Gestor que antecipou a bolha da internet diz que ações dos EUA vivem maior excesso da história

O gestor John Hussman, que ganhou notoriedade por prever o estouro da bolha das empresas de tecnologia no início dos anos 2000, voltou a fazer um alerta contundente sobre o mercado americano.
Em carta a clientes divulgada pelo Business Insider, ele afirma que as ações dos Estados Unidos atravessam o maior período de especulação já registrado e estima que o S&P 500 pode recuar até 75% nos próximos anos.
Na avaliação de Hussman, o entusiasmo em torno da inteligência artificial levou os preços dos ativos a níveis extremos. Caso as margens de lucro das grandes empresas permaneçam elevadas por muito tempo, o ajuste poderia ser menor, mas ainda assim expressivo, com uma queda próxima de 55% para o índice.
"O atual nível de valorização do mercado de ações continua sendo — com folga — o maior extremo especulativo da história financeira dos Estados Unidos", escreveu.
Conhecido em Wall Street como um "permabear" — apelido dado a investidores que mantêm uma visão estruturalmente pessimista sobre os mercados —, Hussman sustenta há anos que uma grande correção é inevitável, mesmo após sucessivas máximas das bolsas americanas.
A euforia com IPOs é um dos sinais de alerta
Entre os fatores que preocupam o gestor está o ritmo das ofertas públicas iniciais (IPOs). Segundo ele, considerando as avaliações estimadas, as empresas que devem estrear na bolsa neste ano equivalem a cerca de 12% do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos.
Os números reforçam essa percepção. As empresas que abriram capital em 2026 já captaram US$ 142,4 bilhões, um salto de 792% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da Renaissance Capital citados pelo Business Insider.
"A história sempre levou esse tipo de exuberância especulativa a desfechos muito mais dolorosos", afirmou.
Valuation supera níveis vistos antes de 1929
Outro ponto destacado por Hussman é o preço das ações em relação aos fundamentos.
Seu principal indicador acompanha a relação entre a capitalização de mercado das empresas não financeiras e o valor agregado bruto (gross value-added) da economia. Segundo o gestor, essa métrica nunca esteve tão elevada, superando inclusive os níveis registrados antes do crash de 1929.
"Nos ciclos anteriores, a diferença entre os valuations vigentes e as médias históricas acabou sendo corrigida. Essa é uma das razões pelas quais nossa estimativa-base continua sendo uma perda de cerca de 75% para o S&P 500", escreveu.
Ele lembra que utilizou esse mesmo indicador para estimar uma queda de 83% antes do estouro da bolha da internet.Pelos cálculos de Hussman, quando se ajustam as margens médias de lucro das empresas não financeiras, períodos com valuations semelhantes historicamente resultaram em retorno nominal anual médio próximo de 0% para o S&P 500 ao longo dos 12 anos seguintes.
Lucros dependem de déficits, diz gestor
Hussman também argumenta que a rentabilidade das empresas americanas vem sendo sustentada por desequilíbrios nas contas do governo e das famílias.
Com base em dados do Bureau of Economic Analysis, ele afirma que o fluxo de caixa livre das companhias acompanha quase perfeitamente os déficits combinados do governo dos EUA, dos consumidores e dos parceiros comerciais do país.
"Quando consideramos que quase 90% das ações corporativas pertencem aos 10% mais ricos das famílias e que os outros 90% financiam seus déficits emitindo passivos, como dívidas de consumo, que acabam sendo detidos direta ou indiretamente pelos 10% mais ricos, fica muito claro que a riqueza desfrutada por um grupo é a imagem espelhada da perda de renda dos demais", escreveu.
Alavancagem também reforça cenário de risco
Outro indicador citado pelo gestor é o avanço da margin debt, modalidade em que investidores tomam recursos emprestados para ampliar posições em ações.
Segundo Hussman, a relação entre essa dívida e o PIB americano está se aproximando de 4,5%, o maior patamar da série histórica.
Na visão dele, movimentos semelhantes antecederam algumas das principais quedas das bolsas nas últimas décadas, como a crise da internet, a crise financeira global de 2008 e o mercado de baixa de 2022.
Para o gestor, o aumento da alavancagem é mais uma evidência da "exuberância especulativa" que domina o mercado americano atualmente.
