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InvestMercados
10/08/2026
5 min

Guerra entre EUA e Irã impulsiona elétricos chineses no mundo

Gasolina mais cara ajuda montadoras chinesas a escoar excesso de estoque doméstico em 2026

Guerra entre EUA e Irã impulsiona elétricos chineses no mundo

A China enfrenta um excesso de estoque e demanda fraca no mercado automotivo doméstico, mas, com a gasolina mais cara em praticamente todos os continentes devido à guerra no Irã, motoristas de diversos países passaram a considerar os carros elétricos uma alternativa viável.

As exportações chinesas de veículos elétricos cresceram 120% anualmente no primeiro semestre, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês). As informações são do Wall Street Journal.

Em mercados como Brasil, Austrália, Coreia do Sul e Vietnã, as vendas de elétricos praticamente dobraram desde o início da guerra. Na Colômbia, o salto foi ainda maior, com as vendas quadruplicando no mesmo intervalo.

A própria IEA revisou para cima sua projeção para o setor neste ano. Agora, a agência espera que os elétricos representem 29% das vendas globais de carros novos em 2026, ante 25% no ano passado. Na China, mais da metade dos carros novos vendidos no país são elétricos.

Estados Unidos seguem blindados

Só que nem todo mercado está aberto para essa onda de veículos chineses. Altas tarifas continuam mantendo as marcas fora dos Estados Unidos, protegendo montadoras locais como a Ford de uma concorrência que poderia ser avassaladora, na avaliação de fontes ouvidas pelo WSJ.

O mercado americano de elétricos, porém, enfrenta um problema à parte, que pouco tem a ver com a China. As vendas de veículos elétricos vêm caindo no país desde que um subsídio fiscal da era do ex-presidente Joe Biden expirou no terceiro trimestre do ano passado.

Marcas chinesas avançam na Europa

O cenário é diferente do outro lado do Atlântico. Na União Europeia (UE) e no Reino Unido, onde as tarifas são bem menos punitivas, marcas chinesas como Geely e BYD aparecem cada vez mais nas ruas.

Em junho, as fabricantes chinesas Geely, SAIC Motor, BYD, Chery e Leapmotor somaram 12,1% dos registros de carros novos nos locais, ante 7,7% no mesmo mês do ano passado, de acordo com a Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis.

A Tesla também ampliou registros no período, enquanto marcas europeias tradicionais perderam espaço, caso da Volkswagen, da Renault e também da Ford.

A situação é particularmente delicada para a Volkswagen, que precisa defender o próprio quintal europeu. Além disso, as entregas de veículos da montadora alemã para o mercado chinês recuaram 37% no segundo trimestre em relação a um ano antes, pressionadas pela concorrência intensa.

Para rivais como a própria Volkswagen e a Stellantis, dona da Fiat, reagir ao avanço chinês não será tarefa simples. Fabricar um carro elétrico na China custa cerca de 35% menos do que na Europa, graças à mão de obra barata e a uma cadeia de suprimentos de elétricos mais robusta.

Sudeste Asiático aposta nos elétricos

Fora da disputa direta entre China e Ocidente, governos do Sudeste Asiático passaram a enxergar o carro elétrico como uma ferramenta de segurança energética. A região sentiu com força os efeitos da alta do petróleo, e a eletrificação pode reduzir a dependência da gasolina importada.

A Tailândia cortou impostos sobre a importação de elétricos. Seu primeiro-ministro também trocou publicamente um Rolls-Royce por um BYD como parte de uma campanha nacional de economia de energia, conforme reportagens da imprensa local.

O Laos foi além e baniu 100% da importação de carros a combustão pelo restante do ano. O Camboja anunciou uma série de políticas favoráveis aos elétricos, incluindo a redução de tarifas alfandegárias.

E esse movimento tem custado caro às montadoras japonesas, para quem o Sudeste Asiático é um mercado estratégico. A Toyota e outras marcas do país já vinham perdendo espaço na região antes mesmo da guerra, mas o processo se intensificou.

Entre 2023 e 2025, fabricantes chineses ampliaram a fatia média de vendas de carros novos na Malásia, Indonésia, Tailândia, Vietnã, Filipinas e Cingapura, saindo de 4% para 11%. No mesmo período, as marcas japonesas viram sua participação conjunta recuar mais de 10 pontos percentuais, para 57%, segundo a PwC.

Elétricos chineses repetem roteiro dos painéis solares?

Para quem acompanha a indústria há mais tempo, o momento atual do setor automotivo chinês guarda semelhanças com o que aconteceu com os painéis solares mais de uma década atrás, quando subsídios generosos do governo chinês geraram excesso de capacidade produtiva no setor solar.

O resultado foi uma guerra de preços dentro do próprio país e, na sequência, uma inundação de produtos chineses baratos em mercados estrangeiros. Consumidores ao redor do mundo saíram ganhando com preços menores, mas às custas do enfraquecimento das indústrias locais.

Hoje, as fabricantes chinesas de veículos elétricos controlam 60% das vendas do segmento em mercados emergentes, ante apenas 10% de participação em carros a combustão nesses mesmos países. Isso os coloca na posição de maiores beneficiados por qualquer aceleração global rumo à eletrificação.

Com a gasolina mais cara elevando o apelo dos elétricos em países onde a taxa de posse de automóveis ainda é baixa, cresce a possibilidade de consumidores nesses mercados comprarem um carro elétrico chinês como primeiro veículo. Nesse cenário, eles poderiam pular de vez a etapa da gasolina.

Estimativas divulgadas pelo WSJ apontam, ainda, que mercados emergentes, como o Brasil, devem responder por 60% da demanda global de automóveis na próxima década.

Nesta segunda-feira, 10, os preços do petróleo Brent sobem 1,78%, a US$ 85,04, e os do West Texas Intermediate (WTI), referência nos EUA, avançam 1,82%, a US$ 79,58, por volta das 9h09 (horário de Brasília).

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
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