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InvestMercados
18/08/2026
5 min

Gestores evitam bolsa por causa da eleição: para onde o dinheiro está indo?

Com a bolsa barata, gestores preferem juros, ativos reais e exportadoras e esperam gatilho político para aumentar exposição ao risco

Gestores evitam bolsa por causa da eleição: para onde o dinheiro está indo?

A eleição presidencial de 2026 está no radar dos gestores e tem tirado o apetite para o aumento da exposição ao risco na bolsa brasileira. Durante a 7ª Conferência Anual do Santander, realizada em São Paulo, nesta terça-feira, 18, os gestores Bruno Cordeiro, sócio da Kapitalo; Christian Faricelli, sócio e gestor da Absolute, e Christian Keleti, sócio-fundador e gestor da AlphaKey, mostraram posições defensivas e disseram esperar maior clareza sobre o cenário político para ampliar as apostas em renda variável.

A principal divergência entre os gestores está justamente na leitura da eleição. Cordeiro e Keleti consideram quea disputa entre as duas principais candidaturas, a de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e a do senador Flávio Bolsonaro (PL), tem 50% de chance para cada um dos candidatos, o chamado "50/50".

Já Faricelli trabalha com uma probabilidade maior de vitória de Lula, de 70%, contra 30% para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas afirma ser mais otimista com a possibilidade de uma terceira via.

"Eu não acho que é 70/30, acho que é 50/50 e falta um mês e meio", disse Cordeiro durante o painel. Na avaliação do gestor, a incerteza torna particularmente difícil fazer uma alocação de curto prazo baseada na eleição.

"A probabilidade objetiva é 50. A subjetiva é difícil. A gente olha as pesquisas e subjetivamente um acha que é zero, outro acha que é 50, outro acha que é 70. Então isso deixa o gamble, a alocação de curto prazo, trading difícil", afirmou.

Keleti também vê a disputa como equilibrada. "Eu não sei da eleição. Eu acho que está perto de 50/50", disse. Na avaliação do gestor da AlphaKey, porém, essa indefinição não elimina a assimetria da Bolsa brasileira. Ao contrário, o executivo avalia que, caso haja uma mudança no ambiente político, uma parcela do dinheiro hoje concentrado em outras classes de ativos pode migrar para ações.

Faricelli tem uma leitura diferente, e vê 70% de chance de reeleição do atual presidente. O gestor disse considerar Lula mais provável do que Flávio Bolsonaro, embora seja "mais otimista para a terceira via", representada nas figuras dos candidatos Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).

Bolsa barata, mas gestores ainda não querem se expor

A cautela com a eleição se reflete diretamente na carteira. Apesar de reconhecerem que existem ativos baratos na Bolsa, os gestores não estão defendendo uma exposição ampla ao risco neste momento.

Na Kapitalo, a preferência de Cordeiro está nos juros. "O juro é a única coisa que a gente tem na carteira, hoje no Brasil", afirmou.

A aposta está ligada à percepção de que a economia brasileira está desacelerando e que existe espaço para cortes adicionais da taxa básica, a Selic. Cordeiro afirmou que vê espaço para cortes de 0,25 ponto percentual nas próximas reuniões do Copom e citou o endividamento de empresas, famílias e consumidores como um dos sinais de enfraquecimento da atividade.

Para o gestor, porém, o principal gatilho para uma mudança mais relevante no mercado seria político. "Eu só vejo um. Eu não acredito que, numa hipótese de reeleição, se o mercado forçar, esse governo vai proativamente mudar o fiscal. Mas eu acredito que, se tiver uma alternância de poder, isso vai acontecer", afirmou.

Faricelli também considera a Bolsa barata, mas não vê espaço para comprar indiscriminadamente. "Eu estou tomando muito cuidado nessas potenciais oportunidades na Bolsa", disse,

O gestor vê risco principalmente na economia doméstica, diante da alavancagem de empresas e famílias e das condições dos balanços bancários. Por isso, prefere ativos que possam oferecer proteção em um cenário adverso. "Os ativos reais são onde eu tenho mais conforto".

As exportadoras também entram nessa estratégia. Na avaliação de Faricelli, elas oferecem uma proteção maior diante dos riscos domésticos. A preferência, porém, não é simplesmente por empresas baratas, mas por companhias de qualidade e líderes em seus segmentos. "São as empresas boas, de qualidade, de ativo real e comprando aos poucos", afirmou.

Faricelli também vê uma oportunidade nas opções como forma de se posicionar para uma eventual mudança brusca no cenário eleitoral. Segundo o gestor da Absolute, a volatilidade das eleições está baixa e uma alteração relevante no cenário poderia produzir um movimento forte. Por isso, considera que opções de compra fora do dinheiro podem ser uma maneira de buscar exposição sabendo previamente quanto se pode perder.

Keleti compartilha da visão de que a Bolsa brasileira oferece uma assimetria interessante, mas sua tese passa pelo tamanho relativamente pequeno do mercado acionário diante do volume de dinheiro disponível no país.

Segundo o gestor, uma parcela pequena dos recursos atualmente alocados em outros produtos poderia provocarum impacto significativo sobre as ações brasileiras. "Se 3% desse dinheiro, num cenário onde eu tenho uma alternância, o clima já muda", afirmou.

Na conta apresentada por Keleti, a entrada de recursos poderia ter impacto relevante porque apenas uma parte das ações das empresas brasileiras está efetivamente disponível para negociação. Por isso, o executivo da Alphakey acredita que uma eventual melhora do ambiente poderia gerar uma forte reprecificação.

“Se a gente tiver 100, 200 para a Bolsa por horizonte de seis meses, um ano, não tem ação suficiente para atender esse estoque de papel que vai entrar de conta. E aí fica uma simetria gigantesca”, afirmou..

AutorClara Assunção
FonteExame
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