Guerra do azeite na Europa pode criar gigante de 2,2 bilhões de euros; entenda
Italianos, franceses e australianos disputam a Deoleo, mas uma oferta da espanhola Dcoop colocou a cooperativa à frente na corrida pela companhia.

Uma disputa de 470 milhões de euros pode mudar o mapa do azeitemundial. De um lado está a Dcoop, cooperativa espanhola que reúne 75 mil famílias de agricultores e pecuaristas e se apresenta como a maior produtora mundial de azeite de oliva. Do outro, a Deoleo, dona de marcas centenárias como Carbonell, Bertolli e Carapelli e considerada a maior engarrafadora de azeite do mundo.
A Dcoop assumiu a dianteira na corrida pela compra da Deoleo com uma oferta de 470 milhões de euros, segundo o jornal espanhol El Economista. A operação ainda não está fechada e pode avançar até setembro. Na disputa também aparecem as italianas Coricelli, Bonifiche Ferraresi e Newlat Food, a francesa Lesieur, controlada pelo grupo Avril, e a australiana Cobram Estate Olive.
A notícia fez as ações da Deoleo dispararem mais de 20% nesta quarta-feira, 19 de agosto. Mas a movimentação na bolsa é apenas uma parte da história. Caso leve a Deoleo, a Dcoop passaria a controlar um grupo com faturamento superior a 2,2 bilhões de euros e 15% do consumo de azeite na Espanha.
A operação seria também uma espécie de encontro entre duas pontas do mesmo negócio. A Dcoop tem força principalmente na produção agrícola e no processamento da azeitona. A Deoleo construiu seu tamanho sobretudo em marcas, embalagem, distribuição e presença internacional.
Quem é a Dcoop?
A história da Dcoop ajuda a explicar por que a cooperativa quer avançar mais uma etapa na cadeia do azeite.
O grupo atual nasceu de uma sucessão de fusões de cooperativas espanholas. Em 2003, a união entre Oleícola Hojiblanca de Málaga e Cordoliva deu origem à Hojiblanca, então já considerada a maior produtora mundial de azeite de oliva. Dez anos depois, o grupo adotou o nome Dcoop.
Hoje, a empresa é uma cooperativa de segundo grau: seus sócios são, em sua maioria, outras cooperativas, que por sua vez pertencem a cerca de 75 mil famílias agricultoras e pecuaristas. Além do azeite, atua com vinho, azeitonas de mesa, cereais, frutos secos, pecuária e insumos agrícolas.
No azeite, a escala é grande. A companhia informa uma produção média próxima de 200 mil toneladas de azeite de oliva virgem, principalmente a partir das variedades picual e hojiblanca, cultivadas em regiões como Jaén, Córdoba, Granada, Málaga e Sevilha.
Em 2025, o grupo consolidado faturou 1,421 bilhão de euros. O negócio ligado ao olivar respondeu por 875,3 milhões de euros, dos quais 723,2 milhões de euros vieram do azeite. O grupo exportoumais de 697 milhões de euros naquele ano.
O modelo, porém, ainda tem uma diferença importante em relação ao da Deoleo. Grande parte do poder da Dcoop está antes da prateleira: na produção, no processamento e na comercialização do produto. Comprar a Deoleo ampliaria seu acesso justamente à parte mais visível do mercado — as marcas encontradas nos supermercados.
E quem é a Deoleo?
A Deoleo ocupa o outro lado dessa cadeia.
A companhia nasceu em 1955, em Bilbao, com o nome Arana Maderas. Ao longo das décadas, passou por uma série de transformações e aquisições até reunir algumas das marcas mais conhecidas de azeite do mundo. Seu portfólio inclui Bertolli, Carapelli, Carbonell, Koipe e Figaro.
Algumas dessas marcas são muito mais antigas do que a própria companhia. A Carbonell, por exemplo, foi fundada em Córdoba em 1866.
É essa coleção de marcas que ajuda a explicar o interesse dos compradores.
A Deoleo faturou 821 milhões de euros em 2025, ante 996 milhões de euros milhões no ano anterior. A queda da receita ocorreu em meio à redução do preço da matéria-prima, mas veio acompanhada de aumento de 11% no volume vendido. O Ebitda avançou 50%, para 50 milhões de euros, e a companhia voltou ao lucro, com resultado líquido de 20 milhões de euros.
A empresa também reduziu sua dívida financeira líquida comparável em 26%, para 86 milhões de euros, ao final de 2025.
Os números continuaram melhorando em 2026. No primeiro semestre, a Deoleo registrou lucro líquido de 19,4 milhões de euros e Ebitda de 33 milhões de euros. Excluindo efeitos extraordinários ligados à devolução de tarifas nos Estados Unidos, o Ebitda cresceu 23% na comparação anual.
O grupo tem colocado Estados Unidos, Alemanha, Índia e países do Extremo Oriente entre os mercados prioritários para ampliar sua operação internacional.
Por que a Dcoop quer a Deoleo
A combinação é atraente porque as empresas são grandes em partes diferentes do negócio.
Enquanto a Dcoop controla uma extensa base produtiva — suas cooperativas recebem, processam e comercializam a produção dos agricultores —, a Deoleo dispõe de uma carteira de marcas distribuída em diferentes países.
A união formaria um grupo com mais de 2,2 bilhões de euros em faturamento e reuniria no mesmo guarda-chuva marcas como Koipe, Carbonell, Hojiblanca, Dcoop e Cordoliva. A fatia estimada seria de aproximadamente 15% do mercado espanhol.
Existe, porém, um obstáculo: justamente o tamanho que torna a operação atraente pode criar problemas concorrenciais.
Segundo o jornal espanhol, a Dcoop provavelmente teria de vender as marcas italianas Bertolli e Carapelli para reduzir preocupações de autoridades antitruste nos Estados Unidos. A cooperativa já atua no país por meio da Pompeian, uma das principais marcas locais de azeite.
Ou seja, a guerra do azeite não termina necessariamente com quem colocar mais dinheiro na mesa. Também será preciso definir quais marcas poderão permanecer juntas.
Por que o azeite virou um negócio tão disputado
A negociação ocorre depois de anos incomuns para a indústria.
Secas e colheitas menores fizeram os preços do azeite dispararem entre 2022 e 2024. A recuperação da safra espanhola de 2024/2025 mudou novamente o mercado: a produção no país aumentou cerca de 64%, ajudando a reduzir os preços da matéria-prima e reativar o consumo.
A normalização aparece nos balanços das duas empresas. Na Deoleo, a receita caiu com os preços, mesmo com avanço no volume. Na Dcoop, a faturação também recuou, apesar de a cooperativa ter exportado mais produtos em quantidade.
A eventual compra, portanto, acontece justamente quando o setor deixa para trás um período de escassez e preços recordes.
Para a Dcoop, controlar a Deoleo significaria aproximar as oliveiras de algumas das marcas mais conhecidas das prateleiras. Para os rivais italianos, franceses e australianos que continuam na disputa, significa impedir que essa combinação fique nas mãos de um único grupo espanhol.
