Grupo que nasceu de bicicleta e apito, celebra 40 anos e fatura R$ 2,4 bi
Com quase 40 mil funcionários e atuação em 11 estados, Orbenk mira facilities especializados e investe R$ 30 milhões em nova sede de 4,6 mil m² em Joinville

No início dos anos 1970, aos 19 anos, Alcides Benkendorf deixou o interior de Santa Catarina e se mudou para Joinville para servir o Exército. Para complementar a renda, começou a fazer pequenos trabalhos para garantir o sossego dos moradores. Em troca, muitas vezes recebia um singelo café da manhã. Seu patrimônio de trabalho se resumia a uma bicicleta e um apito, usado para anunciar sua presença durante as rondas noturnas.
Nascia ali o embrião do negócio que mais tarde se transformaria na Orbenk. Décadas depois, a bicicleta e o apito deram lugar a um grupo com quase 40 mil funcionários, operações em 450 cidades de 11 estados e faturamento superior a R$ 2,4 bilhões por ano.
A bicicleta havia sido comprada por Alcides quando tinha apenas 13 anos e acabou se tornando sua principal ferramenta de trabalho. A partir das rondas, ele criou a primeira empresa de vigilância de Santa Catarina e, posteriormente, a primeira escola de formação de vigilantes do estado. Nos anos 1980, o negócio avançou sobre contratos com indústrias e bancos e incorporou também serviços de limpeza e conservação.
A transformação ganhou escala nas décadas seguintes. Nos anos 1990, a empresa expandiu a atuação para Florianópolis e passou a usar o nome Orbenk, resultado da união dos termos “Organização” e “Benkendorf”. Em 2003, cruzou as fronteiras catarinenses com o início das operações no Paraná.Hoje, o grupo reúne operações de limpeza profissional, segurança patrimonial, serviços de apoio e alimentação e atende mais de 2 mil clientes ativos no país.
O salto mais recente ajuda a dimensionar o tamanho alcançado pela companhia. Apenas em 2025, o faturamento avançou 36% e ultrapassou R$ 2,4 bilhões. Para 2026, a projeção é crescer outros 10,5%. Nos exercícios seguintes, a expectativa é manter expansão média de aproximadamente 6% ao ano, acumulando avanço próximo de 25% até 2030.
Mas o próximo ciclo não está baseado apenas em crescer mais. A estratégia passa também por consolidar as novas estruturas para não perder a qualidade do serviço oferecido, que é uma referência ja consolidada, aos novos clientes.
A Orbenk vem concentrando esforços em operações de facilities especializados, principalmente em ambientes de alta complexidade e fortemente regulados, como aeroportos, hospitais, portos e grandes indústrias. São contratos nos quais limpeza, segurança e serviços de apoio deixam de ser atividades periféricas e passam a fazer parte diretamente do funcionamento da estrutura do cliente.
Esse perfil exige mão de obra mais qualificada, equipamentos específicos, tecnologia, monitoramento permanente e capacidade de resposta rápida. Em contrapartida, são operações de maior valor agregado, segmento no qual a companhia pretende concentrar uma parcela crescente de sua expansão.
A carteira atual já mostra esse movimento. O grupo presta serviços para operações como Tigre Tubos e Conexões, Floripa Airport, Kellanova, Unimed, Thyssenkrupp e Porto de Itapoá. Mais recentemente, conquistou uma operação no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, o maior e mais movimentado aeroporto da América Latina.
A presença em São Paulo começou há sete anos e ganhou força nos últimos exercícios. Somente em 2025, o número de colaboradores da Orbenk no estado cresceu 69%. “Temos investido de forma contínua na qualificação da mão de obra, inteligência de mercado, gestão de resultados e tecnologia de ponta para sustentar nosso crescimento”, afirma Ricardo Wasem, diretor Comercial do Grupo Orbenk.
Segundo o executivo, a estratégia é avançar de forma cada vez mais seletiva, priorizando contratos de maior valor agregado e operações que demandem elevado nível de especialização e complexidade.
A diversificação também teve papel importante na construção da escala atual. Ainda nos anos 2000, a aquisição da Sepat levou o grupo para o segmento de alimentação. Hoje, são fornecidas mais de 1 milhão de refeições por dia em hospitais, escolas, indústrias e outros estabelecimentos.
O crescimento trouxe, ao mesmo tempo, a necessidade de profissionalizar a estrutura de gestão. Desde 2017, quando Ronaldo Benkendorf assumiu a presidência, a companhia vem reforçando governança, inteligência de mercado e processos internos. Em 2026, iniciou uma reorganização destinada a sustentar a próxima etapa de expansão.
“Em 2025 tivemos um salto expressivo em nosso faturamento. Para os próximos anos, prevemos um ritmo amparado por uma estratégia que combina eficiência operacional, inovação e valorização das pessoas”, afirma Ronaldo.
Uma das expressões mais visíveis dessa nova fase está justamente em Joinville.A nova sede do grupo recebeu investimento aproximado de R$ 30 milhões, tem 4,6 mil metros quadrados e foi planejada para reunir cerca de 500 profissionais ligados ao Centro de Serviços Compartilhados e à administração das empresas. O empreendimento mantém o centro de decisões da companhia na cidade onde sua história começou.
O crescimento físico vem acompanhado de investimentos em tecnologia. Em 2025, a companhia aplicou mais de R$ 5 milhões em pesquisa, desenvolvimento e capacitação.
Nas operações, equipamentos como varredeiras, drones e robôs autônomos de limpeza passaram a dividir espaço com milhares de profissionais. Algumas das soluções são customizadas ou importadas especialmente para atender às necessidades de determinados contratos.
O controle das atividades também ganhou uma camada de dados. Indicadores acompanhados em tempo real permitem às equipes monitorar o desempenho dos contratos, identificar não conformidades, acelerar respostas a ocorrências e buscar ganhos de eficiência.
Na formação das equipes, outra aposta foi a criação, em 2025, da Universidade Corporativa Orbenk, a UniOrbenk. A estrutura reúne cerca de 275 cursos online, além de treinamentos presenciais e síncronos destinados ao desenvolvimento dos colaboradores.
Apesar do avanço da automação, há uma característica que continua definindo esse mercado: facilities é essencialmente um negócio de pessoas. E, no caso da Orbenk, isso significa administrar uma força de trabalho próxima de 40 mil profissionais espalhados pelo país.
A dimensão ganha outra perspectiva quando se olha para além dos crachás. Em um exercício aproximado, considerando três pessoas por núcleo familiar, os empregos mantidos pelo grupo estariam relacionados a um universo potencial de cerca de 120 mil pessoas. O Censo 2022 aponta média de 2,79 moradores por domicílio no Brasil, o que mostra que a conta de três pessoas funciona como uma referência arredondada.
Em termos populacionais, 120 mil habitantes correspondem ao porte de uma cidade média. Para uma comparação catarinense, seria praticamente uma Tubarão inteira, município com população estimada em cerca de 118 mil habitantes.
Programa sonhos é transformador
É justamente quando os números alcançam essa escala que as histórias individuais ganham outro peso. Em 2018, a companhia criou o Programa Sonhos, iniciativa destinada a transformar desejos pessoais dos colaboradores em projetos realizados com apoio da empresa.
Os sonhos podem atender ao próprio funcionário, aos familiares ou até beneficiar instituições e comunidades das quais ele participa. As propostas estão divididas nas categorias Saúde & Bem-Estar, Desenvolvimento, Lazer & Qualidade de Vida e Cultura e Comunidade.
É nesse ponto que os números de uma companhia bilionária ganham rosto. A cozinheira Izza Mara Bárbara, mãe de dois filhos, queria viajar de avião e levar a família ao Beto Carrero World. O pedido acabou selecionado pelo programa.
Já a profissional de limpeza Cleia Medeiros Ferraz, de Pelotas, no Rio Grande do Sul, escolheu um sonho coletivo. Integrante de um clube de mães que atende mulheres, jovens e crianças acolhidos em situações de violência, pediu apoio para concluir a reforma da sede da instituição e manter os cursos realizados no espaço.
Em Florianópolis, o vigilante José Ricardo Dias Borda decidiu realizar não um desejo próprio, mas o da mulher: conhecer uma girafa pessoalmente.Desde sua criação, o Programa Sonhos já contemplou mais de 30 colaboradores em cidades de Santa Catarina e também no Paraná e no Rio Grande do Sul.
A iniciativa se conecta ao conceito de cuidado, que passou a ocupar espaço no posicionamento institucional do grupo e que a empresa procura aplicar tanto na relação com clientes quanto com seus próprios funcionários.A escala atual tornaria quase irreconhecível o negócio para aquele jovem de 19 anos que percorria as ruas de Joinville.
Décadas depois, a bicicleta e o apito deram lugar a um grupo com quase 40 mil funcionários e receita superior a R$ 2,4 bilhões. O desafio agora é avançar em um mercado de facilities cada vez mais especializado e tecnológico sem perder de vista o elemento que esteve presente desde a primeira ronda: as pessoas.
