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Exame INACS
05/09/2026
6 min

Gustavo Franco: Agosto, mês de ... eleição

Campanha tomou conta do debate, mas não eliminou os velhos problemas: dívida crescente, pressão sobre os juros e um ajuste fiscal ainda por fazer.

Gustavo Franco: Agosto, mês de ... eleição

A eleição domina todas as conversas. É uma campanha curta, que começou em 16 de agosto, data a partir da qual foram permitidas a propaganda, as lives e os debates entre os candidatos. O primeiro debate ocorreu no dia 23, pela TV Bandeirantes, sem os líderes nas pesquisas (Lula e Flávio Bolsonaro) e sem o ex-governador Romeu Zema. Ronaldo Caiado esteve no debate da TV Bandeirantes na eleição de 1989, do alto de seus 39 anos, 37 anos atrás.

As entrevistas dos candidatos no “Jornal Nacional” tiveram bastante mais ressonância, tanto que nenhum dos candidatos faltou. Até o fim do mês, tudo considerado, inclusive os escândalos, os ponteiros das pesquisas não tinham se alterado, ainda que com várias ameaças.

Tudo parece estacionado à espera do desfecho das eleições, exceto pelo ministro Dario Durigan, que aproveita a oportunidade para avançar sua própria candidatura para permanecer no ministério da Fazenda, caso Lula seja o vencedor. Para quem parecia destinado a tocar o “feijão com arroz” até o final desta administração, o ministro Durigan achou para si uma função ao “prometer” ajustes nas contas fiscais para depois das eleições, implicitamente admitindo que os exageros fiscais de agora são temporários e diretamente ligados à corrida eleitoral. O presidente da República não desencorajou o seu ministro – cujas ideias tiveram algum impacto positivo em meios empresariais, a despeito de muito ceticismo –, mas lhe recomendou “não prometer muito”.

Na verdade, o próprio Lula pareceu admitir “mais comedimento” a partir de janeiro. Inclusive, o governo enviou o PLOA (Projeto de Lei Orçamentária Anual) 2027 com um superávit primário de R$ 18 bilhões, um número minúsculo para receitas de R$ 2,85 trilhões. E mesmo assim, apenas uma promessa.

Em editorial, o jornal “O Estado de S.Paulo” definiu a fala do ministro como a de um “estagiário ambicioso” e recomendou que, nos encontros com as ex-autoridades econômicas que anunciou que iria promover, tratasse da “herança maldita” que seu chefe deixará para seu sucessor sobretudo sob a forma de dívida pública.

Talvez nunca tenha havido tanta preocupação com a dívida pública quanto agora, diante do anúncio de que o valor superou o equivalente a 80% do PIB. A preocupação parece tanto maior quanto maior a indiferença do presidente da República diante do assunto. “A mim não preocupa a dívida pública”, ele afirmou na sua entrevista para o “Jornal Nacional”. E acrescentou: “se tem alguém nesse país que tem responsabilidade fiscal, sou eu.”, a mesma fala da última eleição, quando já havia preocupações com o que aconteceria com a política fiscal, preocupações que se resultaram fundadas.

A maior expressão da inadequação da política fiscal é a taxa de juros unanimemente tida como excessiva e prejudicial à economia, mas admitida como correta tendo em vista a meta para a inflação estabelecida pelo próprio Conselho Monetário Nacional em 3%. Foi o governo quem inventou os 3%, que agora se tornaram um peso.

O Banco Central do Brasil faz o seu papel de buscar os 3%, mesmo desfalcado de dois de seus diretores, cujos mandatos expiraram, e cujos substitutos o presidente da República ainda não designou.

Os mandatos de Diogo Guillen (Política Econômica) e Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro) encerraram-se em 31/12/2025, com as funções sendo tocadas de forma acumulada ou transitória pela diretoria remanescente. O mandato de Ailton Aquino, Diretor de Fiscalização, termina em 31/12/2026. Portanto, três novos nomes para o BCB deverão ser escolhidos, sabatinados e aprovados no primeiro semestre de 2027.

Há um curioso paralelismo entre o BCB e o FED no quesito relativo ao relacionamento com os respectivos presidentes da República. São dois casos de bancos centrais pressionados pela liderança política para a queda de juros, contrariamente às recomendações técnicas.

Gabriel Galípolo está um tanto mais adiantado no processo, tanto que já conseguiu estabelecer o seu espaço. O presidente Lula não faz mais queixas públicas da política monetária como fez com Roberto Campos Neto, a despeito de certo mal disfarçado mal-estar. Lula, inclusive, teve que fazer declarações públicas de que não considera Gabriel Galípolo “um traidor”, por conta da política monetária que vem praticando. Segundo o presidente, “uma pessoa física não pode ser responsabilizada sozinha pela alta de juros no país".

Kevin Warsh, o escolhido por Trump para substituir Jerome Powell, está buscando o seu espaço e sua autonomia. Talvez este seja o resultado esperado dos comitês que organizou em torno de si para “aprimorar a comunicação” da política monetária. Depois de tudo que Trump fez contra Powell, Warsh, o escolhido, precisa mostrar que está do lado certo da Força.

Em seu esperado discurso na Conferência de Jackson Hole, Warsh foi econômico ao afirmar o seu afastamento do que se conhece como forward guidance. Talvez mesmo seja a conduta certa para um banco central às voltas com o fenômeno do crowding out, ou seja, com pressões pelo lado fiscal. Warsh precisava se mostrar parte daquele grupo.

Na verdade, a pressão política por juros menores alcança também os juros longos, por isso é melhor que o FED fique longe disso. Se o Tesouro quiser tratar dos juros longos com seus leilões, que o faça. E a primeira tentativa não foi bem-sucedida e dificilmente se repetirá.

Enquanto isso no Brasil, no dia 5, o COPOM fez outro corte de 25 bps, o quarto em sequência, levando a Selic para 14,00%. Faltam ainda três reuniões em 2026, nada indica que o comitê vá fazer outra coisa. O ano de 2026 deverá fechar com 5,01% segundo o Focus publicado no dia 31/08, mas no começo de 2028 já se espera o IPCA de 3,2%, bem perto do centro da meta. O problema da “desancoragem” ficou mais ou menos resolvido com a extensão do “intervalo de convergência” e certo zelo para não balançar demais o barco.

A eleição segue indefinida, a Terceira Via não parece ameaçar os líderes nas pesquisas, sendo provável que a indefinição siga até o último momento. Ou não. Como saber? Há indícios de que o professor Cury, candidato do Avante, tenha surgido do nada para chegar nos dois dígitos que Caiado, Zema e Renan dizem ser o trampolim mágico para o segundo turno. E no primeiro dia de setembro veio a divulgação das conversas de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro.

Nesse contexto, o noticiário econômico fica espremido no fundo do jornal, brigando por espaço com os classificados. Taxa das blusinhas, escala 6x1, ajuste fiscal, quem quer saber dessas coisas quando há tantas revelações picantes emanando de Brasília?

AutorGustavo Franco
FonteExame
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