Gestão pós-layoffs: o que os CEOs precisam aprender com a crise das big techs
Em seu novo livro, o conselheiro e pesquisador Rafael Camilo, ex-Google e Twitter, analisa o impacto estrutural das demissões em massa na tecnologia

Em 2024, Rafael Camilo estava no ponto mais alto de sua carreira. Nascido e criado no Capão Redondo, periferia de São Paulo, havia chegado a uma cadeira executiva em uma das maiores empresas de tecnologia do mundo e liderava um projeto de destaque para a região. Até entrar para uma estatística que atingiu milhares de profissionais do setor nos últimos anos: a dos demitidos pelas big techs.
Camilo trabalhava no antigo Twitter, comprado por Elon Musk por US$ 44 bilhões em 2022 e rebatizado de X no ano seguinte. Sob o novo controlador, a companhia promoveu uma redução drástica de pessoal. Cerca de 3,7 mil funcionários, o equivalente a metade da força de trabalho à época, foram cortados. Camilo estava entre eles.
A demissão interrompeu uma trajetória que já havia passado por empresas como Google e pela agência de publicidade Africa. Mas estava longe de ser um caso isolado.
A onda de layoffs que atingiu o setor de tecnologia depois do boom da pandemia derrubou milhares de profissionais que, até pouco antes, trabalhavam em algumas das empresas mais disputadas do mundo. Alphabet anunciou o corte de 12 mil funcionários, Microsoft, de 10 mil, e Amazon, de mais de 18 mil.
Segundo a plataforma Layoffs.fyi, mais de 160 mil postos de trabalho foram eliminados no setor de tecnologia em 2022. Em 2023, o número superou 260 mil.
No primeiro momento, as empresas atribuíram os cortes principalmente ao excesso de contratações feito durante a pandemia, quando a digitalização acelerou e a demanda por profissionais de tecnologia disparou. Depois, a busca por eficiência ganhou um novo componente: a inteligência artificial e a promessa de fazer mais com estruturas menores.
Foi dessa combinação — a própria demissão e uma transformação mais ampla do mercado de trabalho — que nasceu o livro Como sobreviver aos layoffs, publicado pela Actual, do Grupo Editorial Alta Books. Com prefácio da empresária e investidora Monique Evelle, Camilo procura entender as demissões em massa para além da planilha das empresas, passando por seus efeitos econômicos, sociais e emocionais.
“As demissões em massa nas big techs foram o estopim para que Camilo iniciasse a investigação que o levou a escrever esta obra”, escreve Evelle no prefácio. “A promessa de que as empresas de tecnologia eram oásis não se cumpria.”
Quando demitir vira estratégia
Na leitura de Camilo, os layoffs deixaram de ser apenas uma resposta emergencial a crises e passaram a fazer parte do arsenal das empresas para responder rapidamente à pressão por eficiência.
A combinação de juros mais altos, competição, correção dos excessos da pandemia e avanço da inteligência artificial aumentou a cobrança por produtividade — e tornou estruturas de custos mais enxutas especialmente atraentes.
“Empresas sempre precisaram fechar a conta no final do mês. Precisam crescer, dar retorno aos investidores, controlar custos e buscar eficiência. Isso não é novo. O que mudou foi a intensidade dessa pressão”, afirma Camilo.
O corte de funcionários, porém, produz efeitos que não aparecem imediatamente no balanço.
Para quem fica, surge o que Camilo chama de FOGLO — fear of getting laid off, ou medo de ser demitido. Para quem sai, o desafio não é apenas encontrar outro emprego, mas voltar ao mercado justamente depois de perder uma das principais referências de sua identidade profissional.
“Uma demissão pode paralisar justamente no momento em que o mercado exige movimento: conversar com pessoas, reativar relações, testar narrativas, se expor, aprender e explorar possibilidades que talvez não estivessem no plano original”, diz.
O resultado é uma mudança na relação entre empresas e funcionários. De um lado, companhias pressionadas por resultados e menos dispostas a oferecer perspectivas de longo prazo. Do outro, profissionais que passaram a enxergar a estabilidade corporativa com mais desconfiança.
Quando o crachá desaparece
É nesse ponto que a experiência pessoal de Camilo volta ao centro da história.
Depois de construir uma carreira associada a algumas das marcas mais conhecidas de tecnologia e publicidade, a demissão colocou diante dele uma questão que vai além de conseguir uma nova vaga: quanto da identidade profissional de um executivo pertence a ele — e quanto vem emprestado da empresa onde trabalha?
“Passamos anos construindo uma carreira ao redor do crachá de algumas empresas. Falamos em nome delas, somos apresentados pelo cargo que ocupamos e, muitas vezes, parte importante do nosso valor profissional passa a ser emprestada daquela marca”, afirma.
Para Camilo, esse é um dos efeitos menos discutidos das demissões em massa. Perder o emprego também pode significar perder, de uma hora para outra, cargo, rotina, rede de relações e o sobrenome corporativo que ajudava a definir aquele profissional.
E deixa uma pergunta que ele próprio precisou enfrentar depois do layoff:
“Quando o crachá desaparece, fica uma pergunta muito mais difícil do que ‘qual será meu próximo emprego?’: quem sou eu profissionalmente sem aquela empresa?”
