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BrasilInfraestruturaACS
29/06/2026
7 min

Grande desafio da Copasa é chegar a 90% de esgoto tratado, diz CEO após privatização

Grande desafio da Copasa é chegar a 90% de esgoto tratado, diz CEO após privatização

A universalização da coleta e do tratamento de esgoto será o principal desafio da nova fase da Copasa após a privatização. Em entrevista exclusiva à EXAME, a CEO da companhia, Marília Carvalho de Melo, afirma que a empresa já alcança, em média, 99% de cobertura de abastecimento de água nos municípios onde atua, mas ainda tem cobertura de 80,04% com serviços de esgotamento sanitário.

"O nosso grande desafio é chegar aos 90% do Marco", diz a executiva, em referência à meta prevista para 2033 pelo Marco Legal do Saneamento.

Os indicadores se referem aos municípios onde a Copasa presta cada serviço. Atualmente, a companhia atende 636 dos 853 municípios mineiros com abastecimento de água, mas opera esgotamento sanitário em um número menor de cidades.

Em 273 municípios, a empresa fornece apenas água. Segundo Marília, ampliar esse atendimento dependerá da conversão dos contratos com os municípios, processo que continuará após a entrada da Equatorial.

"O novo contrato garante as metas de universalização e traz mais segurança para os municípios", afirma.

Por isso, o desafio da nova Copasa pode ser ainda maior que o previsto inicialmente. O plano anterior da companhia de investimentos até 2030 previa R$ 21 bilhões. O valor deve ser revisto pela nova controladora.

A privatização da companhia foi formalizada em 16 de junho. Definida como investidora de referência no processo, a Equatorial tornou-se a principal acionista da Copasa ao assumir 30% do capital total da empresa, em uma operação de R$ 5,5 bilhões.

Antes da venda, o governo mineiro possuía 50,03% do capital social da Copasa. Após a conclusão da operação, sua participação foi reduzida para 5,03%.

A CEO também avalia que a companhia chega preparada para a nova gestão. Segundo ela, a Copasa já estruturou mudanças internas, como a centralização das compras, a criação do Centro de Serviços Compartilhados, o fortalecimento da engenharia e um plano de investimentos aprovado até 2030.

"O novo investidor chega a uma companhia muito preparada do ponto de vista organizacional e de planejamento para que as adequações sejam feitas e o processo seja acelerado", diz.

Questionada se deseja seguir na companhia com a entrada da Equatorial, Marília diz que está à disposição.

"É claro que, neste momento de mudança, é natural que os novos investidores tragam e agreguem as suas equipes. Eu fico à disposição. Se você me perguntar se eu ficaria, sim, eu ficaria", afirma.

Leia a entrevista completa com Marília Carvalho de Melo, CEO da Copasa

Você chegou à Copasa para conduzir a reta final da privatização. Como foi concluir esse processo? É um sentimento de dever cumprido?

Eu cheguei um dia depois da promulgação da lei e no início efetivo da modelagem e da construção do processo de desestatização. Nossa principal estratégia foi a aproximação com os municípios, especialmente para a assinatura do contrato com Belo Horizonte, que era fundamental para manter o modelo de subsídio cruzado. Também estruturamos a oferta, fizemos um trabalho intenso com os órgãos de controle e com investidores. Então, a gente chega muito feliz com o que foi construído, com um investidor de referência que a gente tem certeza da qualidade, que é o Grupo Equatorial, e que trará um impulsionamento muito importante para o saneamento em Minas Gerais.

E o que a Copasa já deixou preparada para essa transição?

A Copasa entra nessa nova fase em uma condição muito diferente de outras companhias. Nós já temos um planejamento estratégico robusto, centralizamos as compras, criamos um Centro de Serviços Compartilhados, ampliamos a capacidade de investimentos, fortalecemos a engenharia, avançamos na redução de perdas e na otimização de custos. Então, a companhia entra nessa nova fase em uma condição muito favorável para dar respostas rápidas. E, por óbvio, a desestatização agrega ferramentas. A gente se livra de amarras públicas, principalmente nos processos de contratação, o que deve trazer mais eficiência.

O plano de investimentos vai até 2030. A entrada da Equatorial pode aumentar esse volume de investimentos ou o principal desafio será acelerar as obras e as contratações?

O plano aprovado vai até 2030, mas é natural que o novo investidor revise esses instrumentos. Ele não contempla, por exemplo, os 273 municípios onde hoje operamos apenas água, nem uma eventual incorporação da Copanor, que podem mudar a configuração dos investimentos. O novo investidor chega a uma companhia muito preparada do ponto de vista organizacional e de planejamento para que as adequações sejam feitas e o processo seja acelerado.

E quais serão as prioridades desses investimentos?

O principal desafio é a universalização do esgoto. Hoje temos, em média, 99% de cobertura de água nos municípios onde operamos e 80,04% de esgoto. O grande desafio é chegar aos 90% previstos no Marco do Saneamento. Os pilares dos investimentos são a universalização do esgoto, a redução de perdas, a modernização das estações de tratamento e a regularidade do abastecimento de água.

Belo Horizonte era o principal contrato para manter o subsídio cruzado da Copasa, mas ainda há municípios que não assinaram os aditivos. Em que estágio estão essas negociações e como fica essa transição para o novo controlador?

Tivemos um processo muito intenso de diálogo com os municípios nesses quase seis meses. O novo contrato garante as metas de universalização até 2033, mantém a tarifa social, amplia o atendimento à área rural e traz outras garantias para os municípios. Os municípios têm até 28 de setembro para fazer a conversão dos contratos e, pelos documentos da oferta, o novo investidor manterá até essa data as mesmas condições que negociamos. A expectativa é ampliar essa adesão até setembro. Também continuaremos a negociação com os 273 municípios onde hoje operamos apenas água, com base em um acordo já homologado pelo Tribunal de Contas, para incluir também o esgotamento sanitário.

A lei que autorizou a privatização destinou 5% do valor da operação para um Fundo Estadual de Saneamento, que tem entre suas funções garantir a modicidade tarifária. Com o aumento dos investimentos, a tarifa deve subir? Como funciona esse modelo na Copasa e qual será o papel do fundo?

O fundo foi criado e receberá 5% do valor da operação, além de outras receitas. Ele tem diversas funções, entre elas ajudar na modicidade tarifária. O nosso modelo regulatório é diferente do de São Paulo. A remuneração ocorre após o reconhecimento dos investimentos realizados. Mais investimentos têm relação com a tarifa, mas, como trabalhamos com um modelo de subsídio cruzado e mantivemos a universalização até 2033, conseguimos distribuir esses investimentos ao longo do tempo, sem grandes picos de impacto tarifário. A expectativa é impulsionar os investimentos, mantendo uma trajetória mais estável para a tarifa em Minas Gerais.

Qual é a grande obra que deve ser acelerada com a privatização?

As grandes obras estão concentradas na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde temos um sistema integrado e um adensamento populacional muito expressivo. Estamos ampliando a segurança e a produção de água nos sistemas Paraopeba e Rio das Velhas. No Paraopeba, conseguimos colocar novamente em funcionamento uma captação interrompida após Brumadinho e agora estamos fechando uma negociação com a Vale para chegar a 100% da capacidade dessa captação. No Rio das Velhas, estamos aprimorando a estação de tratamento e discutindo a construção de uma barragem para ampliar a produção.

E de esgoto? 

Do ponto de vista do esgoto, temos a modernização da Estação de Tratamento de Esgoto Onça, além da interligação dos sistemas, que também é uma obra importante. As demais obras são mais regionalizadas e vão garantir o atendimento à população dos municípios onde operamos, especialmente considerando a perspectiva de inclusão dos 273 municípios.

Marília, o que você vai fazer agora? A ideia é continuar na empresa?

Eu vim designada pelo Governo do Estado de Minas Gerais para conduzir esse processo e fazer a gestão da companhia. Eu sou da área de meio ambiente, com experiência em saneamento. É claro que, neste momento de mudança, é natural que os novos investidores tragam e agreguem as suas equipes. Eu fico à disposição. Se você me perguntar se eu ficaria, sim, eu ficaria. Mas vamos aguardar os próximos passos.

Já existe um cronograma para quando o investidor deve fazer essas mudanças ou isso ainda vai ser definido?

O que foi passado para a gente é que a expectativa é de aprovação pelo Cade em um ou dois meses. Mas não existe uma precisão sobre isso. Depois vêm as outras etapas: convocação da assembleia e todo o processo de reorganização da governança da companhia.

AutorAndré Martins
FonteExame
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