Grupo privado banca R$ 10 milhões para redesenhar avenida dos arranha-céus em Balneário Camboriú
Mais de 40 empresas vão financiar os estudos para reurbanizar 4,5 quilômetros da Avenida Brasil; projeto será entregue à prefeitura, que decidirá sobre a execução

RESUMO +
Mais de 40 empresas vão bancar R$ 10 milhões em estudos para a reurbanização da Avenida Brasil, em Balneário Camboriú, com conclusão prevista para 2027. O projeto, coordenado pelo Instituto +BC, entidade sem fins lucrativos, redesenhará 4,5 quilômetros da via; a execução caberá à prefeitura e pode superar R$ 300 milhões, segundo estimativa preliminar do instituto.
Balneário Camboriú, em Santa Catarina, é lembrada pelos prédios altos e a transformação urbana acelerada nas últimas décadas. Agora, um grupo de empresários locais quer interferir também no que acontece no nível da rua.
Mais de 40 empresas de setores como construção civil, hotelaria, turismo, educação, academias e comércio se reuniram para bancar os estudos de reurbanização da Avenida Brasil, principal corredor comercial da cidade catarinense.
O plano prevê redesenhar cerca de 4,5 quilômetros da via, com mudanças em calçadas, paisagismo, mobilidade, acessibilidade e mobiliário urbano — além de uma das intervenções mais complexas: levar para o subsolo a atual rede aérea de energia e telecomunicações.
A estimativa é gastar cerca de R$ 10 milhões apenas na elaboração dos estudos e projetos técnicos, pagos com dinheiro privado. Quando o trabalho estiver pronto, será entregue à Prefeitura de Balneário Camboriú, que poderá utilizá-lo para licitar a execução. O instituto calcula preliminarmente que colocar todas as intervenções em prática poderá exigir mais de R$ 300 milhões, embora o orçamento definitivo só seja conhecido depois da conclusão dos projetos.
O grupo é organizado pelo Instituto +BC, entidade sem fins lucrativos criada em 2017. Segundo Marcos Gracher, presidente da instituição, a lógica é financiar uma etapa que muitas vezes trava grandes intervenções públicas: a elaboração de projetos detalhados.
“A gente faz esses projetos, não executa nada, mas doa para o município visando melhorar e dar agilidade para o poder público”, diz Gracher.
Por que empresários estão pagando por um projeto público
A justificativa do instituto combina interesse coletivo e interesse econômico. Na visão de Gracher, melhorar a infraestrutura da cidade beneficia moradores e visitantes, mas também cria um ambiente melhor para as próprias empresas instaladas no município.
A composição do grupo ajuda a explicar essa lógica. Não são apenas incorporadoras e construtoras. Entre os integrantes há empresas ligadas a hotéis, universidades, academias, atrações turísticas, comércio e outros serviços.
“Se a cidade vai bem, nossos negócios dos empresários que fazem parte também vão bem”, afirma Gracher.
Segundo ele, o grupo reúne integrantes da construção civil, hotelaria e do trade turístico, incluindo negócios ligados às atrações da cidade.
Hoje, o instituto é financiado pelas próprias empresas participantes. Há contribuições recorrentes e, dependendo do projeto, podem ocorrer aportes adicionais. No passado, diz Gracher, empresas diretamente relacionadas a determinada intervenção chegaram a contribuir com valores maiores.
O instituto sustenta que o dinheiro privado permite contratar equipes especializadas para desenvolver os projetos antes de entregá-los ao poder público. A execução das obras, porém, fica completamente fora de sua atuação.
“Todo o dinheiro do instituto vem de doações dos seus membros. É todo dinheiro privado. A gente paga os projetos”, afirma o presidente.
O que deve mudar na Avenida Brasil
O projeto ainda está em desenvolvimento, e justamente por isso parte das decisões permanece em aberto.
Entre os estudos previstos estão topografia, circulação de veículos, fluxo de pessoas, paisagismo, mobiliário urbano, acessibilidade, ciclofaixas e organização da comunicação visual dos estabelecimentos comerciais. A ideia também é discutir quanto espaço deve ser destinado a carros, bicicletas e pedestres.
Um dos pontos mais delicados será a fiação subterrânea. A Avenida Brasil está cercada por edifícios de grande porte, o que significa uma demanda elevada de energia concentrada em uma área pequena. Segundo Gracher, essa característica torna o enterramento da rede uma das etapas tecnicamente mais complexas do projeto.
O próprio instituto ainda não sabe, por exemplo, quantos estabelecimentos comerciais serão diretamente afetados pela intervenção ou quantas pessoas circulam diariamente pela avenida.
Essas informações fazem parte dos levantamentos iniciais. “Quantos carros passam dentro da Brasil, quantas pessoas circulam por ali, a quantidade de comércio, todos esses dados a gente está levantando”, diz Gracher.
A intenção é concluir o conjunto de projetos em 2027. A partir daí, caberá à prefeitura decidir como e quando transformar os estudos em obras, buscar recursos e realizar as licitações.
O instituto também montou um grupo de trabalho com representantes do poder público e da iniciativa privada. Segundo Gracher, participam integrantes de áreas municipais como planejamento e trânsito, além de entidades da sociedade civil e representantes do comércio e da hotelaria.
Novo desenho urbano: projeto prevê requalificar cerca de 4,5 quilômetros da Avenida Brasil, com novas calçadas, paisagismo, mobiliário e mudanças na circulação (Instituto +BC/Divulgação)
De onde vem a estimativa de R$ 300 milhões
Os aproximadamente R$ 10 milhões bancados pelos empresários não devem ser confundidos com o custo da reurbanização.
Esse dinheiro será usado na preparação dos diferentes projetos necessários para que a intervenção possa, no futuro, ser licitada. A estimativa superior a R$ 300 milhões se refere à eventual execução completa das soluções atualmente imaginadas.
É, por enquanto, uma projeção preliminar. Como os estudos de engenharia ainda não terminaram, ainda não existe um orçamento executivo fechado para a obra nem garantia de que todas as intervenções previstas serão implementadas.
Gracher estima que a preparação dos projetos leve aproximadamente dois anos e cita a rede subterrânea como uma das razões para o custo elevado. Para ele, porém, ter projetos prontos também aumenta a possibilidade de buscar recursos públicos de outras esferas de governo
A escolha da avenida acompanha a própria transformação de Balneário Camboriú. O município tinha 139.155 habitantes no Censo de 2022 e chegou a uma população estimada de 154.525 pessoas em 2026, segundo o IBGE. Tudo isso está concentrado em apenas 45,2 quilômetros quadrados.
A pressão urbana é ainda maior porque a população residente representa apenas parte de quem utiliza a infraestrutura local. Balneário Camboriú é um dos principais destinos turísticos do litoral catarinense e historicamente recebe um volume de visitantes muito superior à sua população fixa durante a temporada.
O crescimento também aparece no mercado imobiliário. Em maio deste ano, o preço médio anunciado de imóveis residenciais na cidade era de R$ 15.215 por metro quadrado, segundo o FipeZap, praticamente o maior valor entre os municípios acompanhados pelo indicador.
Gracher diz ter acompanhado essa mudança de perto. Nascido em Balneário Camboriú, ele lembra de uma cidade cuja dinâmica era fortemente concentrada nos meses de verão.
“Quando eu era pequeno, a gente tinha o verão cheio. Hoje, inverno ou verão, não muda nada. Vai passar meia-noite na Avenida Brasil, está cheia”, diz.
Na avaliação dele, a chegada de moradores de outras cidades, empresários e compradores de imóveis ajudou a alimentar a valorização imobiliária e a ocupação durante todo o ano.
É justamente esse crescimento que agora impõe novos desafios. Quanto mais prédios, moradores, turistas e negócios, maior a pressão sobre energia, drenagem, trânsito, calçadas e espaços públicos.
Quais outros projetos o grupo já bancou
A Avenida Brasil não é a primeira intervenção desse tipo patrocinada pelo instituto.
Criada em 2017, a entidade participou da preparação de estudos ligados ao alargamento da Praia Central e também financiou o projeto de reurbanização da orla. Segundo Gracher, o projeto da orla custou aproximadamente R$ 4 milhões e foi posteriormente entregue ao município.
O instituto também participou recentemente da atualização de um projeto ligado ao Parque Inundável Multiuso do Rio Camboriú. De acordo com Gracher, havia prazo curto para atualizar a documentação necessária à obtenção de R$ 73 milhões do governo federal. A entidade bancou a revisão e entregou o material à empresa municipal de saneamento para que fosse apresentado dentro do prazo.
Para Gracher, esse histórico resume o modelo criado pelo grupo: os empresários bancam a fase intelectual dos projetos e deixam ao poder público a decisão sobre executá-los.
Na Avenida Brasil, porém, a escala é maior. Além da complexidade técnica, a intervenção será feita no coração comercial de uma cidade que cresceu para cima em ritmo acelerado.
