Gestora que administrava fundo ligado a primo de Vorcaro desmonta posição na Gafisa (GFSA3)

A gestora LAD Capital reduziu, na última sexta-feira (17), em cerca de 35% a posição de fundos sob sua gestão na Gafisa (GFSA3), apenas 11 dias após comunicar uma participação superior a 20% no capital da incorporadora.
Em 6 de julho, a gestora havia informado que seus fundos detinham conjuntamente 36,2 milhões de ações da companhia, ou cerca de 22,61% do capital da Gafisa. Já no dia 17, a posição havia caído para 23,5 milhões de papéis, ou 14,70% do capital.
Foram vendidas 12,7 milhões de ações no período, sem que os comunicados informassem quem comprou os papéis, os preços das negociações, quais fundos realizaram as operações ou o resultado financeiro obtido.
A LAD administrava e geria o FIP Green Energia, que tinha entre seus cotistas Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Em maio, a gestora deixou o fundo após ele ser citado na Operação Compliance Zero. A LAD afirmou que colaborou com as autoridades e que a Green já pertencia a Felipe Vorcaro antes de ser integralizada ao veículo.
Não há prova pública de que Felipe ou Daniel Vorcaro, o Banco Master ou qualquer pessoa ligada ao grupo seja cotista dos fundos que investiram na Gafisa. O episódio, porém, indica que a LAD já prestou serviços a um veículo que tinha um integrante da família Vorcaro entre seus cotistas.
Gafisa, Tanure e Master: um histórico
A relação entre a Gafisa e o entorno do Banco Master remonta a 2019. Após a entrada do empresário Nelson Tanure no conselho da companhia, recursos da incorporadora passaram pelos fundos Bergamo e Panarea até o fundo imobiliário Brazil Realty (BZLI11), que tinha entre seus principais cotistas o então Banco Máxima — posteriormente rebatizado como Banco Master — e empresas ligadas à família Vorcaro. Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, a exposição da Gafisa a essa estrutura chegou a R$ 325,6 milhões entre 2019 e 2022.
Em investigações relacionadas ao Banco Master, a Polícia Federal apontou Tanure como possível sócio oculto da instituição, o que ele nega. Já a ESH Capital acusou fundos ligados ao Master, à Planner, à Trustee e à MAM Asset de atuar de forma coordenada em favor do empresário na Gafisa. As instituições negaram as acusações e a assembleia da companhia rejeitou a suspensão dos direitos políticos desses investidores.
Em janeiro de 2026, outra movimentação foi foco de atenção: a Wotan Realty, apontada pelo NeoFeed e pela ESH Capital como um veículo ligado a Tanure, elevou sua participação para 14,72% da Gafisa. Quase ao mesmo tempo surgiu o GERF, fundo de cotista único e não identificado, com 19,75% da companhia.
Somado à Fator Capital (13,63%), o grupo passou a concentrar cerca de 48% do capital da incorporadora. Não há prova pública de atuação coordenada entre esses investidores, mas a proximidade das movimentações gera dúvidas sobre quem financiou cada posição e se havia algum acordo entre eles.
Fundo exclusivo surgiu dias antes da compra
O GERF possui apenas um cotista, cuja identidade não aparece nos registros públicos.
A administração fiduciária é da Planner. A gestão era inicialmente da Redwood Administração de Recursos, pertencente ao grupo Planner, e posteriormente passou para a LAD, sem que a data ou os motivos da substituição fossem divulgados.
A B100, holding do grupo Planner e controladora da Redwood, adquiriu cerca de 97% da Ciabrasf, antiga administradora fiduciária da Reag, após a Operação Carbono Oculto. Os fundos investigados ficaram fora da transação.
A própria Planner também é investigada pela Polícia Federal por sua atuação como intermediária entre a Rioprevidência e o Banco Master. A corretora nega irregularidades. Não há elementos públicos que relacionem esse caso à administração do GERF, mas o episódio torna ainda mais relevante identificar o beneficiário final do fundo.
Participação cresceu após aumento de capital
A ampliação da posição ocorreu após o aumento de capital da Gafisa por conversão de créditos em ações, concluído em julho.
Depois da operação, que incorporou cerca de R$ 196,6 milhões ao capital da companhia após a correção de um erro material, a LAD informou que seus fundos haviam alcançado 22,61% da incorporadora, percentual significativamente superior aos 13,30% anteriormente declarados pelo GERF.
A diferença pode indicar que o próprio GERF ampliou sua posição, que outros fundos sob gestão da LAD receberam ações ou que ocorreram as duas situações. Como o aumento foi realizado por meio da conversão de créditos, também é possível que veículos administrados pela gestora fossem credores da companhia.
A Gafisa, porém, não divulgou quem participou da operação nem quantas ações foram destinadas a cada investidor. Também não está claro se toda a participação anunciada pela LAD estava concentrada no GERF ou distribuída entre diferentes fundos.
LAD administrava fundo ligado a primo de Vorcaro
Em maio, a LAD renunciou à administração e à gestão do FIP Green Energia depois de o veículo ser citado em uma fase da Operação Compliance Zero. Segundo reportagens da época, Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, era um dos cotistas do fundo, que possuía participações na Green Investimentos e na Trinity.
A Polícia Federal investiga se essas empresas foram utilizadas para gerar dividendos e transferir patrimônio de forma indireta ao núcleo investigado no caso Banco Master.
A LAD não foi alvo da operação. A gestora afirmou que colaborou com as autoridades, entregou a documentação solicitada e que a Green já pertencia a Felipe Vorcaro antes de ser integralizada ao fundo.
A LAD já administrou um veículo com um integrante da família Vorcaro entre os cotistas, mas não é possível concluir que o investidor do GERF ou dos demais fundos que compraram ações da Gafisa tenha qualquer ligação com o Banco Master.
Em um processo que tramita na Justiça de Goiás, a Planner informou que a própria Gafisa não é cotista do GERF, afastando uma das hipóteses levantadas no caso. A manifestação, porém, não revela quem é o investidor do fundo na Realty, cuja atuação na companhia já foi alvo de questionamentos de investidores minoritários.
A LAD tem fundos ligados ao ecossistema do Banco Master. Ela herdou, por exemplo, o Touring, fundo exclusivo, com um único cotista, que era administrado pela Reag e que detinha, na carteira pública mais recente, praticamente todo seu patrimônio na BeFly Travel, empresa que aparece ligada ao Master.
Além disso, outros fundos da gestora têm posições relevantes em nomes como Ambipar, EMAE e fundos da MAM, gestora do banco de Vorcaro.
Até o momento, não há prova documental que ligue o beneficiário econômico do GERF à família Vorcaro, ao Banco Master, a Nelson Tanure ou à Wotan.
Procurados, Planner e Gafisa não responderam até a publicação dessa matéria. A reportagem tentou, mas não conseguiu contato com a LAD Capital. O espaço segue aberto para manifestação.
