Gringos voltam a comprar ações brasileiras em setembro. É hora de investir?
Estrangeiro colocou R$ 4,4 bilhões na B3 em quatro pregões seguidos; eleição e fiscal entram no radar

Depois de uma sequência de saídas em agosto, o investidor estrangeiro voltou a colocar dinheiro na bolsa brasileira, B3, em setembro. Foram quatro pregões consecutivos de entrada, entre 31 de agosto e 3 de setembro, que somaram R$ 4,4 bilhões.
O movimento chama atenção não apenas pelo volume, mas pela sequência. No dia 31 de agosto, os estrangeiros colocaram R$ 458,1 milhões na B3. No primeiro dia de setembro, foram R$ 811 milhões. A entrada cresceu para R$ 1,39 bilhão no dia 2 e chegou a R$ 1,74 bilhão no dia 3.
A virada acontece depois de um agosto marcado por fortes saídas. Em 11 de agosto, por exemplo, o gringo retirou R$ 4,7 bilhões da bolsa. No dia seguinte, foram mais R$ 1,6 bilhão em saídas. O movimento negativo continuou em boa parte da primeira metade do mês, embora tenha perdido força na segunda quinzena.
Eleição entra no radar, mas pelo fiscal
O economista, professor universitário e conselheiro da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais do Brasil (Apimec Brasil), Ricardo Coimbra, esclareceu que as eleições de 2026 podem estar no radar do estrangeiro, mas não necessariamente pela disputa política em si.
O principal foco, segundo ele, é a condução fiscal que será adotada pelo próximo governo. "Ele (gringo) está olhando o processo eleitoral, mas mais no foco do fiscal. Qual é o direcionamento que o próximo governo vai dar para o fiscal? Quais são as propostas dos candidatos em relação a essa pauta?", questionou.
A avaliação ajuda a explicar por que a movimentação do capital estrangeiro pode ganhar importância conforme a disputa presidencial avance. Para investidores globais, a questão central tende a ser menos quem vencerá a eleição e mais qual será a política econômica adotada a partir de 2027.
Ainda assim, Coimbra pondera que seria precipitado atribuir a entrada de R$ 4,4 bilhões exclusivamente à eleição.
Bolsa brasileira pode estar ficando mais atrativa
Além do cenário político doméstico, o economista aponta para fatores relacionados aos mercados globais e à própria precificação dos ativos brasileiros. Depois de um período de forte retirada de recursos em agosto, a retomada pode indicar uma percepção de que a B3 oferece espaço para recuperação.
"A boa parte desse movimento negativo de saída de agosto e uma retomada em setembro pode estar relacionada também com os movimentos dos mercados globais e a perspectiva de que em algum momento a bolsa brasileira pode ter algum tipo de recuperação dos seus ativos", disse à EXAME.
Os próprios dados mostram como o comportamento estrangeiro mudou rapidamente. Em 20 de agosto, houve uma saída de R$ 1,2 bilhão. No dia seguinte, porém, o fluxo voltou a ficar positivo, com entrada de R$ 1,76 bilhão. Depois disso, os dados ainda registraram oscilações até a virada consistente observada no fim do mês e início de setembro.
Juros também podem ajudar
Outro elemento citado por Coimbra é o cenário para a taxa de juros brasileira. Na avaliação do economista, a perspectiva para a Selic e para os próximos passos do Comitê de Política Monetária (Copom) também pode contribuir para melhorar a percepção sobre os ativos locais.
Se o ciclo de juros caminhar para baixo, ativos de risco podem ganhar espaço na carteira dos investidores, mas, para além disso, o ambiente internacional continua sendo uma variável importante para o fluxo de capital.
O especialista citou as tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã e seus possíveis impactos sobre os mercados globais. Em momentos de maior aversão ao risco, o investidor estrangeiro tende a reduzir exposição a mercados emergentes; quando o ambiente melhora, parte desse capital pode retornar.
O que o investidor brasileiro deve fazer?
Para o investidor local, a sequência de quatro dias de entradas é um sinal que merece ser acompanhado, mas não necessariamente uma indicação para correr atrás da bolsa. O ponto mais importante é observar se a entrada de capital estrangeiro vai se sustentar nas próximas semanas, na visão de Coimbra.
Quatro pregões positivos são relevantes, especialmente pelo volume de R$ 4,4 bilhões, mas ainda não são suficientes, sozinhos, para caracterizar uma mudança estrutural no comportamento do investidor internacional. A persistência do fluxo pode ser mais importante do que o número isolado.
O economista detalhou que, caso a entrada continue, o movimento pode ajudar a B3 a buscar níveis mais elevados, e considera possível que a combinação de fluxo estrangeiro, expectativa de juros e percepção sobre o cenário fiscal contribuindo para levar o Ibovespa para mais perto dos 200 mil pontos.
