar alto ajuda a Gerdau

A reação do mercado à reeleição poupou a siderúrgica. Na segunda-feira, 26, as ações preferenciais da Gerdau (GGBR4) subiram 0,91%, entre os únicos oito papéis em alta no dia. OIbovespa caiu 13,88%, em sessão marcada pelo primeirocircuit breakerdesde março de 2020.

Em relatório publicado no mesmo dia, o BTG Pactual incluiu a Gerdau entre as exportadoras que devem se sair melhor com a expectativa de real mais fraco no novo mandato.

A explicação está na geografia do resultado. Cerca de 76% do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da companhia vem da América do Norte, em dólares.

"Quando o dólar sobe aqui no Brasil, eu tenho aquela mesma quantidade de dólares que converto por uma quantidade maior de reais na hora de calcular o Ebitda que a Gerdau gerou", afirmou Rafael Japur, CFO e diretor de relações com investidores da companhia.

Segundo Japur, a participação da operação norte-americana é ainda maior no lucro, porque a operação brasileira tem registrado prejuízo.

No Brasil, o efeito é misto. Cerca de 10% da receita local é dolarizada, vinda das exportações, enquanto cerca de 20% dos custos estão atrelados ao dólar, como minério de ferro, carvão e gás natural, segundo o executivo.

O câmbio mais alto, por outro lado, encarece o produto estrangeiro. "Quando o dólar se valoriza frente ao real, fica mais caro importar aço, importar peças, importar equipamentos, importar carros", disse Japur.

Sobre o rumo da moeda nos próximos dias, o CFO evitou projeções. "O câmbio é cemitério de muitos economistas. Eu não sou economista", afirmou.

Fiscal, juros e reforma tributária

Para a Gerdau, o principal ponto de atenção do novo mandato é o fiscal. A companhia é intensiva em capital, e seus maiores clientes também: construção civil, indústria e montadoras, setores sensíveis aos juros.

"Quanto mais cedo a gente tiver uma trajetória fiscal e uma agenda que sinalize espaço para redução de taxa de curto prazo, mas principalmente das taxas de longo prazo, que é o que importa para o investidor que vai tomar uma decisão de alocação de capital, isso é fundamental para a gente ter uma normalização", disse Japur.

Werneck foi na mesma linha. Segundo ele, medidas de corte de despesas públicas e de redução dos juros "são fundamentais também para que a gente possa liberar o nosso desejo de seguir investindo aqui no Brasil".

Dinheiro, diz o CEO, não é o problema. "O balanço da Gerdau está super saudável, nosso nível de dívida é muito baixo e a gente tem condição hoje, de sobra, de fazer investimentos naquelas geografias em que a gente sinta a confiança de que os nossos clientes vão seguir crescendo", afirmou.

Questionado sobre a estabilidade institucional após a eleição, Werneck disse que a empresa não faz análise política, mas que previsibilidade pesa nas decisões. "É óbvio que uma empresa como a nossa, o que ela quer é um ambiente de mais estabilidade, mais segurança jurídica", disse.

O motivo, segundo ele, é o tempo de maturação do negócio: a siderúrgica desembolsa capital de um a quatro anos antes de um investimento entrar em operação e começar a dar retorno.

No relatório de resultados, a própria empresa atribui a demanda fraca por aço no país aos juros elevados e à cautela dos clientes diante das incertezas políticas e econômicas.

Na coletiva, porém, Japur descartou efeito eleitoral sobre as vendas do trimestre. As vendas no mercado interno cresceram 6%, e a queda no volume total veio de embarques de exportação que ficaram para o quarto trimestre. "A gente não entende que tenha nada relacionado com incertezas políticas", disse.

Werneck também defendeu que a reforma tributária sobre o consumo não perca ritmo. Ele a classificou como "um dos maiores avanços que houve nas últimas décadas" para a competitividade da indústria.

O CEO compara as estruturas da empresa nos dois países: a área tributária da Gerdau tem duas pessoas nos Estados Unidos e 132 no Brasil. Segundo ele, a complexidade atual deixa um resíduo de tributos em cada tonelada vendida ao exterior. "A gente exporta impostos", afirmou.

Mesmo assim, a estratégia é exportar menos. O plano da companhia é transferir gradualmente para o mercado doméstico a capacidade hoje dedicada às vendas externas. A participação das exportações nas vendas da operação brasileira caiu de 21% para 13% em um ano.

Estados Unidos e Canadá respondem por três quartos do resultado

A Gerdau encerrou o terceiro trimestre com Ebitda ajustado de R$ 3,8 bilhões, alta de 37,8% em relação ao mesmo período de 2025. A margem chegou a 20,2%, o maior patamar desde o segundo trimestre de 2023.

A receita líquida somou R$ 18,7 bilhões, 3,9% acima da registrada um ano antes. O lucro líquido ajustado foi de R$ 1,5 bilhão, crescimento de 39,7% na mesma comparação.

O Ebitda veio 3% acima da estimativa do Itaú BBA e 2% acima do consenso de mercado, segundo relatório do banco, que classificou o resultado como levemente positivo. O lucro, por outro lado, ficou 5% abaixo da projeção dos analistas do Itaú BBA.

O volume de aço vendido ficou praticamente estável, em 2,9 milhões de toneladas. A diferença veio do preço: os reajustes aplicados ao longo do ano adicionaram cerca de R$ 559 milhões ao Ebitda em relação ao segundo trimestre, segundo a companhia.

A operação na América do Norte gerou Ebitda de R$ 2,9 bilhões, com margem de 27,7%, a maior em quatro anos, embora tenha vendido praticamente o mesmo volume de aço que o Brasil. A demanda é puxada pela construção não residencial, por data centers e por projetos de energia renovável.

No Brasil, o Ebitda foi de R$ 741 milhões, alta de 5,2% sobre o trimestre anterior, com margem de 10,7%. No acumulado de nove meses, o resultado da operação brasileira caiu 26%.

O fluxo de caixa livre foi de R$ 1,4 bilhão, o equivalente a um retorno anualizado de cerca de 12% sobre o valor de mercado, nas contas do Itaú BBA. A alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda, caiu para 0,58 vez, ante 0,81 vez um ano antes.

Em outubro, a S&P Global Ratings revisou a perspectiva da nota de crédito da companhia de estável para positiva, movimento que a Fitch já havia feito em julho. A Gerdau também aprovou R$ 667 milhões em dividendos, ou R$ 0,34 por ação, a serem pagos em 15 de dezembro.

O Itaú BBA manteve recomendação neutra para a ação (market perform), com preço-alvo de R$ 29 ao fim de 2027, potencial de valorização de 15%.

Para o quarto trimestre, a companhia prevê margens estáveis na América do Norte e compressão no Brasil, com desaceleração sazonal da demanda e custos de insumos como carvão ainda elevados. Do lado positivo, a mina de Miguel Burnier entra em operação, com potencial de agregar cerca de R$ 1,1 bilhão ao Ebitda, segundo a empresa.

O plano para o Brasil sai em dezembro

A Gerdau prepara um plano para recuperar a rentabilidade no país, a ser detalhado em evento com investidores no início de dezembro. Werneck comparou o movimento à reestruturação feita na América do Norte em 2018, quando a companhia passou a focar nos produtos em que era mais competitiva.

Parte da virada já está em curso. Miguel Burnier é o maior investimento da história da Gerdau no Brasil, anunciado em agosto de 2023. A mina vai abastecer a usina de Ouro Branco, que produz quase metade do aço da companhia no país, e tem vida útil estimada em 40 anos, segundo Japur.

Enquanto isso, a operação norte-americana dá fôlego. Para Werneck, a demanda por aço nos Estados Unidos não depende do atual governo e deve seguir forte, puxada por fábricas de semicondutores, obras de infraestrutura, energia e data centers.

"Isso nos dá a tranquilidade de que a recuperação dos nossos resultados no Brasil vai ter o tempo adequado de ser feita ao longo dos próximos anos", afirmou.

Nem todo plano fora do Brasil segue de pé. Segundo Japur, o projeto de uma nova usina de aços especiais no México está cancelado por tempo indeterminado, depois que a revisão do acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá (USMCA) impôs tarifas e esfriou a instalação de fábricas de autopeças no país.

AutorLetícia Furlan
FonteExame
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