Grupo familiar de turismo de R$ 2 bilhões lança negócio para conectar agências e fornecedores
Konvia amplia a atuação do Grupo Kontik na distribuição de viagens para agências; companhia prevê faturar R$ 2,5 bilhões em 2026 e começa a nova operação pelo Rio de Janeiro

O mercado de consolidação de viagens funciona como uma ponte entre companhias aéreas, hotéis e outros fornecedores e as agências de viagens. As consolidadoras ajudam essas agências a acessar produtos turísticos, principalmente passagens aéreas, sem que precisem manter toda a estrutura operacional e financeira necessária para negociar diretamente com os fornecedores.
Para atacar esse mercado, o Grupo Kontik, empresa familiar de turismo com 72 anos de história, lança a Konvia, nova empresa que funcionará como consolidadora de viagens. A companhia será comandada por Eduardo Bernardes, executivo que passou 23 anos na Gol e chegou à vice-presidência comercial e de receitas da companhia aérea. A proposta é combinar acesso a fornecedores, atendimento e tecnologia para ajudar as agências a vender mais e reduzir o trabalho operacional.
A aposta ocorre em um momento em que as agências precisam aumentar a produtividade e, ao mesmo tempo, lidar com a pressão de plataformas digitais e novos sistemas de distribuição. Para a Kontik, há espaço para modernizar um segmento em que a relação entre agências e consolidadores ainda depende de processos pouco automatizados.
"Nossa missão é simplificar processos, compartilhar conhecimento e colocar a tecnologia a serviço das agências, sem substituir o relacionamento humano", afirma Bernardes.
A Konvia começa sua atuação pelo Rio de Janeiro e pretende chegar a São Paulo em seguida. A estratégia é crescer de forma gradual, começando com cerca de 50 agências cadastradas no Rio no curto prazo. No grupo, a expectativa é que o faturamento cresça de R$ 2 bilhões em 2025 para R$ 2,5 bilhões em 2026.
Uma nova frente
A entrada na consolidação faz parte de uma estratégia maior do Grupo Kontik de diversificar seus negócios. Fundado em Salvador, o grupo passou boa parte de sua história concentrado no turismo corporativo. A mudança de Salvador para São Paulo marcou uma das primeiras decisões para ampliar a atuação nacional.
No início dos anos 2000, veio outra mudança. A empresa decidiu investir no desenvolvimento próprio de tecnologia, com a criação da DN IT Service.
A estratégia ajudou o grupo a construir uma estrutura tecnológica própria e, posteriormente, abrir novas frentes. Em 2011, surgiu a Zupper, operação online voltada ao consumidor. Depois veio a Kontrip, criada para atender pequenas e médias empresas, além da Inovents, voltada a eventos corporativos.
Em 2026, o grupo também entrou no segmento de viagens de luxo com a Koncept. “Quando nossos clientes corporativos precisavam organizar viagens de lazer, nós os encaminhávamos para agências parceiras. A partir daí, identificamos a oportunidade de criar uma operação própria e capturar as sinergias que poderiam ser geradas dentro do grupo”, afirma Eduardo Neto, CEO do Grupo Kontik.
A Konvia completa esse movimento ao atacar outro elo da cadeia: a distribuição de produtos turísticos para agências. “A consolidação nada mais é do que você servir o agente de viagem”, diz Neto.
Por que a Kontik quer uma consolidadora
Na prática, uma consolidadora funciona como uma infraestrutura para agências que preferem não manter determinadas estruturas próprias de crédito, pagamentos, relatórios e relacionamento com fornecedores. A maior parte do negócio está relacionada à emissão de passagens aéreas, embora a operação também possa envolver hotéis e outros produtos.
A parceria entre Bernardes e Neto começou antes da criação da Konvia. A decisão pela nova marca foi tomada depois de um período de estudos com profissionais que já atuaram na consolidação. A conclusão foi que havia espaço para uma empresa que combinasse atendimento e tecnologia, em vez de competir apenas por acesso a fornecedores.
"Hoje, o segmento de consolidação já tem uma capacidade tecnológica muito maior para agregar conteúdos do que tinha 20 anos atrás. Mas a tecnologia, sozinha, não é um diferencial. O diferencial é o que você faz com essa tecnologia para resolver o problema real do cliente”, diz Bernardes.
A escolha do Rio de Janeiro não foi casual. O estado é um dos maiores mercados brasileiros em demanda turística. Apenas a capital recebeu 12,5 milhões de turistas em 2025, segundo levantamento da Prefeitura. A Riotur aponta que o turismo nacional respondeu por 71,5% do impacto econômico total na cidade, o equivalente a R$ 19,5 bilhões
Há ainda uma questão competitiva. Na avaliação do executivo, o mercado carioca é menos atendido em soluções e atendimento para agências de viagens do que São Paulo, por exemplo.
A companhia começará com seis funcionáeios. A meta inicial é cadastrar aproximadamente 50 agências no mercado carioca. Depois de estabilizar a operação, o plano é levar a consolidadora para São Paulo.
Bernardes afirma que o objetivo não é crescer rapidamente nos primeiros meses. "Eu não tenho pressa de fazer um crescimento rápido e no curto prazo. O que eu quero é crescer de maneira consistente, aproveitando e capturando essa janela de oportunidade", afirma.
O desafio de convencer as agências
Um dos principais obstáculos da Konvia será conquistar espaço em um mercado no qual as agências já trabalham com outros consolidadores. Bernardes diz que a fidelidade é baixa. Poucas agências mantêm uma relação exclusiva com uma única consolidadora. Isso abre uma oportunidade para uma empresa nova, mas também mostra que o serviço precisa gerar resultado para manter o cliente.
"Nosso indicador de sucesso vai ser se a agência de viagem que é o nosso cliente está conseguindo aumentar os seus ganhos, se ela está conseguindo crescer o seu volume", afirma.
A proposta é retirar tarefas operacionais do agente para que ele tenha mais tempo para vender e atender o consumidor.
IA será parte da aposta tecnológica
O Grupo Kontik anunciou investimentos de R$ 85 milhões em inovação até 2028. Desse total, R$ 50 milhões estão previstos para 2026. A infraestrutura será compartilhada pelas empresas do grupo, que poderão incorporar diferentes módulos conforme as necessidades de cada canal de venda.
A Kontik já desenvolve tecnologia própria para suas empresas, com uma base que reúne funções como busca, reserva, emissão, cancelamento e reembolso. A estrutura permite criar módulos específicos para cada negócio, incluindo a consolidação. Na fase inicial, porém, a Konvia utilizará uma plataforma já disponível no mercado enquanto a nova solução própria é desenvolvida, com previsão de lançamento para 2027.
A Konvia pretende usar inteligência artificial, integração de dados e automação para reduzir tarefas operacionais. A ideia é que o agente passe menos tempo em processos administrativos e mais tempo na relação com o cliente.O grupo também criou um laboratório dedicado a testar novas tecnologias e inteligência artificial, com quatro profissionais vindos de setores como bancos e comércio eletrônico. A missão é testar novas aplicações e transformá-las em produtos.
