Gol, Avianca e Sky: como o Abra quer ganhar escala na América Latina
Entrada da aérea chilena amplia a presença regional do grupo, que mira sinergias sem abrir mão da identidade de cada companhia

Bogotá — O Grupo Abra está montando uma plataforma aérea latino-americana e ganhar escala é parte central da estratégia. Dona da Gol e Avianca, o grupo acaba de incorporar a Sky Airline ao seu guarda-chuva e avança na integração entre as companhias. O movimento busca ampliar a presença regional e criar sinergias, mas sem transformar as empresas em uma só.
A chegada da companhia chilena de baixo custo, mais conhecida como low-cost, preenche uma lacuna geográfica. Enquantoa Gol tem uma posição relevante no Brasil e a Avianca possui forte presença na Colômbia, Equador e América Central, a Sky amplia a presença do grupo no Chile e no Peru.
"Se olharmos para o mapa da América Latina, temos uma presença relevante da Gol, um dos principais operadores do Brasil, além de uma atuação importante no Equador e na América Central, incluindo Costa Rica, Guatemala e El Salvador. O que ainda faltava? Chile e Peru, dois dos principais mercados da região que ainda não faziam parte do grupo", afirmou Francisco Raddatz, CPO do Abra, em entrevista na sede da Avianca, em Bogotá.
A lógica, segundo o executivo, não é simplesmente somar companhias aéreas. O objetivo é usar o tamanho da plataforma para fazer com que empresas diferentes consigam operar de maneira mais eficiente, compartilhando determinadas estruturas e buscando sinergias.
"Este é o momento que estamos vivendo no Abra: o de consolidação da plataforma que estamos construindo. Queremos formar um grupo com presença relevante na região, ganhar escala e, a partir disso, ter uma rede mais forte", disse Raddatz.
A Sky, porém, não deverá perder sua identidade de low-cost nessa transição. A companhia manterá sua independência, marca, cultura e produto, enquanto o Abra pretende identificar áreas nas quais a atuação conjunta possa gerar ganhos.
"A Sky manterá sua independência, assim como um conselho de administração independente para acompanhar as operações e garantir uma transição tranquila para seus empregados, fornecedores, clientes e parceiros. Começaremos a trabalhar de forma coordenada em algumas frentes", afirmou.
A estratégia é semelhante à que ogrupo vem construindo entre Gol e Avianca. Um dos exemplos mais recentes está no Brasil. Há duas semanas, a Gol passou a representar comercialmente a Avianca no país, incluindo o relacionamento com agências de viagens, consolidadoras, empresas e outros parceiros comerciais. Os voos, aeronaves e operações continuam sob responsabilidade da Avianca.
O movimento inverte uma estrutura que já existia. Desde 2023, a Avianca fazia a representação comercial da Gol no país, além de mercados como Colômbia, Equador, Chile, Bolívia, Peru, países da América Central e na América do Norte.
Para Raddatz, essa integração não significa eliminar as diferenças entre as empresas. Ao contrário, o modelo do Abra prevê que as companhias preservem suas características enquanto aproveitam elementos comuns.
"Cada companhia mantém a marca, mantém a cultura, a independência, mas tem elementos comuns", afirmou. "Queremos que o passageiro, por exemplo, que tem uma experiência com a Gol tenha uma experiência consistente também se tem um voo da Avianca ou vice-versa".
Recurso premium ainda não está disponível no Brasil
O desenho aparece também nos produtos e programas de fidelidade.Gol e Avianca mantêm suas marcas, mas o Abra busca criar uma experiência que seja reconhecível dentro da plataforma.
O exemplo mais evidente hoje está no segmento premium da Avianca. A companhia apresentou nesta terça-feira, 9, a evolução do Insignia, sua experiência de Business Class nos voos de e para a Europa e Nova York operados com Boeing 787, enquanto a Gol também desenvolveu uma oferta premium própria.
Raddatz, porém, deixa claro que não há, neste momento, planos de transformar a Sky em uma companhia com a mesma proposta premium que vem passando a Avianca. O premium serve mais como exemplo de como o Abra pretende compartilhar conceitos dentro da plataforma do que como uma estratégia única para todas as empresas.
Na Avianca, a Business Class Américas já está disponível em toda a rede operada com aeronaves A320. O produto combina uma poltrona mais confortável com serviços como alimentação, amenidades, acesso a lounges e atendimento preferencial.
Já o Insignia é reservado aosvoos de longo curso da companhia com destino a Nova York e Europa. A nova configuração dos Boeing 787 terá suítes com maior privacidade e conforto a partir de 2027, além de novos recursos de entretenimento e conectividade.
No Brasil, entretanto, não há previsão de quando a Avianca poderá oferecer o produto premium recém-lançado. Segundo os executivos, uma eventual expansão dependerá da aceitação do produto, assim como ocorreu com a Business Class Américas.
Escala para reduzir custos
A busca por escala ganha ainda mais importância em um momento de pressão sobre os custos das companhias aéreas.No segundo trimestre, o Abra registrou receita de US$ 2,59 bilhões, crescimento de 17,7% em relação ao mesmo período de 2025. O prejuízo, porém, aumentou de US$ 178 milhões para US$ 766 milhões, pressionado principalmente pela alta de 80,2% nos custos de combustível de aviação.
Mesmo diante desse cenário, o grupo afirma que continua executando sua estratégia de expansão e integração.
Para Raddatz, uma plataforma maior pode justamente ajudar a enfrentar esse ambiente ao aumentar o poder de negociação e permitir que as empresas compartilhem ganhos de escala. "Queremos gerar escala e, com isso, negociar melhores condições com nossos fornecedores, reduzindo custos. Isso é importante para manter nossa proposta de tornar as viagens acessíveis a todos", afirmou.
A escala também está ligada à capacidade de oferecer uma rede mais ampla. Com Gol, Avianca e Sky, o Abra passa a ter posições mais complementares em diferentes mercados da América Latina. "Os passageiros têm acesso a mais voos, mais tipos de produtos, que a gente consiga gerar escalas, que a gente consiga negociar melhor com os fornecedores", disse Raddatz.
Aviões menores da Embraer para ampliar a rede
A compra de aeronaves menores também faz parte do desenho de longo prazo do grupo. Em julho, a Embraer (EMBJ3) anunciou a venda de até 45 aeronaves E195-E2 para o Grupo Abra. Segundo Raddatz, a aquisição tem entre seus objetivos substituir aeronaves menores que já operam nasfrotas de Gol e Avianca e, ao mesmo tempo, abrir possibilidades para novos mercados.
Há aeroportos que não comportam aeronaves maiores e cidades cuja demanda não é suficiente para justificar operações com aviões de maior capacidade. Nesse caso, aeronaves menores podem permitir que esses mercados sejam atendidos de forma rentável.
"Tem potenciais mercados que os aviões que a gente tem não conseguem chegar", afirmou. "Com a Embraer conseguimos fazer uma operação rentável porque o tamanho [da aeronave] é mais alinhado com a demanda".
O grupo ainda não definiu publicamente quais rotas ou produtos serão desenvolvidos a partir dessas aeronaves. Segundo o executivo, essas decisões ainda estão em avaliação e devem ser comunicadas nos próximos meses.
A compra, portanto, pode cumprir uma dupla função: renovar parte da frota e ampliar o alcance da rede para cidades secundárias e mercados nos quais aeronaves maiores não seriam economicamente viáveis.
Uma rede de 145 destinos
A ambição do Abra é fazer com que essas diferentes peças funcionem como uma única plataforma, ainda que as companhias continuem separadas. Hoje,além das aéreas, o grupo tem um investimento estratégico na Wamos Air, companhia de fretamento, e conta com mais de 300 aeronaves, aproximadamente 30 mil funcionários e voos regulares para mais de 25 países e mais de 145 destinos.
A escala também se estende aos programas de fidelidade. O Lifemiles e o Smiles, de Avianca e Gol, respectivamente, somam mais de 48 milhões de membros.
"Estamos trabalhando há alguns anos em como integrar a experiência, como unificar as redes, como aproveitar para dar a todos vocês uma visão de uma rede que hoje já chega a 145 destinos em 27 países e unificá-la", afirmou Adrián Neuhauser, CEO do Abra, durante o evento em Bogotá.
A estratégia, segundo o executivo, começa pela integração de elementos da experiência, mas não termina nela. "É como integrar a experiência, como unificar as redes", disse Neuhauser. "Queremos dar a todos vocês uma visão de uma rede que hoje já chega a 145 destinos em 27 países e unificá-la".
A reportagem viajou para Bogotá a convite da Avianca
