Guerras, fertilizantes e clima podem trazer nova onda de instabilidade para sistema alimentar global
Segundo estudo do Council on Foreign Relations, riscos são crescentes para 2027 e 2028

A combinação de guerras, alta dos preços dos fertilizantes, mudanças climáticas e ataques à infraestrutura alimentar pode provocar uma nova onda de instabilidade no sistema alimentar global nos próximos anos, aponta um estudo do Council on Foreign Relations (CFR). A análise realça riscos crescentes e imediatos, especialmente para 2027 e 2028.
O estudo foi motivado por novos ataques russos contra instalações de exportação de alimentos na Ucrânia. No fim de julho, o Kremlin atingiu navios cargueiros no porto de Odesa, reduzindo a capacidade de um dos principais corredores de exportação de grãos do país. Em resposta, a Ucrânia atacou o porto russo de Novorossiysk e danificou dois terminais de exportação de grãos.
Para o CFR, o episódio mostra como a alimentação passou a ser incorporada à lógica da guerra moderna, sendo utilizada basicamente como armamento — o uso de alimentos como instrumento estratégico não é novo, mas ganhou alcance internacional com a globalização das cadeias agrícolas, o que permite que conflitos locais provoquem impactos muito além das fronteiras dos países envolvidos.
O exemplo da Rússia é particularmente preocupante. Segundo o estudo, o país vem utilizando as exportações de trigo como instrumento de influência sobre países africanos cuja cooperação diplomática é importante para Moscou. Ao mesmo tempo, grupos armados e governos também podem utilizar bloqueios, restrições à ajuda humanitária e destruição de infraestrutura para controlar populações ou pressionar adversários.
Segundo o CFR, o fenômeno pode assumir três formas principais: a manipulação das rotas de abastecimento e de ajuda alimentar, a criação ou exploração deliberada da insegurança alimentar e o ataque à infraestrutura responsável pela produção e distribuição de alimentos. A destruição de plantações, armazéns, reservatórios de água, estradas e portos também é destacada no estudo como uma ferramenta de coerção.
Na Ucrânia, os efeitos já são visíveis. Nos primeiros nove dias de agosto, o país exportou 463 mil toneladas de grãos, cerca de um terço do ritmo médio registrado antes da retomada dos ataques russos. A suspensão das operações das empresas de navegação ocorreu após um ataque com mísseis contra um navio carregado de milho, que resultou na morte de 10 tripulantes.
Fome como consequência: conflitos, mudanças climáticas e economia
Apesar da gravidade da situação, as alternativas também são limitadas: o transporte terrestre pode custar entre US$ 50 e US$ 70 a mais por tonelada, enquanto os baixos níveis de água no rio Danúbio, um dos principais da Europa, localizado no leste do continente, reduziram a capacidade desse corredor de transportar volumes significativos de carga.
Uma nova interrupção prolongada nas exportações ucranianas poderia, portanto, reproduzir parte do choque observado em 2022, apura o CFR.
O problema, porém, não está apenas na redução da oferta de grãos e é complexo e interligado a uma série de fatores e variáveis, do clima aos conflitos e à economia.
Por exemplo, o sistema agrícola global enfrenta dificuldades com insumos em decorrência de múltiplos fatores: a guerra entre os Estados Unidos e o Irã e a interrupção parcial do tráfego no Estreito de Ormuz afetaram o fluxo de fertilizantes, enquanto o fenômeno El Niño ameaça reduzir a produção de algumas das principais culturas agrícolas do mundo.
Os preços dos grãos já refletem parte dessa pressão. Entre janeiro e julho de 2026, o preço do trigo no Hemisfério Norte subiu, em média, 24%; o arroz avançou 14%, a soja aumentou 8% e o milho teve alta de 4%. Ao mesmo tempo, agricultores reduziram as compras de fertilizantes após o salto de preços registrado em abril, uma decisão que pode afetar as próximas safras.
Por sua vez, o comportamento dos fertilizantes também é desigual:
"Para os agricultores, a alta dos preços coincide justamente com a temporada de compras. Os produtores do Hemisfério Norte, assim como os do Brasil, decidem sobre a compra de insumos para a segunda safra de milho entre setembro e dezembro — período em que a soja ainda está no campo e bem antes das respectivas janelas de plantio. Com a ureia barata e o fosfato caro, muitos podem optar por comprar o primeiro insumo em detrimento do segundo. Isso aumenta o risco de uma futura queda na produtividade, pois o solo possui uma reserva de fosfato capaz de suprir a ausência de fertilizante por uma safra, mas não por duas. Esse é mais um fator que contribui para uma possível crise alimentar em 2027", diz o CFR.
Efeito cascata
"Super El Niño" ameaça estabilidade climática sobre a qual plantios no mundo todo dependem, pondo em risco plantações que suprem o mercado global
Essa diferença pode produzir efeitos que vão além da próxima colheita. O solo consegue compensar a ausência de aplicação de fosfato por uma temporada, utilizando reservas acumuladas, mas uma segunda temporada de déficit tende a esgotar esses estoques.
O CFR estima que os impactos mais graves dessa dinâmica podem surgir em 2028, caso os produtores continuem a reduzir o uso do nutriente. O risco é particularmente relevante para produtores do Hemisfério Norte e do Brasil, que tomam decisões sobre a compra de insumos para determinadas culturas meses antes do plantio.
A pressão sobre a oferta agrícola, em turno, soma-se ainda às condições climáticas. Segundo o estudo, a Organização Meteorológica Mundial prevê que o El Niño de 2026 eleve as temperaturas e altere significativamente os padrões de precipitação por todo o mundo. O Centro de Previsão Climática da NOAA, entidade norte-americana, estima uma probabilidade de 90% de um El Niño muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Os efeitos podem afetar diferentes regiões produtoras em todo o mundo. Dados analisados pelo CFR indicam riscos para o trigo australiano, o arroz indiano e, inclusive, a soja brasileira. Historicamente, episódios de El Niño reduziram as colheitas australianas de trigo, enquanto a Índia e o Brasil podem enfrentar, respectivamente, excesso de chuvas e combinação de calor e seca durante fases importantes das lavouras.
O resultado é uma convergência de choques que, normalmente, seriam analisados separadamente: de um lado, os ataques russos ameaçam a produção e as exportações de grãos ucranianos; de outro, a crise no Oriente Médio pressiona a economia, afetando a disponibilidade de fertilizantes. Ao mesmo tempo, o clima acrescenta uma terceira fonte de incerteza às próximas safras.
Para o CFR, esse cenário, quando considerado apenas por suas partes, pode gerar efeitos cumulativos sobre o sistema alimentar internacional nos próximos 12 a 24 meses, especialmente porque os choques atingem simultaneamente as duas pontas da cadeia agrícola: a oferta de insumos necessários à produção de alimentos e a capacidade de exportar a produção já existente.
O estudo defende, portanto, que os governos passem a tratar a segurança das cadeias agrícolas e a preservação do meio ambiente com a mesma prioridade dada às estruturas de defesa. A competição por estoques limitados de grãos e fertilizantes, combinada à disposição de governos e grupos armados de utilizar o acesso aos alimentos como instrumento de pressão, aumenta a vulnerabilidade do sistema global.
"Compreender a instrumentalização dos alimentos como arma — na interseção entre agricultura, mudanças climáticas, mobilidade humana, insurgências, cadeias de suprimentos e guerras comerciais — oferece um modelo para entender os novos conflitos do século XXI que se avizinham. Em suma: se planejadores estratégicos e formuladores de políticas compreenderem essa dinâmica, estarão um passo mais próximos de estarem preparados para enfrentar conflitos multidimensionais nas próximas décadas", conclui o estudo.
