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NegóciosMPOL
22/07/2026
8 min

Gigante das academias cria nova rede com unidades em contêineres e treino a R$ 19

Gigante das academias cria nova rede com unidades em contêineres e treino a R$ 19

O empresário Leandro Aguiar passou a vida dentro de academias. Foi manobrista, recepcionista, professor de musculação e ocupou diferentes posições na Gaviões, rede fundada por seus pais em uma garagem de karatê, em São Paulo.

Hoje, aos 41 anos, Aguiar segue como diretor de expansão e de novos negócios da empresa da família, mas começa a testar uma aposta própria: academias compactas, que podem funcionar dentro de contêineres de 40 metros quadrados.

Batizado de Fast Treino, o negócio oferece circuitos automatizados de 36 minutos, com cobrança a partir de R$ 19,90 por acesso. A rede pretende encerrar 2026 com pelo menos 20 unidades e faturamento de R$ 10 milhões. O investimento feito na criação da marca foi de R$ 1,3 milhão.

O formato mais enxuto custa a partir de R$ 486 mil para o franqueado. Na outra ponta está o modelo Max, como o que será instalado na Avenida Paulista, cujo investimento deve ficar entre R$ 2 milhões e R$ 2,1 milhões.

“A partir de um contêiner de 40 metros quadrados você já consegue abrir uma academia”, afirma Aguiar. “Eu reduzi muito o capex porque hoje uma academia tradicional pode exigir de R$ 5 milhões a R$ 9 milhões.”

Capex é a sigla em inglês para despesas de capital e representa os recursos empregados na implantação ou ampliação de um negócio, como obras, equipamentos, instalações e tecnologia.

A tese de Aguiar é que uma unidade menor, automatizada e com menos funcionários possa movimentar um volume de clientes próximo ao de uma academia convencional, mas com custos fixos menores. O menor formato é entregue com aparelhos, ar-condicionado, telas e iluminação, pronto para ser conectado e começar a operar.

Leandro Aguiar, fundador da Fast Treino: modelo oferece circuitos de 36 minutos e cobrança a partir de R$ 19,90 por acesso (Fast Treino/Divulgação)

Um circuito que não para

O funcionamento da Fast Treino se aproxima mais de uma linha contínua do que de uma sala de musculação tradicional. O aluno passa por 12 estações, permanecendo três minutos em cada uma delas. Os aparelhos trabalham diferentes grupos musculares, enquanto equipamentos de cardio complementam o circuito.

Luzes, telas e sinais sonoros indicam quando o exercício deve começar e o momento de trocar de estação. A cada três minutos, um grupo avança, liberando o equipamento para os próximos alunos. Não há necessidade de agendar horário nem de aguardar a liberação de uma máquina.

“É praticamente um personal em cada aparelho. A tela acompanha o aluno, a luz verde manda levantar e todos passam para a próxima estação”, diz Aguiar. “Quando chegam aos 36 minutos, já estão no último aparelho, ao lado da catraca para sair.”

Segundo o empresário, o modelo foi desenvolvido a partir de uma área de adaptação que já existia nas academias Gaviões. O espaço havia sido criado para receber iniciantes que tinham dificuldade de se habituar à musculação convencional.

A proposta também tenta atacar uma das principais razões apontadas por Aguiar para a desistência dos alunos: a falta de tempo.

“Dentro da academia, a desculpa que a gente mais escuta é que o treino leva muito tempo. Agora não tem desculpa: são 36 minutos”, afirma. “Eu quis deixar a musculação mais interativa e fluida.”

Da garagem de karatê às franquias

A história de Aguiar no setor começou antes mesmo de seu nascimento. Seu pai, Leonildo Aguiar, fundou a Academia Gaviões em 1974, inicialmente como uma escola de karatê instalada em uma garagem. A mãe, Roseli Aguiar, também participou da construção da empresa.

Leandro diz que passou por praticamente todas as áreas da operação. Começou como boy e manobrista, trabalhou na recepção, tornou-se professor e chegou à diretoria de expansão e novos negócios. Ele também praticou karatê e competiu até os 20 anos, acumulando mais de 40 troféus, segundo o material de divulgação da empresa.

“A vida inteira trabalhei dentro da Academia Gaviões”, afirma. “Essa nova empresa é mais minha. Eu queria ter algo autoral, embora continue sendo um negócio ligado à história da família.”

A Gaviões começou a franquear sua operação em 2019, quando tinha 100 unidades abertas e cerca de 400 mil alunos atendidos, segundo informações apresentadas pela própria rede na ABF Franchising Expo. O investimento inicial em uma academia convencional da marca parte de R$ 2,8 milhões, com prazo de retorno divulgado entre 18 e 28 meses.

Aguiar afirmou na entrevista que a rede já alcançou 110 unidades abertas e tem outras 120 em construção. Ele estima que as novas operações sejam inauguradas até meados de 2027. Em 2025, a companhia faturou R$ 300 milhões.

Cobrança por treino, não apenas por mensalidade

Além do tamanho, a Fast Treino tenta se diferenciar pelo modo de cobrança. O cliente poderá comprar acessos avulsos, a partir de R$ 19,90, ou aderir a pacotes recorrentes com uma quantidade determinada de treinos por mês. Os planos mensais começam em R$ 99.

A estratégia foi pensada para acompanhar o avanço de plataformas corporativas que permitem aos usuários frequentar diferentes academias, como Wellhub — antigo Gympass — e TotalPass.

Aguiar afirma que, em algumas unidades tradicionais, os agregadores já respondem por uma parcela relevante dos acessos e da receita. Na Gaviões, segundo ele, o repasse é de aproximadamente R$ 11 por check-in. Na Fast Treino, cada treino custa R$ 19,90 ao aluno. 

Fast Treino, academia compacta: circuito automatizado conduz os alunos por 12 estações ao longo de 36 minutos (Fast Treino/Divulgação)

É uma sobrevivência. O cliente quer ter liberdade para treinar cada dia em uma unidade ou em uma rede diferente”, diz. “No Fast Treino, sempre que o aluno entrar, eu tenho de receber os R$ 19,90 que serão repassados ao franqueado.”

O executivo também argumenta que o formato reduz uma dependência histórica das academias: consumidores que pagam mensalidade, mas utilizam pouco a estrutura. Nesse modelo, a receita acompanha mais diretamente o número de treinos realizados.

A conta ainda precisa ser provada

Apesar das projeções, a Fast Treino ainda não possui um histórico operacional suficiente para calcular com precisão a rentabilidade e o prazo de retorno das franquias.

Aguiar estima um payback — tempo necessário para recuperar o investimento — de cinco a seis meses. A projeção considera uma operação com imóvel pequeno, consumo reduzido de energia e apenas um professor por turno. Uma unidade tradicional da Gaviões, segundo ele, pode empregar cerca de 50 pessoas.

“Como eu ainda não tenho o DRE, não consigo dar o retorno exato”, afirma. “Mas estamos reduzindo funcionário, aluguel, ar-condicionado e conta de luz.”

DRE é a Demonstração do Resultado do Exercício, relatório contábil que reúne receitas, custos, despesas e o lucro ou prejuízo de uma empresa em determinado período. Na prática, o documento mostrará se a unidade consegue entregar a receita e a margem previstas depois de pagar todos os gastos da operação.

A principal prova do modelo será a loja da Avenida Paulista, que deverá abrir em setembro. A expectativa de Aguiar é ter o primeiro DRE da operação em outubro. Até lá, parte dos investidores interessados continuará esperando os números efetivos antes de assinar os contratos.

“Já temos muitos imóveis na mão e pessoas prontas para inaugurar, mas o investidor quer ver o DRE da operação rodando”, afirma. “Eu gosto de validar o negócio antes de acelerar.”

Além da loja de um showroom que a rede abriu em Alphaville e da unidade própria na Paulista, há uma franquia prevista para a região da estação Brigadeiro, em São Paulo. O empresário também avalia pontos em Belém e Fortaleza. A meta atual é encerrar 2026 com pelo menos 20 operações.

Um mercado de franquias em expansão

A Fast Treino chega ao mercado em meio ao crescimento das franquias ligadas a saúde, beleza e bem-estar. O segmento avançou 14,6% em 2025, uma das maiores altas entre as categorias acompanhadas pela Associação Brasileira de Franchising.

No total, o franchising brasileiro faturou R$ 301,7 bilhões no ano passado, alta nominal de 10,5%. O país terminou o período com 202.444 operações, 3.297 redes e quase 1,8 milhão de empregos diretos.

No setor de academias, a competição também ficou mais intensa. O Brasil passou de cerca de 30 mil estabelecimentos registrados em 2019 para 57 mil em 2024, quase o dobro em cinco anos.

Para Aguiar, a vantagem da Fast Treino estará na velocidade. Enquanto uma academia tradicional pode levar cinco ou seis meses para ficar pronta, ele calcula que uma unidade compacta possa ser implantada em aproximadamente um mês.

“O Fast Treino é muito mais rápido e escalável”, diz. “Mas queremos crescer com parcimônia e com os pés no chão.”

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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