Greg Abel faz primeira aquisição como CEO da Berkshire. Mas o negócio é a cara de Buffett

Greg Abel completou apenas cinco meses no comando da Berkshire Hathaway quando colocou sua assinatura na maior aquisição desde que assumiu o cargo. No sábado, 31 de maio, a Berkshire anunciou a compra da Taylor Morrison, a sexta maior construtora residencial dos Estados Unidos, por US$ 6,8 bilhões, à vista. Com a inclusão das dívidas da empresa, o valor total da transação chega a US$ 8,5 bilhões.
O negócio tem o perfil que qualquer seguidor de Warren Buffett reconheceria imediatamente. A Berkshire foi às compras quando o mercado estava pessimista, pagou um preço atraente por um ativo de alta qualidade e apostou no longo prazo quando outros preferiam se afastar. Buffett, que segue como chairman, não poupou elogios ao sucessor. "Greg fez isso mais rápido do que eu teria feito, de forma mais suave do que eu teria feito, e eu nem falei com a CEO", disse ao canal CNBC.
Quem é a Taylor Morrison
Fundada em 1936 e sediada em Scottsdale, no Arizona, a Taylor Morrison projeta, constrói e vende casas residenciais em segmentos que vão do mercado de entrada ao luxo e às comunidades de estilo resort. A empresa opera em 12 estados americanos sob as marcas Taylor Morrison, Esplanade e Yardly, e ocupa a sexta posição no ranking da revista Builder entre os maiores construtores do país. São mais de 350 empreendimentos. A empresa tem ações listadas na Nyse.
Por onze anos consecutivos, desde 2016, a Taylor Morrison foi reconhecida como a construtora de maior confiança dos Estados Unidos pela pesquisa Lifestory Research, o maior período ininterrupto na história do prêmio.
Com juros hipotecários voltando a subir no início de 2026 e chegando a 6,30% ao ano em meados de março, a demanda por imóveis começou a recuar. A decisão do Federal Reserve de manter os juros estáveis em janeiro e março deste ano, somada à previsão de apenas um corte ao longo de 2026, reduziu a confiança do setor. As ações da Taylor Morrison vinham sofrendo. Uma das corretoras chegou a rebaixar o papel para "venda" com preço-alvo de US$ 49, contra uma recomendação anterior de US$ 85.
O preço e o múltiplo
A Berkshire pagou US$ 72,50 por ação, um prêmio de 24% sobre o fechamento da Taylor Morrison na sexta-feira anterior, de US$ 58,50. À primeira vista, o prêmio pode parecer generoso. Mas o contexto muda tudo.
Um analista da Citizens estima que a Berkshire está pagando aproximadamente 0,9 vez o valor patrimonial tangível da Taylor Morrison, com base na estimativa de valor patrimonial por ação de US$ 79,98 para 2026. A ação estava abaixo do valor justo estimado por plataformas de análise mesmo antes do anúncio da aquisição.
Em termos práticos, a Berkshire comprou uma construtora líder, lucrativa e premiada por menos do que ela vale no papel. É o manual de Buffett em estado bruto.
A lógica da aposta
Em 2025, a Taylor Morrison entregou quase 13 mil imóveis a um preço médio de US$ 597 mil, com margem bruta ajustada de 23% e retorno sobre o patrimônio de 13%. São números sólidos para uma empresa operando num setor pressionado.
A Berkshire aposta que o ciclo imobiliário vai virar e que há demanda reprimida acumulada nos Estados Unidos. A taxa de juros alta sufocou compradores, não destruiu a necessidade de moradia. Quando o crédito ficar mais acessível, a demanda represada tende a se libertar.
A transação também tem uma dimensão estratégica. A Berkshire já tem posição relevante no setor imobiliário americano: controla a Clayton Homes, maior produtora de casas pré-fabricadas do país, adquirida em 2003. Também tem um portfólio de empresas de produtos para construção que inclui nomes como Acme Brick, Benjamin Moore e Johns Manville. Além disso, opera a Berkshire Hathaway HomeServices, uma das maiores redes de corretagem residencial do país. O portfólio de ações da holding incluía, ao fim do primeiro trimestre de 2026, participações nos construtores de imóveis convencionais Lennar e NVR.
Abel sinalizou que pretende unificar as operações de construção da Berkshire numa plataforma única. Para alguns analistas, essa é uma mudança notável em relação à tradição da Berkshire de deixar as empresas adquiridas operarem de forma independente.
