Google testa IA para reduzir impacto climático de aviões em corredor aéreo no Atlântico
Projeto apoiado pelo governo britânico vai usar inteligência artificial para prever regiões propícias à formação de rastros de condensação e desviar voos de forma pontual

O Google anunciou nesta terça-feira, 18, um projeto para usar inteligência artificial na redução do impacto climático da aviação. Batizada de Operation Blue Skies, a iniciativa vai testar mudanças pontuais em rotas de aviões para evitar a formação dos chamados contrails, os rastros brancos que aparecem no céu após a passagem de algumas aeronaves.
Esses rastros, conhecidos em português como trilhas ou rastros de condensação, se formam quando o vapor d'água presente nos gases liberados pelos motores dos aviões se condensa ao redor de partículas de fuligem em regiões muito frias e úmidas da atmosfera. Apesar de parecerem inofensivos, eles podem reter calor e, segundo o Google, respondem por cerca de um terço do impacto climático total da aviação.
O novo teste será realizado em Shanwick, região de controle aéreo que cobre parte do Atlântico Norte, entre a Europa e a América do Norte. A área concentra cerca de 5% do aquecimento global associado aos rastros de condensação, segundo estimativas apresentadas pela empresa.
Mapa do espaço aéreo de Shanwick, no Atlântico Norte, região escolhida pelo Google para testar o uso de inteligência artificial na redução do impacto climático de voos. (Google/Reprodução)
Como a IA será usada nos voos
Os modelos de inteligência artificial do Google analisam dados meteorológicos para prever quais regiões da atmosfera têm maior probabilidade de produzir rastros de condensação com efeito de aquecimento. A partir dessas informações, controladores de tráfego aéreo podem orientar pequenas mudanças de altitude ou de trajetória para determinados voos.
A ideia não é alterar todas as rotas. Apenas uma pequena parcela das aeronaves que atravessariam regiões consideradas mais propícias à formação desses rastros será desviada. Segundo os responsáveis pelo projeto, as mudanças devem permanecer dentro dos procedimentos normais de operação das companhias aéreas.
O programa terá duração de 30 meses e contará com duas fases de testes operacionais, de aproximadamente quatro meses cada. Cerca de 10 mil voos por ano, partindo de centenas de cidades, devem atravessar o espaço aéreo de Shanwick durante os períodos em que os experimentos estiverem em andamento.
O Google já vinha testando a tecnologia em parceria com empresas do setor. Entre elas estão a American Airlines, a organização europeia de controle de tráfego aéreo Eurocontrol e empresas de softwares de planejamento de voo. A diferença agora é a escala: em vez de testes isolados com uma companhia aérea, o objetivo é coordenar a estratégia dentro de uma região inteira do espaço aéreo.
Projeto tem apoio do governo britânico
A Operation Blue Skies reúne empresas, universidades e órgãos públicos do Reino Unido. A NATS, responsável por parte do controle do tráfego aéreo britânico, ficará encarregada das operações no espaço aéreo, da avaliação de segurança e do treinamento dos controladores.
O Met Office, serviço meteorológico nacional do Reino Unido, desenvolverá um sistema próprio de previsão de rastros de condensação. Pesquisadores do Imperial College London e da Universidade de Cambridge vão avaliar os resultados e verificar de forma independente os efeitos climáticos do experimento.
O projeto também conta com a participação da organização Contrails.org, especializada no estudo do fenômeno.
Parte do financiamento virá do governo britânico, por meio de um programa voltado à pesquisa no setor aeroespacial. O Google afirma que participa do projeto sem cobrar e contribuirá com o equivalente a 1,4 milhão de libras em pesquisa, trabalho de engenharia e infraestrutura de computação de alto desempenho.
Por que os rastros de aviões preocupam
O impacto climático dos aviões não vem apenas do dióxido de carbono liberado pela queima de combustível. Em determinadas condições, os rastros de condensação podem permanecer durante horas e se espalhar até formar nuvens artificiais semelhantes a cirros.
Essas nuvens podem dificultar a saída de calor da atmosfera terrestre, ampliando temporariamente o efeito de aquecimento. Nem todo rastro, porém, produz o mesmo efeito, o que torna possível concentrar as mudanças de rota apenas nos voos e regiões considerados mais problemáticos.
Essa característica também explica o interesse do setor pela tecnologia. Em tese, evitar as regiões de maior risco pode reduzir parte do impacto climático da aviação sem exigir a substituição imediata de aeronaves ou combustíveis.
Com o novo experimento, Google e parceiros querem descobrir se a estratégia funciona também quando aplicada de maneira coordenada em um corredor aéreo movimentado. Caso os resultados sejam positivos, o modelo poderá servir de referência para outros espaços aéreos e sistemas de controle de tráfego.
