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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
29/10/2026
7 min

Gigante escondida no interior de SP fatura R$ 8 bilhões e investe R$ 1 bilhão no Brasil

Multinacional alemã ZF amplia produção de componentes automotivos no país, prepara novos produtos e aposta nas fábricas brasileiras para atender às montadoras da América do Sul

Gigante escondida no interior de SP fatura R$ 8 bilhões e investe R$ 1 bilhão no Brasil
RESUMO +

A multinacional alemã de autopeças ZF começará a fornecer em 2027 a transmissão automatizada TraXon 2, que será produzida em Sorocaba, no interior de São Paulo. A nacionalização integra um plano de investimento de R$ 1 bilhão em cinco anos na América do Sul, com modernização de fábricas, desenvolvimento de tecnologias e ampliação da produção local.

Uma gigante alemã, com fábricas espalhadas pelo interior de São Paulo, está por trás de boa parte das tecnologias que fazem caminhões, carros e máquinas agrícolas rodarem pelo Brasil. Seus produtos estão nas estradas, mas seu nome raramente aparece para o consumidor.

É a ZF, multinacional de autopeças que faturou cerca de 8 bilhões de reais na América do Sul em 2025.

Com unidades industriais em cidades como Sorocaba, Limeira e Araraquara, a empresa está executando um plano de investimento de 1 bilhão de reais na região em cinco anos, com projetos de modernização das fábricas, desenvolvimento de tecnologias e ampliação da produção local.

A nova etapa dessa aposta envolve a nacionalização da TraXon 2, uma transmissão automatizada usada em caminhões pesados. O equipamento será produzido em Sorocaba, no interior paulista, onde a empresa já fabrica a geração anterior.

O anúncio faz parte de um pacote de novidades que será apresentado na Fenatran, feira de transporte rodoviário que acontece em novembro, em São Paulo.

“Nós não fazemos negócio para 2 anos”, afirma Carlos Delich, presidente da ZF na América do Sul. Na entrevista à EXAME, o executivo explica que a companhia trabalha com horizontes de planejamento de 5, 10 e 15 anos, inclusive em projetos industriais que exigem investimentos de longo prazo.

Os próximos passos incluem o início do fornecimento da nova transmissão para montadoras em 2027, a ampliação da remanufatura de componentes em Araraquara e novos investimentos em processos industriais.

A lógica é aproveitar a estrutura que a ZF já construiu no Brasil para produzir tecnologias que, em outros momentos, precisariam ser importadas.

Por que a ZF está trazendo mais produção para o Brasil

A ZF opera 162 unidades industriais em 29 países e emprega cerca de 153.000 pessoas no mundo. Em 2025, registrou vendas globais de 38,8 bilhões de euros, algo na casa dos 234 bilhões de reais.

Apesar desse tamanho, a companhia tem pouca exposição ao consumidor final.

Seu negócio é fornecer componentes para fabricantes de veículos, que incorporam as tecnologias da empresa aos produtos vendidos ao público.

No Brasil, essa atuação passa por transmissões, embreagens, freios, sistemas eletrônicos e componentes para máquinas agrícolas. Nos últimos anos, a empresa desenvolveu localmente produtos como eixos agrícolas, freios de estacionamento elétricos e sistemas eletrônicos de segurança.

A estratégia segue um cálculo industrial. A ZF desenvolve tecnologias para o mercado global, mas avalia onde faz sentido fabricá-las.

Em alguns casos, começa atendendo as montadoras com peças importadas. Quando a demanda alcança uma escala que justifica o investimento, a produção pode ser transferida para uma unidade brasileira.

Esse modelo também exige adaptações. Um caminhão que transporta grãos pelas rodovias brasileiras enfrenta condições diferentes das de um veículo que circula na Europa. Peso da carga, relevo, consumo de combustível e exigências das montadoras mudam de acordo com o mercado.

Por isso, a empresa mantém uma equipe de aproximadamente 100 engenheiros dedicada às aplicações de veículos comerciais na América do Sul. O grupo trabalha no ajuste de componentes e programas eletrônicos para diferentes tipos de operação, inclusive em países como o Chile, onde o relevo exige configurações específicas das transmissões.

A nacionalização, porém, depende da demanda das montadoras. Nem toda tecnologia disponível no portfólio mundial da ZF terá fabricação brasileira. A empresa precisa de encomendas suficientes para justificar máquinas, treinamento e adaptações industriais.

O que muda com a nova transmissão fabricada em Sorocaba

A TraXon é uma das principais famílias de transmissões da ZF. A plataforma ultrapassou 1,5 milhão de unidades produzidas mundialmente, segundo a empresa. Na América do Sul, a companhia já tem uma base de mais de 100.000 transmissões em operação.

Agora, a ZF prepara a produção nacional da segunda geração.

A TraXon 2 mantém parte da estrutura mecânica da versão anterior, mas incorpora uma nova arquitetura eletrônica, que permite trocas de marcha mais rápidas e maior integração com os sistemas do caminhão.

Segundo estimativas da própria fabricante, a tecnologia pode reduzir o consumo de combustível em cerca de 1,7%, dependendo da aplicação. Parece pouco, mas o cálculo ganha peso quando aplicado a uma transportadora com dezenas ou centenas de caminhões, que percorrem milhares de quilômetros por mês.

Outra mudança está no sistema que antecipa as condições da estrada. Por meio do GPS, a transmissão consegue analisar o relevo até 2 quilômetros à frente, ante 1 quilômetro na geração anterior. Com essas informações, ajusta as marchas antes de subidas e descidas, buscando reduzir o consumo de combustível.

A tecnologia passou por mais de 2 milhões de quilômetros de testes e calibração, com mais de 40 veículos em diferentes condições de uso na América do Sul, segundo os executivos.

Para produzir o equipamento no Brasil, a ZF decidiu aproveitar a linha de montagem que já opera em Sorocaba. A fábrica continuará produzindo a TraXon 1 e poderá fabricar a TraXon 2 na mesma estrutura.

“Para as montadoras, ter a TraXon 2 produzida localmente facilita o planejamento, traz menos dependência de importação, torna a integração mais ágil com as linhas de montagem”, afirma Silvio Furtado, vice-presidente de Soluções para Veículos Comerciais e Tecnologia Industrial da ZF América do Sul, em comunicado.

A companhia já tem contratos fechados para fornecimento local da nova transmissão. As aplicações comerciais estão previstas para começar em 2027.

A aposta brasileira vai além das transmissões

A nacionalização da TraXon 2 é apenas uma das frentes da ZF no país. Outra novidade é uma nova geração de discos de embreagem desenvolvida pela engenharia brasileira para caminhões e ônibus pesados. A tecnologia busca reduzir vibrações geradas pelo motor e melhorar o desempenho durante partidas e trocas de marcha.

A ZF também vai ampliar as atividades da unidade de Araraquara. A partir de 2027, a fábrica deverá iniciar a remanufatura do ConAct, sistema que controla o acionamento da embreagem em transmissões automatizadas.

Na remanufatura, componentes usados passam por desmontagem, limpeza, substituição de peças desgastadas e testes para voltar ao mercado com padrões equivalentes aos de um produto novo.

É uma atividade que permite reaproveitar materiais e atender clientes que precisam substituir peças sem adquirir necessariamente um componente recém-fabricado. Segundo a ZF, a nova estrutura de Araraquara também poderá produzir componentes novos, conforme a demanda.

O desafio de transformar tecnologia em produção nacional

A decisão de localizar uma tecnologia, porém, envolve mais do que adaptar máquinas.

A ZF precisa acompanhar os planos das montadoras, que definem quais componentes serão usados nos veículos fabricados na região. Também precisa calcular se a demanda compensa os investimentos necessários para produzir localmente.

Essa equação ganha importância nos veículos comerciais. No Brasil, o transporte de cargas depende das rodovias, com demanda ligada a atividades como o agronegócio e o comércio.

Para atender esse mercado, a empresa precisa adaptar produtos a veículos que operam em longas distâncias, transportam cargas pesadas e enfrentam condições distintas das encontradas em outros países.

O investimento de 1 bilhão de reais anunciado para um período de cinco anos contempla também a modernização das fábricas. Entre as iniciativas mencionadas pela companhia estão a automação da movimentação interna de materiais e melhorias na unidade de fundição, que fabrica componentes metálicos usados pela indústria.

É uma aposta em capacidade industrial, além dos novos produtos. Ao manter engenharia, fabricação e adaptação tecnológica próximas das montadoras, a ZF busca reduzir a dependência de componentes importados em segmentos nos quais existe demanda suficiente para produção local.

O próximo teste será transformar os lançamentos em fornecimento contínuo para as montadoras.

Para uma companhia que planeja seus investimentos em horizontes de até 15 anos, a produção nacional da nova transmissão é mais uma etapa de uma estratégia que vem sendo construída nas fábricas do interior paulista.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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