Grupo Sabin compra laboratório no Amapá e amplia presença no Norte do Brasil
Em entrevista exclusiva à EXAME, a CEO Lídia Abdalla revela detalhes da nova aquisição, mantém a projeção de faturamento de R$ 2 bilhões e antecipa planos de expansão até 2028

O Grupo Sabin, empresa de medicina diagnóstica do Brasil, acaba de dar mais um passo em seu plano de expansão nacional. A companhia adquiriu o laboratório Unilab, no Amapá, e passa a atuar em 15 estados brasileiros, além do Distrito Federal.
A aquisição marca a entrada do grupo em seu quinto estado da região Norte, onde já mantém operações no Amazonas, Pará, Roraima e Tocantins. Com o novo negócio, o Sabin chega a 374 unidades de atendimento distribuídas por 80 cidades brasileiras.
Em entrevista exclusiva à EXAME, Lídia Abdalla, CEO do Grupo Sabin, afirma que a operação faz parte de uma estratégia de crescimento iniciada há 14 anos, que busca ampliar o acesso aos serviços de saúde em regiões distantes dos grandes centros econômicos do país.
"Sempre miramos estados que tenham oportunidades para serviços de medicina diagnóstica", afirma a executiva.
A aquisição também acontece em um momento de retomada das compras de empresas pelo grupo, após um período de maior cautela diante dos juros elevados e das mudanças nas avaliações dos ativos.
O valor da transação não foi divulgado por questões de confidencialidade.
Por que o Sabin decidiu investir no Amapá?
Fundado em Brasília, em 1984, pelas bioquímicas Janete Vaz e Sandra Soares Costa, o Grupo Sabin nasceu como um pequeno laboratório de análises clínicas com apenas quatro profissionais. O projeto de expansão geográfica, no entanto, começou em 2012, afirma a CEO. Desde então, a companhia passou a avaliar mercados considerando fatores como infraestrutura logística, disponibilidade de profissionais qualificados, concorrência e características socioeconômicas de cada região.
Hoje, o Grupo Sabin já soma mais de 7,4 mil funcionários, cerca de 7 milhões de clientes atendidos e 374 unidades em 80 cidades, distribuídas por 15 estados e pelo Distrito Federal.
A quantidade de unidades do Grupo já considera a Unilab, que no Amapá possui oito unidades, sendo seis em Macapá e duas em Santana, município próximo à capital.
Segundo Abdalla, há uma vantagem em adquirir uma empresa em vez de iniciar uma operação do zero.
"Eu já chego em uma região com posicionamento em duas cidades, com oito unidades de atendimento. Já tenho uma estrutura de funcionários e profissionais e uma carteira de clientes", afirma.
A estratégia também ajuda a enfrentar um dos principais obstáculos à expansão dos serviços de saúde em regiões mais afastadas: a dificuldade de encontrar mão de obra especializada.
Além das análises clínicas, serviço atualmente oferecido pelo Unilab, o grupo estuda ampliar o portfólio no estado com vacinação e atenção primária à saúde, por meio da Amparo Saúde, empresa que integra o grupo.
Ainda não há cronograma definido para a implementação desses novos serviços.
Hoje, o Grupo Sabin já soma mais de 7,4 mil funcionários, cerca de 7 milhões de clientes atendidos e 374 unidades em 80 cidades (Leandro Fonseca/Divulgação)
O desafio de levar exames para uma região de difícil acesso
A entrada no Amapá envolve um desafio adicional: a logística.
O estado apresenta particularidades geográficas que dificultam o transporte terrestre de equipamentos, insumos e amostras para outras regiões do país.
Para Abdalla, porém, essa não é uma realidade desconhecida pelo grupo.
Quando o Sabin iniciou suas operações em Manaus, no Amazonas, precisou transportar equipamentos e instrumentos por embarcações, já que determinados materiais não podiam ser enviados por avião e não havia alternativa rodoviária.
A experiência contribuiu para desenvolver um modelo de operação baseado na descentralização do processamento de exames.
Em vez de coletar amostras e encaminhar a maior parte delas para grandes centros, a companhia investe na instalação de estruturas técnicas regionais.
"Hoje, em torno de 90% dos exames são feitos localmente. Apenas aqueles exames especializados é que virão para Brasília", afirma Abdalla, ao explicar o modelo adotado pelo grupo.
Entre os exames que podem demandar processamento no núcleo técnico principal, localizado em Brasília, estão análises especializadas de toxicologia, biologia molecular e genética.
No Amapá, o plano é avaliar a estrutura existente e realizar investimentos em equipamentos, tecnologia e capacitação profissional ao longo do processo de integração.
A executiva destaca que o processamento local pode reduzir o tempo de espera por resultados, especialmente em situações em que o médico precisa de informações para definir rapidamente um tratamento.
"São exames que muitas vezes o médico precisa com urgência, precisa de um resultado rápido, no mesmo dia. Nós conseguimos levar esse diferencial para essas regiões", diz.
A integração também prevê a implementação de um sistema informatizado único, que permite ao paciente acessar seu histórico de exames mesmo quando atendido em unidades de diferentes estados.
Região Norte já concentra 50 unidades do Sabin
Com a aquisição do Unilab, o Sabin passa a contar com 50 unidades de atendimento na região Norte, ante 42 anteriormente.
O número representa aproximadamente 13,4% das 374 unidades de atendimento da companhia no Brasil.
A região está entre as prioridades de expansão do grupo, ao lado do Centro-Oeste.
A presença do Sabin no Norte também acompanha oportunidades econômicas em estados que podem receber novos investimentos em infraestrutura, indústria e exploração de recursos naturais.
Questionada sobre a possibilidade de projetos de exploração de petróleo no Amapá influenciarem a decisão de investimento, Abdalla reconhece que o potencial econômico é considerado, mas ressalta que esse não foi o principal fator para a aquisição.
"Isso nos motiva também. A gente acompanha todos os estados, mas esse não é o fator principal. A gente já investe na região Norte há muitos anos", afirma.
Para a CEO, a expansão da medicina diagnóstica deve considerar não apenas o crescimento econômico, mas também a necessidade de ampliar o acesso à saúde.
Apesar do avanço regional, o grupo ainda não possui operações no Acre e em Rondônia.
Os dois estados estão no radar da companhia, mas não há prazo definido para uma eventual entrada nesses mercados.
Sabin mantém meta de faturamento de R$ 2 bilhões
A nova aquisição acontece em um ano de crescimento para o Grupo Sabin.
Em fevereiro, Abdalla havia antecipado à EXAME a expectativa de alcançar R$ 2 bilhões em faturamento em 2026.
"A projeção de faturamento de R$ 2 bilhões está mantida", afirma.
Além das aquisições, o crescimento orgânico continua sendo uma das prioridades da companhia.
O plano inicial para 2026 previa a inauguração de 16 unidades, mas a expectativa é que o grupo possa chegar a 20 novas operações até dezembro.
Entre as cidades que receberam novas unidades estão Belém, Boa Vista, Brasília, Campinas, Jacareí e Londrina.
O planejamento também contempla novas operações em Blumenau, Florianópolis e Ribeirão Preto.
As inaugurações incluem serviços de análises clínicas, vacinação e atenção primária à saúde.
Novas aquisições estão no radar até 2028
O movimento no Amapá não deve ser o último. Segundo Abdalla, o Sabin já analisa novas oportunidades de fusões e aquisições em diferentes regiões brasileiras, com projetos de expansão previstos até o final de 2028.
A executiva não revela quantas empresas estão sendo avaliadas nem quais estados poderão receber os próximos investimentos.
"Temos vários [negócios] que estamos estudando, analisando. Temos projeção para os próximos dois anos, considerando até o final de 2028, de entrada em outras regiões e estados", afirma.
A estratégia, porém, passou por ajustes diante do cenário macroeconômico.
Com os juros mais elevados, a companhia se tornou mais seletiva na avaliação de potenciais aquisições.
"Com a taxa de juros mais alta, o retorno do investimento fica também mais alongado. Então, a gente olha de uma maneira mais criteriosa, mais seletiva", diz.
Apesar disso, o grupo continua interessado em oportunidades de compra em todo o território nacional, inclusive em estados onde já possui operações.
A lógica é combinar aquisições de empresas estabelecidas com a abertura gradual de novas unidades.
Fim da escala 6x1 também entra no planejamento
Outro tema acompanhado pelo Grupo Sabin é a discussão sobre o fim da escala 6x1 no Brasil.
Abdalla afirma que a companhia já estuda possíveis mudanças na organização das jornadas de trabalho, especialmente por atuar em um setor que demanda atendimento contínuo.
Parte dos profissionais já trabalha em escalas de 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso, modelo que a empresa espera poder manter conforme as regras que vierem a ser estabelecidas.
A CEO reconhece que uma eventual redução da jornada poderá exigir a contratação de novos funcionários.
"É claro que, como todas as empresas, isso deve demandar, sim, contratação de novos funcionários. Será necessário", afirma.
A companhia aguarda a definição das regras e dos prazos de implementação para dimensionar os impactos operacionais.
Veja também: Fim da escala 6x1: a indústria mais antiga do Brasil cresce com modelo 4x3
O que a CEO espera para a saúde brasileira em 2027?
Com a aproximação de um novo ciclo político no Brasil, Abdalla defende que a ampliação do acesso à saúde esteja entre as prioridades do país, independentemente do resultado das eleições.
Para a executiva, o desafio não está apenas em criar novas políticas públicas, mas também em dar continuidade a iniciativas que já demonstraram resultados.
"O SUS e o Ministério da Saúde já têm projetos muito importantes, muitas boas políticas implementadas. Então, muita coisa é continuidade mesmo do que já foi feito até hoje", afirma.
A CEO também defende que o atendimento de qualidade não fique concentrado nas grandes capitais.
"A saúde que nós queremos é uma saúde com mais acesso a serviços com qualidade, que garantam segurança ao paciente, mas, sobretudo, que cheguem à população nos diferentes locais do Brasil", diz.
