Grupo assume estádio de 51 anos e investirá R$ 400 milhões para ampliar complexo esportivo
Com entrega prevista para julho de 2028, projeto amplia arquibancadas e combina futebol, shows e serviços em uma concessão de 35 anos

RESUMO +
A reforma do Estádio Serra Dourada, complexo esportivo de Goiânia, começou em julho de 2026, com investimento privado de R$ 400 milhões e entrega prevista para julho de 2028. O projeto prevê cerca de 44 mil lugares, camarotes inspirados na NFL e espaços de lazer, gastronomia e serviços para gerar receitas além dos jogos.
O clássico Estádio Serra Dourada, em Goiânia, ganhará arquibancadas ampliadas, camarotes inspirados na NFL e uma nova estrutura para receber grandes shows.
A transformação ocorrerá por meio de um investimento privado de R$ 400 milhões, que envolve a modernização do complexo esportivo, o ginásio Goiânia Arena e áreas destinadas a lazer, gastronomia e serviços. As obras começaram em julho de 2026, com entrega prevista para julho de 2028.
Inaugurado em 1975, o estádio terá capacidade para cerca de 44 mil torcedores e poderá receber até 60 mil pessoas em shows. À frente do projeto está a Construcap, grupo que controla a Urbia, gestora do Parque Ibirapuera, em São Paulo, e participa da concessionária do Mineirão, em Belo Horizonte. A empresa assumiu o complexo goiano por uma concessão de 35 anos.
A reforma também prepara uma mudança na maneira de explorar o endereço: restaurantes, academias, espaços de trabalho e camarotes utilizáveis fora das partidas devem atrair público e gerar receitas ao longo do ano. “O que custa caro num estádio de futebol é a cadeira vazia”, diz Samuel Lloyd, diretor comercial do Complexo Serra Dourada.
A preocupação tem uma razão concreta. Na fase de maturação do projeto, até 2030, a concessionária estima receber cerca de 18 jogos por ano. Para sustentar a operação, será preciso movimentar o complexo também nos dias sem futebol.
Serra Dourada aos 51 anos: estádio inaugurado em 1975 passa por modernização em projeto de R$ 400 milhões para o complexo. (Construcap/Divulgação)
Como fazer o complexo faturar nos dias sem futebol
A projeção da concessionária ajuda a explicar a estratégia: na fase de maturação do negócio, até 2030, o estádio deve receber cerca de 18 partidas por ano. Os principais clubes locais já têm seus próprios estádios, e a operação terá de disputar os jogos que exigem uma estrutura maior.
Isso deixa boa parte do calendário disponível para outras atividades. Grandes shows são uma delas, mas a empresa também quer receitas e circulação de público em dias comuns — uma segunda-feira de trabalho, uma manhã de corrida ou um jantar.
Dois edifícios existentes, posicionados atrás dos gols, terão papel nessa mudança. Os prédios Norte e Sul, que já abrigaram estruturas administrativas e associações esportivas, serão reformados. O projeto prevê a ativação de aproximadamente 6 mil metros quadrados para usos como coworkings, academias e gastronomia.
Esses espaços também poderão ser integrados à programação do estádio, com ambientes climatizados e experiências que combinem uma refeição com uma partida ou apresentação musical. “Esse espaço será movimentado com âncoras que tragam as pessoas no dia a dia. Então podem ser restaurantes, academias, espaços de trabalho”, afirma Lloyd.
A mesma lógica chegará aos camarotes. A proposta é permitir que seus contratantes utilizem os ambientes fora dos eventos, para reuniões de negócios, recepções e comemorações particulares. A concessionária pretende, assim, ampliar a utilidade comercial de espaços que costumam depender do calendário esportivo e musical.
De onde virá o dinheiro para a transformação
Segundo Lloyd, a estrutura de financiamento envolve instrumentos como debêntures, títulos de dívida emitidos por empresas. A exploração comercial do complexo dará sustentação ao negócio, com receitas de eventos, camarotes, patrocínios e contratos de exclusividade para a venda de produtos.
O executivo não detalhou quanto do investimento será financiado por cada fonte nem apresentou uma projeção de faturamento da concessionária.
Os R$ 400 milhões previstos para a modernização superam os R$ 263 milhões em investimentos nos três primeiros anos anunciados pelo governo de Goiás na formalização da concessão, em abril de 2025.
Uma das frentes comerciais já em negociação é a venda dos naming rights, o direito de associar uma marca ao nome do equipamento. Lloyd afirma que empresas com presença regional, inclusive ligadas ao agronegócio, procuraram a operação.
“Já estamos sendo procurados por algumas empresas, inclusive empresas que têm muita força local relacionadas ao agro”, diz.
Camarotes perto do campo: reforma inclui 23 suítes inspiradas em estruturas de hospitalidade da NFL. (Construcap/Divulgação)
A comercialização poderá envolver tanto o complexo quanto setores específicos. A pista de corrida e a área dedicada à prática esportiva, por exemplo, também entram no portfólio de patrocínios.
Para 2030 em diante, a concessionária estima que as atividades do complexo possam movimentar cerca de R$ 1 bilhão por ano na economia goiana. Lloyd afirma que a projeção usa como referência estudos sobre o Mineirão. O valor corresponde ao impacto econômico esperado das atividades e de sua cadeia de serviços, e não ao faturamento da operação.
O que vai mudar para quem acompanha os jogos
A intervenção mais profunda começa pelo chão. O gramado será rebaixado em aproximadamente um metro, enquanto a antiga Geral dará lugar ao prolongamento da arquibancada inferior e a novas estruturas de hospitalidade.
O objetivo é aproximar o público do campo e melhorar a visibilidade, reduzindo interferências de placas publicitárias e outros obstáculos. O gramado continuará natural.
Segundo Lloyd, a capacidade operacional antes do fechamento era de aproximadamente 34 mil torcedores. O projeto trabalha com cerca de 44 mil lugares, um acréscimo de 10 mil assentos em relação à configuração atual. A capacidade final dependerá das avaliações e autorizações dos órgãos responsáveis.
Os vestiários e a zona mista também serão reformados. Na estrutura de imprensa, a antiga tribuna do governador será convertida em espaço para os profissionais de cobertura, enquanto as atuais cabines de rádio darão lugar a camarotes. Cabines aéreas poderão atender às transmissões de televisão.
A acessibilidade atravessa essas mudanças. O projeto prevê circulação de pessoas com deficiência pelos diferentes níveis do estádio, inclusive até a área de imprensa. “Uma pessoa que usa cadeira de rodas vai conseguir chegar até o nível da cabine de imprensa. Ela vai conseguir entrar em todos os níveis do estádio, o que hoje não é possível”, afirma Lloyd.
Um complexo para o ano inteiro: modernização prevê restaurantes, espaços de trabalho e um circuito de corrida e ciclismo de 3,7 quilômetros. (Construcap/Divulgação)
Como a NFL entrou no projeto dos camarotes
Uma das referências para a reforma fica longe de Goiânia: o estádio do Dallas Cowboys, nos Estados Unidos. Foi em uma visita à casa da equipe de futebol americano que Lloyd conheceu as field suites, camarotes próximos ao nível do campo.
O conceito será adaptado ao Serra Dourada, com 23 suítes nessa configuração. Embora sejam apresentadas como camarotes ao nível do gramado, ficarão cerca de um metro acima dele, para preservar a visão sobre o banco de reservas e as placas de publicidade.
O desenho inclui ambientes climatizados, varanda, assentos e corredores de acesso. A proximidade da partida ou do show será parte do produto oferecido ao público disposto a pagar por mais conforto.
“Foi onde eu conheci pela primeira vez e pude visitar as field suites e entender o valor que isso tem para a sustentabilidade do estádio e também para o torcedor”, diz Lloyd.
A empresa combina essa referência internacional com experiências do próprio grupo. Do Mineirão, traz a operação de eventos dentro e fora do estádio. Do Ibirapuera, a tentativa de manter uma programação esportiva e de lazer capaz de atrair visitantes com frequência.
Por que a entrada de uma carreta faz diferença no negócio
Para receber grandes apresentações, o Serra Dourada precisa resolver um problema pouco visível para quem compra ingresso: levar os equipamentos até o gramado.
Antes da reforma, segundo Lloyd, o acesso tinha uma abertura de cerca de 2,30 metros. As carretas ficavam do lado de fora, e a carga precisava ser transferida para veículos menores. A operação exigia etapas adicionais para montar e desmontar as estruturas.
A modernização prevê um novo acesso para veículos pesados, permitindo a entrada de grandes carretas. A mudança deve facilitar a logística das produções e reduzir o tempo necessário para preparar o estádio entre eventos.
A capacidade prevista para shows é de até 60 mil pessoas, com ocupação também do gramado. Para esse público, o projeto inclui banheiros permanentes de alvenaria, reduzindo a dependência das instalações químicas temporárias.
O complexo já recebe grandes apresentações, muitas delas montadas no estacionamento. A proposta é ampliar as possibilidades de uso do estádio e torná-lo mais competitivo na disputa por produções nacionais e internacionais.
Transformação de R$ 400 milhões: perspectiva mostra a modernização prevista para o complexo, com entrega em julho de 2028. (Construcap/Divulgação)
O que haverá ao redor do estádio
A experiência com parques aparece na transformação do entorno. O projeto prevê um circuito contínuo de 3,7 quilômetros, com pista de corrida e caminhada e ciclovia integrada, além de um parque poliesportivo de 16,5 mil metros quadrados.
Também haverá um parque linear, com previsão de plantio de aproximadamente mil mudas de espécies nativas do Cerrado. A requalificação inclui quadras, vestiários, áreas de convivência e serviços de alimentação.
A concessionária projeta público de cerca de 700 mil pessoas por ano somente no circuito esportivo. Segundo Lloyd, a intenção é colocar a pista e a ciclovia em funcionamento já em 2027, antes da conclusão da reforma do estádio.
O aproveitamento dos edifícios existentes também delimita o alcance imobiliário do investimento. Os espaços destinados a trabalho, alimentação e academias serão instalados nas estruturas do complexo.
Lloyd afirma que o edital contempla uma área de projeção de aproximadamente 12 mil metros quadrados para um possível empreendimento imobiliário. Esse desenvolvimento, porém, está fora do plano aprovado e do orçamento de R$ 400 milhões apresentado para a modernização.
Como as obras vão conviver com os eventos
O estádio está fechado desde julho de 2026 e deve reabrir em julho de 2028. O restante do complexo mantém atividades durante a reforma, em um planejamento que a concessionária chama de “Obra Viva”.
Estacionamentos e áreas externas continuam recebendo eventos, assim como o ginásio Goiânia Arena. O ginásio terá intervenções por etapas e, segundo Lloyd, uma breve interrupção de atividades está prevista para o primeiro semestre de 2027, aproveitando um período de menor demanda.
As melhorias planejadas incluem acessibilidade, circulação e conforto. Novos camarotes, áreas climatizadas e uma mudança na cobertura para aprimorar a acústica e a aparência também estão no radar da empresa, mas foram apresentados pelo executivo como possibilidades em avaliação.
“Tenho corridas acontecendo, tenho shows acontecendo e o estádio está sendo reformado desde julho deste ano”, diz Lloyd.
A concessionária estima cerca de 2,5 mil postos de trabalho diretos e indiretos durante o período de obras e aproximadamente 3 mil após a entrega, considerando as atividades do complexo.
Um dos símbolos do futebol goiano: estádio está fechado para obras, com reabertura prevista para julho de 2028. (Construcap/Divulgação)
Como modernizar um estádio que faz parte da memória da cidade
Inaugurado em 9 de março de 1975, o Serra Dourada recebeu 79.610 pessoas em sua partida de estreia, recorde de público registrado pela Secretaria de Esporte e Lazer de Goiás. Ao longo das décadas, recebeu jogos da seleção brasileira, finais da Copa do Brasil e da Copa Sul-Americana e partidas da Copa América de 1989. Também foi palco de um show de Paul McCartney, em 2013.
O projeto original é de Paulo Mendes da Rocha. Segundo Lloyd, a reforma preservará suas linhas arquitetônicas, com intervenções concentradas na atualização dos espaços, nos acessos e na infraestrutura para torcedores, artistas e produtores de eventos.
A memória esportiva é um ativo da concessão, mas não garante a ocupação do calendário. A empresa precisará negociar com clubes que já dispõem de suas próprias casas e atrair produções que encontram alternativas em outras cidades.
No projeto, essa disputa começa em detalhes concretos: a carreta que conseguirá chegar ao gramado, o camarote que poderá receber uma reunião durante a semana e os edifícios atrás dos gols que passarão a abrigar atividades diárias.
