Guerra, eleição e El Niño elevam incertezas para PIB em 2026, diz economista da FGV

A guerra no Oriente Médio, as eleições e possíveis efeitos do El Niño estão entre os principais fatores de incerteza para a economia brasileira em 2026. A avaliação é de Henrique Alencar, economista e analista do Núcleo de Contas Nacionais da FGV Ibre, após a divulgação do crescimento de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre.
Embora o resultado tenha sido impulsionado pelo consumo das famílias, pela agropecuária e pela indústria extrativa, o economista avalia que a tendência para os próximos trimestres segue sendo de desaceleração, em meio à inflação pressionada e à perspectiva de manutenção dos juros em patamar elevado.
Em entrevista à EXAME, Alencar também comenta o papel das medidas do governo no consumo das famílias, o comportamento dos investimentos e os fatores que podem influenciar o desempenho da economia brasileira ao longo do ano.
- Cinco pontos que explicam a alta do PIB no 1º trimestre
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Pode destacar os principais pontos que explicam a alta do PIB no primeiro trimestre?
Sobre o resultado que saiu do IBGE, vimos que a economia brasileira retomou um crescimento que, no final de 2025, não vinha apresentando. Com esse 1,1%, inclusive, acredito que está mais ou menos dentro da expectativa do mercado para esse primeiro trimestre, talvez um pouco acima do esperado. Consigo destacar o consumo das famílias na parte da demanda mesmo, e continua crescendo razoavelmente e tem um impacto importante no PIB. A própria indústria extrativa, na parte das atividades, participou e fez muito peso dentro do crescimento da indústria. Temos tanto por conta do aumento do preço do petróleo, da questão internacional, do conflito no Oriente Médio impactando isso. Não que seja diretamente causa e consequência, porque já tínhamos uma estrutura, uma ideia de produção da extrativa evoluindo ao longo desse trimestre. E a agropecuária não teve aquele desempenho que experimentou nos anos de supersafra, que eram bem extraordinários, mas continua crescendo de forma forte. Como vimos, a projeção para a própria produção de soja neste ano é recorde. Poderia destacar esses três pontos: a agropecuária; na indústria, tem a indústria extrativa; a transformação não está conseguindo render muito por conta dessa taxa de juros alta. E, na parte de serviços, tem um destaque do serviço de informação, que tem relação com a inteligência artificial e a digitalização da economia.
Olhando para o consumo das famílias, ele é explicado por medidas do governo federal em ano eleitoral ou são questões mais sazonais?
Tem uma parcela bem importante do governo nesse crescimento do consumo das famílias. Vimos que teve algumas mudanças do final do ano passado para agora na questão da isenção de imposto de renda para uma parte salarial. Temos também o mercado de trabalho, que está bem aquecido. E isso impacta diretamente o consumo das famílias. Imaginamos que isso tenha um efeito direto no consumo das famílias, não uma questão sazonal.
Como vê o resultado dos investimentos nesse trimestre?
É muito interessante que, da parte da indústria de transformação, não se veja uma evolução. Mas, quando a olhamos para a formação bruta, teve esse crescimento significativo do último trimestre para esse agora. Tem uma perspectiva de aumento da produção para o futuro, que talvez tenha surpreendido, apesar da taxa de juros alta.
O que você espera para o restante do ano? Teremos uma desaceleração a partir do segundo trimestre?
As expectativas para o ano são bem incertas. Por exemplo, tem a questão da guerra, que não sabemos quando vai acabar. Isso afeta diretamente a inflação brasileira. E, por ser também um ano eleitoral, não temos ideia do que pode acontecer. Entendemos que tem essa trajetória, essa toada de desaceleração no longo prazo. Vimos que, em 2024, cresceu perto dos 6% no ano e, em 2025, foi por volta de 2%. Neste ano, a expectativa do mercado é de 1,9%. Vemos que está caindo o crescimento anual. Agora, com relação às expectativas de que a taxa de juros se mantenha elevada, porque não tem muito como controlar essa questão da inflação. Antes da guerra, tínhamos uma expectativa de que a taxa de juros ia cair, que a inflação ia cair e que isso poderia impulsionar um pouco mais a economia. Acho que a ideia mesmo é de desaceleração, a inflação ainda pressionando. Imagino que o Banco Central sustente uma taxa de juros alta, então a atividade tem essa tendência de queda ao longo dos trimestres. O primeiro trimestre tende a ser um trimestre mais forte. Outro ponto que pode impactar, por exemplo, a própria agropecuária com o El Niño pode chegar no segundo semestre, afetando consideravelmente a produção. É algo para se destacar como uma incerteza para o meio do ano.
Você vê que o crescimento da economia brasileira registrado nos últimos anos é estrutural?
Temos muitos ganhos de produtividade da própria agropecuária ou dos estímulos governamentais. Mas entendo que ainda existe uma sensibilidade ao contexto mundial, internacional. Quando o petróleo tem essa elevação, temos ganhos de arrecadação. Ou, quando a soja tem uma alta demanda na China, tem esse aumento da agropecuária. Mas, internamente, pode-se dizer que sim, tem uma base se fortalecendo dentro da economia brasileira.
